sábado, 17 de julho de 2010

Descanso

Assim pelo menos a cerveja não esquenta, ainda que ser quente ou não nunca ter sido um problema pra mim. Largar o corpo no chão, sentar na areia como se a resistência do ar estivesse de greve por alguns segundos devido a salários pendentes. É gente que passa correndo, e o mar; menino que faz xixi agachado, e o mar; é eu indo embora no meu carro e o mar. Essa minha mania de ver continuidade em tudo, que literalmente me faz levantar e caminhar pela beirada do que parece infinito, talvez seja mais eu do que imagino ser entre pegadas e goles. Não fumo!, e faço questão de pensar isso alto de um jeito que o Cristiano consiga assimilar em um dos seus vários sonhos malucos. Estou aqui, quase que um personagem de Vento no Litoral sem nada pra procurar no risco cinza e gelado que tremula lá pro fundo. O bom de não conhecer ninguém é ter a obrigação de admitir que o cara que caminha, de fones no ouvido e mão esquerda no bolso, pode ser tão estranho como o próprio espelho.

Não sei em que prédio você passa as férias, mas não é tão rica pra receber o bom dia do dia de frente pro mar. Iria ser legal, e passaria duas vezes em frente tua simplicidade imponente deitada na areia pra ter certeza que nos vimos, e assim poder fazer valer nosso teatro nato de fingir a trama. Seriam horas ímpares e minutos pares, tempo suficiente pra ganhar confiança, pra perder o pudor, pra admitir que nada daquilo tinha sido um projeto elaborado do acaso, financiado pelos fundos inesgotáveis do destino; tinha sido de propósito, tinha sido o empurrão para a vontade de descer a serra com meus pneus novos e freios gastos.

Queria tanto um lugar que não conhecesse ninguém, e me pego andando como se estivesse sendo visto de longe e com surpresa por aqueles olhos. Sou tão desorganizado que vou precisar de uma secretária para as datas, e de um psicólogo para ordenar os dilemas. Saí de perto pra tentar resolver o que fica claro só de longe, mas aqui de perto de mim sinto falta do que é longe de tudo. Sendo assim, é apoiar os braços no joelho e ser o rei do cinza de cima daquela pedra; sendo assim, triste assim, não me pergunto por que só assim me acho, porque só assim entendo que apenas longe consigo trazer tudo bem pra perto daqui de dentro.

Esse é meu lugar.

Entro no carro, preciso dormir as horas que restam da tarde pra deixar a tranquilidade ir embora trazendo tudo de volta ao normal. Já sinto saudade de tudo, sinto saudade de como sinto saudade de como sou eu por aqui; mas não sei de outro jeito, e reclinando o banco vou sendo testemunha do último ato rebelde da gravidade. Eu sei o que está acontecendo, e pela primeira vez, não sei o que vai vir. Só quero voltar pra perto de tudo, voltar pra longe de mim, já que lá não sei ser eu e vice versa.


‘’Que cor terão seus olhos

e a luz do seu cabelo.’’

Relicário - Nando Reis e Os Infernais

domingo, 11 de julho de 2010

Luminosa

Queria que você não mudasse por nada. Que o teu jeito de ler não te desse arrepios, que a forma como brinco de ser brincado por você não conseguisse mudar todos os pormenores que desenham seu amanhã. Ser inútil, ser vital e sem utilidade nenhuma em te fazer mais ou menos dessas dúvidas, que mais do que qualquer coisa, lhe são. É que deitado assim no seu colo eu consigo ser a mesma pessoa que discute no estacionamento, que abre a cerveja de má vontade na frente dos amigos, que se pergunta por que diabos você faz tudo que me pede pra não fazer; é que deitado assim no seu colo eu consigo ser você, consigo sentir minha cabeça em teus dedos, o seu sorriso no meu olhar, o teu corpo pelos meus beijos. Se mais nada existisse, faria questão de deixar o mundo completamente vazio.

Quero menos do que vejo, e se quisesse mais, com certeza não me contentaria com o que só ouso chamar de pouco. Um dia você me mostrou um eu que até hoje não sei onde mora, e que do telefone mal sei a operadora. Sei que te vejo achando-o cada vez que entro sem jeito pela porta da sua casa, toda vez que levanto sem jeito do chão da sua sala pra sentar ao lado do teu perfume, toda vez que me sente desse teu jeito sem saber que não sei se sou o nome que sussurra em meu ouvido. É que já faz tanto tempo que não dá mais tempo de mudar, e por vezes não lembro com que pernas eu andava por esse caminho sem sentido.

Por já sermos, não queria me preocupar com validade nem com regras de bom uso. Só nos faltou inventar um manual de instruções que me guiasse por entre as peças das tuas roupas, todas as vezes que te querer ao meu lado foi o gêmeo dois segundos mais velho do não te querer mais. Preciso, e vou precisando tanto que por vezes a vontade consome todo meu desejo. E de você não sobra nada, e de você nunca houve tanta coisa. Nessas horas eu te faço tão relativa que já não sei mais quem é quem, quem é o quê; mas ainda assim me surpreendo com as coisas que já passaram da hora de acontecer.

Agora sei que concorda, sei que sorri quando olha pra sua tv vazia e vê que mais do que ser mais, eu sou muito menos do que dizia ser. Tanto quis não ter nada, que agora sinto falta de ter algo pra não querer. Só não fique assim, digo pra mim mesmo quando literalmente vejo os sonhos que nunca tive perdendo a chance de se tornarem meras ilusões; pela primeira vez, e apertando as mãos ecoaria essa certeza cá dentro até que você acorde desse teu sono sereno de leveza.

Nunca foi nada, nunca foi ninguém, e na verdade ainda não é nada e continua sem ser ninguém. Só sei do meu amanhã, que é tão agora como todo o nosso passado.


Me beija?

Beija-me!

Te quero assim, desse jeito.

Quero-te assim, e hoje não!

Faz-me rir, querida.

Pelo menos uma certa, né?

...

Te amo, cara.

Eu também.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Legião

Tudo ao seu tempo. Ser mais um ao seu tempo.

Quis ter sempre a sorte de encontrar no bolso direito seu walkman ligado justo no dia em que ela acordasse com o pé direito, e que os segundos chatos que leva pra desembaraçar os fones – horas ao fim da vida – servissem para o acaso, quase sem querer, segurar o trecho certo da até então música errada. Tem, e tem há tempos. Antes mesmo de um dia poder querer. Precisa descobrir logo por onde é que anda a mãe, os abraços cheios de lágrimas e quase sem ar que até hoje me faziam mais falta do que pensava; que me faziam ser muito de quem eu não precisava saber nem o nome. Se pudesse eu sofria tudo por você meu filho, se eu pudesse tudo seria diferente, diriam seus dedos na minha cabeça enquanto ouvia as palavras de sua boca fechada de sorrisos. Hoje tem.

Velho assim, homem feito do que ainda não sabe, sente a dor dos outros sendo maior do que seu silêncio, e assim dói por só saber ficar quieto. Nada contra a correnteza, vê o que ninguém sente, e quando pensa em tentar, enche a boca do que tiver no copo mais próximo. Queria que tivessem a força que precisam pra agüentar o que vão ver, mas acha que já não dá, que já não querem. Uma mãe que lembra, um irmão que diz, e um pai que machuca e repete pela falta que sente. É assim, e todo mundo dorme de cansado de tentar.

Embalado no solo de um teatro qualquer, nos primeiros segundos de uma peça onde quatro atuam para apenas um na platéia, sente a obrigação competindo com a vontade de continuar fazendo valer o ingresso; se vale a pena escrever a crítica do que talvez tenha aplausos de apenas duas mãos. E por mais que batam à porta da casa querendo entrar, querendo ocupar os acentos vazios dentro do próprio único espectador, vê o cadeado e não acha a chave. Por fim, escreve.

Todo mundo está extremamente certo, e sorri por pensar que o aperto no peito que sente é realmente de verdade. De tanto não haver errado, começa a achar que certo mesmo é quando tudo não dá certo, e não dar certo é aquilo que nos é demais sem ser o bastante. Vai ficar assim, tendo medo de ter estragado a única coisa realmente boa que fez na vida. Perceber não lhe faz melhor que ninguém, e ninguém é exatamente tudo que ele inveja, tudo que tem vontade de ser enquanto tira a colcha da cama e arruma seus travesseiros.


O Teatro dos Vampiros - Legião Urbana

terça-feira, 29 de junho de 2010

Laço

Tentamos mudar de bairro, acampar no quintal do seu tio distante que tem um sítio no interior, e até passar umas semanas em estados de nomes engraçados se repetidos mais de seis vezes nas madrugadas de sextas feiras. Por fim, apertar firme aquela mão menor junto à minha era fazer a reza valer o dobro, tirar proveito de estar no céu e gritar no ouvido de Deus que eu tinha feito tudo que podia; que se o avião resolvesse cair sem avisar ninguém eu pagaria meus pensamentos ainda não cometidos sem me queixar dos juros. Eu não ia sentir nada, e estava tão acostumado com isso tudo que tinha me convencido de que ninguém já podia, ninguém queria sentir coisa alguma que não os erros que tiravam o erro maior do centro da história. Meio segundo de susto para a tão desejada tranqüilidade.

Não caiu.

Às vezes penso que tivemos tudo que desejamos, e às vezes, tudo que fomos precisando de forma precisa pra retardar o que nos persegue até mesmo de dentro do avião. Eu não lembro qual é o nosso destino, e checo as passagens de turbulência em turbulência pra saber se ali, num canto escondido, bem ao lado daqueles códigos de barra que não me dizem nada, vai escrito onde é que fomos parar; que caminho foi este que os acasos decidiram tomar sem deixar conta de luz rabiscada na minha geladeira, sem avisar que na primeira parada um de nós dois ia ser dar conta que um de nós dois já não estava lá fazia muito tempo. Por fim, fecho a bolsa que dei de presente por alguma data especial, e enquanto vou me lembrando que não me lembro de ainda termos algum dia assim, senta ao meu lado e sorri, por um segundo, o mesmo sorriso sem graça que serve como recibo de garantia para a tv que fica fora da tomada no canto da nossa sala espaçosa.

É que sempre vivi em função do ontem por não saber se iria funcionar quando o sussurro manso do meu celular me acordasse no outro dia. Assim fui deixando passar meu agora pra aproveitar, com esse meu jeito sentado e de copo pela metade, tudo que deixei de lado até então. Simplesmente não agüento nada, e acho até engraçada essa imagem que fiz de mim pra conquistar o primeiro amor da minha vida durante nove anos e dois filhos. Se fosse jovem e soubesse que os bons máles da vida não me comprometeriam em nada, iria abrir mão de aprender a viver como um, de costurar sob confissões e dias de sol alguns sonhos sonhados apenas para serem desculpas que me convencem a ir dormir.

Enquanto o avião pousa, percebo que, de fato, nossa vida talvez nunca tenha decolado. Criamos os momentos especiais, ajustamos o foco do nosso destino, e nos restava apenas administrar os poucos nuances que deixamos a vida nos dar. Uma vida cheia de mentiras, mas que nem por isso deixou de ser de verdade, e que nem por isso deixou de ser sincera. Mentiras sinceras. De fato, a espera pra sair desse charuto com asas é infinitamente menor do que as horas de reconciliação que não serão mais que minutos. Vou acabando tudo antes da hora simplesmente por não conseguir separar o que os anos foram agregando, e agora, sem mais nem menos, me vejo em um aeroporto segurando uma mão pequena junto à minha tão estranha quanto a da minha esposa, que rindo, acha que eu estou fazendo graça. Rio, mas a graça fica com ela, assim como boa parte dos nossos bens ficarão poucos meses depois.

Sentirei falta dela mais do que sentirei falta de mim se for permitido pensar enquanto morto, e vou esperar que entenda como consigo te amar mais longe de mim do que ao meu lado. No meio tempo, vou sendo só saudades, tendo só saudades de quando minhas metas de 15 anos não eram nada mais que desejos de 15 minutos, que da mesma forma que vinham como sonhos de festim, iam embora trocados por coisas que eu já nem me lembro mais.


Ári.

domingo, 13 de junho de 2010

Músicas de Inverno

Ausentei-me. Aquilo que pensei que nunca passaria, aquela vontade que é quase uma necessidade por essas cidades que achei nunca terem limite, foi-se um pouco, foi-se por uns dias, foi-se por nada mais que menos de algumas semanas. Pra que cativar o olhar, pra que arrumar o carro, o porquê de deixar tudo em dia; vem, pode vir sim!, pode vir pra me explicar pra qual lado o bom senso resolveu ir, por que foi que a pontinha de saudade chegou assim, sem avisar, chegou-se assim no meu travesseiro e me pôs pra dormir até o próximo fim de semana chegar. Sim, ausentei-me. Quis deixar de presente pro meu destino esse eu que já cansou de mim e vice versa.

Vai passar, e antes mesmo de chegar janeiro vou sentar divagando de frente pro mar, achar um calendário do verão passado enterrado na areia, e confirmar porque foi que o carnaval passou tão depressa esse ano, porque foi que ser feliz assim cobra caro nos meus sábados dentro do apartamento. E como passar não é ir embora, a brincadeira é ficar passando cá dentro até que alguma coisa faça sentido, até que algum jornal voe direto na minha cara justo na noite que eu deixei a janela aberta pra sombra dos carros, para os postes cadentes e estrelas empregadas do sensor do céu.

Eu volto, claro que volto; mas espero que volte de carona nas mãos que correm pelos meus cabelos, mãos que não sabem, mãos que nem sequer imaginam como quis ser Capitu nas mãos de Bentinho. Só assim vou insistindo, só assim encontro na porta da minha casa razão pra deixar tudo ir embora, e olho para os não sorrisos no banco ao lado, pras gentilezas fora de hora que tiram de mim a responsabilidade de qualquer coisa. Engulo à seco, abro a boca à seco e digo coisas sem nexo na esperança de coisa alguma; sim, eu! se fizer errado que seu sorriso conserte depois, que o mundo entre no trilho apenas no dia em que pegar tua mão não seja precedido de mil pensamentos, mil resoluções com apenas uma certeza lenta que me embala.

Não saber a cor é desculpa, acredite. É comédia romântica com mais daquilo do que disso, quase sem graça nas horas que aperto o passo pro que já tem ritmo ordenado. Não sei, apenas não sei, e queria saber não saber das coisas da mesma forma que disfarça, da mesma forma que deixa pra lá o que ninguém realmente sabe onde diabos está, onde diabos vai parar com esse jeito sem jeito. É, apenas é e continuará sendo. Só te peço o arrepio, o pensamento vazio antes de encher a cabeça de sonhos cheios de sonhos, de sonhos que desconheço por já saber de mais.


Elephant Gun – Beirut