sexta-feira, 26 de setembro de 2014

tia Tuca

para D.R., que de bailaora que é me faz dançar os sonhos.

Tuca, Sandra e Barnabé,
tios e pais.

Pablo, primos e todas as crianças que naqueles dias foram amadas. Inclusive eu.

a casa de tia Tuca ficava num longe pra lá dele mesmo. era só amor, e talvez disso tanto não perceba sinônimos ao meu redor. pegávamos dois ônibus e eu já pequeno sentia na espera da condução o ritmo lento de Cachoeiro, a calmaria dessabida que a gente de cidade grande não sabe saber. naquele tempo ainda não dava às mangueiras o carinho do Braga do Teatro Municipal, a mania de pintar histórias das tintas transmutadas de saudades. descíamos eu e meus primos e tia Binha pela Avenida Beira Rio. as pessoas de lá vestidas sempre de sol na pele morena, o Itapemirim brincando nas pedras sem que o murmúrio do jogo fluído fosse diferente desse pensar em silêncio de cada um que ali espera a vida. se bem me lembro as pessoas do centro de Cachoeiro tem olhos de céu e cor de Itapemirim, e isso a gente que é gente de cidade grande não pode poder.

chegava esgarçado ao pé do morro: tia Binha me estancava no pulso o sangue do braço pelas recomendações de mamãe que bem sabia minhas maldades. dureza em carinho numa responsabilidade de irmã mais nova aos conselhos de minha mãe que à tia era irmã e tempo. estranhava subir no Flecha Branca pela porta de trás, as distâncias curtas cortadas pela aparente única rua daquela cidade em vale. eram ladeiras onde a chuva dançava em vertiginoso escorrer, montanhas cravadas de casas e de mármores assaltados que por lá nascem até das flores. a subida era alegria: corríamos eu e Pablo pelas escadas de curtos degraus na certeza de que o primeiro a chegar teria o carinho de Deus, a sorte das carambolas mais doces no pé da casa de nossa Vó. tia Binha nos seguia na cadência dos fumantes, hora ou outra um grito enfumaçado pra que cuidássemos com os carros desembestados que despencavam num consciente ir sem freio. Pablo já naquele tempo trazia em si um gosto de desconforto, um bem estar presente apenas nas mudanças que promovia todo o tempo. comia leite condensado, andava pelo BNH e sabia o número de todas as ruas, os pés de frutas desprotegidos de cachorros bravos que em Cachoeiro tanto latem. lá se fala alto num canto meio baixo, e talvez essas coisas sejam doença de calor. Pablo. não sabia poder sentir o tamanho das coisas, e quando saíamos de carro com meu pai e meu irmão, acompanhava o asfalto das estradas estreitas na certeza do seu lugar ser em toda parte.

chegávamos. montes de areia e tijolos indicavam sempre um cômodo por aumentar, um vergalhão exposto por vestir de cimento e pra sempre. a casa de tia Tuca era a casa mais populosa do meu censo moleque, e muito me espantava a quantidade de comida que todo almoço e janta demandava. às dez horas da manhã, com o olhos ainda empedrados de sonhos remelosos, tomava chocolate e via desenho numa casa já temperada de alho, de fios de óleo e catares de feijão rajado. tio Altar, irmão de minha mãe e companheiro da dona da casa, comia sempre numa panela que talvez servisse todas as crianças que por lá eram tantas. era padeiro e amor, e acordava cedo pra voltar no meio da tarde com tatus ou tartarugas feitas de broas de milho. em cortes de precisão cirúrgica desmembrávamos os animais, eu e Pablo, saboreando patas e olhos de grãos num gosto de aventura. tio Altar era forte e falava rápido. comia melancia com semente e escandalizava minha fé de acreditar nas árvores que nascem nas barrigas desses gulosos. tinha os olhos floridos e um coração desmedido. tia Tuca e ele traziam pra dentro de casa e do peito quem quer fosse, quem quer que quisesse ou mesmo não carinho, teto e confidência.

nos seus vozerios a casa ganhava vida. entravam meninos descalços e meninas sem camisa, um frescor infante que blindava aquelas peles de leite do sol forte de todo dia. os tijolos da casa eram morenos, os rejuntes rangiam de insolação. tia Binha sentava numa cadeira à beira da porta, e numa maestria sabida só por ela, domava a fumaça dos seus cigarros que dançavam apenas da porta pra fora. ela sempre cheirou doce, e nada no mundo é maior que seu abraço amolecido de manha. não lembro o que tia Tuca gostava de fazer. muito entrançava meus cabelos, contava histórias da adolescência de minha mãe que reforçava o carinho mútuo entre elas. ô, tia Tuca; meu peito pequeno que não conseguia guardar saudade hoje fica muxoxo de lembrar.

poucas vezes meus pais ficavam por lá. maior liberdade não sabia saber, e o alto daquele morro mostrava os desenhos de Castelo e o cheiro doce do mar de Piúma. o pico do Itabira, riscado em frente às janelas daquele morro, deixava a textura de suas pedras grudadas aos olhos de quem nele sonhava. crianças e vendedores de sorvete e cachorros lentos tinham os castanhos dos olhos num mármore rugoso: “O dedo de Deus”, dizia meu irmão que tanto àquela época já sabia de tudo. lembro de um dia em que sentamos na laje da casa, eu e Pablo e meu pai numa infância dividida igualitariamente entre nossas pernas soltas no ar. olhávamos o Itabira vestido de nuvens: era longe e chuvoso e parecia mesmo o indicador de alguém de voz ecoante. Pablo e meu pai se riam de mim por não conseguir perceber a chuva que caia pelo alto de lá, me fazendo chover os próprios olhos pela inveja de não dividir as gotas daquelas duas crianças.

a casa já não existe e do bairro já pouca coisa me lembro. o coração de tia Tuca parou meses atrás de tanto ter batido pelos outros, e hoje bate o meu por ela quando Drummond conta da Itabira dele, quando lembro como era ela a negra do sorriso mais branco, da pele mais sorridente que me acarinhava os cachos de seus cosméticos amorangados, acarambolados, jaqueados naquela baba jocosa que a jaca solta na mão e gruda na alma.

descíamos depois de dois, às vezes três dias em que nada fazíamos que não sentir todo o amor do mundo. ao contrário da pressa da subida, eu e Pablo íamos numa cadência própria das fumaças de tia Binha. parecia mesmo fumar mais lento, que as pernas se jogavam numa vontade de não descer. carros de freios de mão estragados dormiam sobre pedras e tocos de pau, e tanto doía não estarmos inúteis assim. hoje sei que lá ficávamos, que sou doente daquele calor, doente do Itabira vestido de nuvens e sol. tia Tuca, a mulher que tinha a casa aos cuidados do dedo de Deus, ensinava amor ao peito de quem por lá sonhava e dormia e era amado. de lá não sei acordar. de lá só saio pro cafuné doce de tia Tuca que hoje acarinha as unhas divinas.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tônho

“poxa, me abraça!”, e reafirmo aqui a exclamação de Tônho que existia em meus braços circundados à sua grandeza de sem mesuras. tinha o cheiro doce desses homens de caráter rijo que se anunciam em corredores pela brisa de janelas entreabertas, aromas intermitentes nos sopros que chegam sempre quando bem entendem as vontades de Deus. na sua barba madura me pontilhava o rosto as lembranças de Ênio, vizinho meu que sacolejava em elegância suas passadas abengaladas. ainda hoje, quando encontro a porta de seu antigo apartamento escancarada em privacidade própria de nossos tempos, sinto no calçamento de minhas saudades a borracha de seu apoio ameno; do doce das suas camisas sempre desabotoadas no peito sem segredo. Tônho tem esse frescor no hálito, as ideias sacolejantes mais norteadas que já se pode saber. quando se desfez em finitude dentro de meus braços, rendeu almas e clavículas num companheirismo trôpego de fim de sábado. quem sabe segunda não se dê folga pra confusão dos adomingueiros. quem sabe.

"Eu quero dormir e você precisa dançar."
Tonio Kroeger - Thomas Mann

quinta-feira, 24 de julho de 2014

visita

parabéns, meu pai.

talvez não bem saibas, estancada que fica por estas janelas tuas de mármore, quão florido é o cheiro pelos arredores de sua casa. chego por uma rara calmaria espalhada desordenadamente nessa rua ensandecida de três da tarde, placas alertando a ausência de saída que trancafia quem sabe almas ou caminhares sem vislumbrados sinais de fuga. duas moças de uniforme fumam sentadas por sob uma lixeira recém pintada e vazia, e a nomenclatura não lhe participa: fumam com as cabeças desabadas tal qual a fumaça de seus pulmões e cigarros que morre sólida pelos paralelepípedos.

desbravo o portão ao fim da vereda densa e invisivelmente tumultuada. bem me sinto nesse teu hall de entrada, nessas gramas e árvores que julgo como jardins imensos ainda que pontilhados por concreto. o porteiro tem o rosto acinzentado, talvez pelo reflexo cinza de seus cabelos e expressões de silêncio. errado é aquele que tira a vastidão das cores ao rosto do comedido e melancólico. errado sou eu, que julgo familiaridade em tudo que fulgura ao contrário nesse entorno com jeito de silêncio e nada mais. nada mais sei que essa mania de reduzir em quietude, e nisso não me dou conta ao assentir-lhe discreto, dizer em brevidade de minhas intenções de visita que começam assim que passar pela floricultura ao outro lado da rua.

o moço que me atende não combina com flores, e isso não sei explicar. peço conselho sobre lírios ou rosas que tenham aroma ou espessura invisível de pétalas que, ao meu ver, tanto podem agradá-la. diz de vasos sem sentido e arranjos disformes que muito me entristecem como quem não tolera sabiá em gaiola pequena. por fim dá a última cartada no aroma perfeito da rosa coral. na minha cabeça cheia de barulhos penso logo no time de Recife e fantasio uma flor capaz de concentrar em seu tronco a paixão em grito uníssono de um Arruda repleto. rio e ele diz que logo volta. atrás de mim habita um senhor de bengala na mão direita, vestido em favores que talvez apenas pelo andar manso o tornam elegante. chega e comenta coisas decifráveis apenas pela expressão dos olhos: uma boca sozinha de dentes e repleta do vermelho vermelho de sua língua e gengivas que se confundiam em tom homogêneo. sorriu e eu sorri, apertou os olhos em reprovação e julguei entender as mazelas do mundo. saiu sem que soubesse que nunca nada ou ninguém pode me ser tão claro do que suas expressões repletas de certeza; saiu tão logo o são bernardo trancafiado começasse urros infinitos que precediam a chegada de minha flor. penso agora se tais latidos de eternidade não me trancaram alguma parte por lá, uma espera ao pé da escada perfeita por ser apenas uma espera destinada. paguei achando desnecessário os ornamentos de plásticos e ramos, e voltando ao porteiro sentia os urros infinitos da voz do homem de bengala que me agradecia à nuca o troco recebido.

confesso os inúmeros corredores e a capacidade do tempo tornar estranha toda e qualquer parte nossa. havia entrado aqui ainda criança na mudança de minha bisavó, e poucos meses atrás na mudança da filha dela que é mãe de meu pai. fiquei impressionado com a quantidade das fotografias dos condôminos que habitaram em inconsciência toda minha vida. quem sabe de meus sonhos, das vezes que cruzei estranhos por olhares e ruas e senti um pertencimento talvez advindo de tais retratos. creio nunca ter me sentido tão em casa, às vontades que impelem no rosto um sorriso de andar descompromissado, mochila jovem jogada ao ombro direito que encara o sol na certeza da unidade. tirei o papel do bolso da calça, a flor já desfeita de seus adendos desnecessários, e beirando o muro esquerdo subi em bermuda e camisa por um calor efêmero de inverno nosso.

adianto que o quarto é dela, mas que a casa é coletiva: moram ali pai (bisavô meu), mãe (bisavó minha) e outras infinidades de irmãos (tios avós meus) que pouco conheço. talvez por isso tenha ficado, logo no começo, sem jeito ou maneira de conversar abertamente, perguntar sobre a vida e dizer que aprendi apenas das relações estreitas com o medo. acabei pedindo licença, mas a verdade é que o excesso de familiaridade com tudo, o que talvez justifique a insatisfação interna, já havia me descansado o corpo pelo pé da cama de minha vó e deixado demais utensílios ordenados ali pela falta de intenção. falei das tatuagens, dos cigarros, dos inúmeros motivos que lhe decepcionavam ideais de vida apreendidos desde cedo. desde cedo, e talvez unicamente aí fomos companheiros de tardes inseparáveis em que minhas fantasias desajustadas arranjavam meios pela sua boa vontade. falei das incertezas e das coisas que aconteceram sem graça, e olhando tua cabeceira ouvia a novena da quadra de cima louvando ao ritmo do vento que trazia tudo em calmaria: um fim de meio de tarde que dourava seus lençóis de pedra por gestos e verbos.

falei do pai, da mãe e de meu irmão que apruma a vida em ventos merecidos. disse enfim do livro perdido, da inocência de minha mãe que levou teu “círculo hermético” pra longe do meu querer. era mais pela curiosidade da dedicatória, disse, pela minha cabeça que naqueles dias já não ia muito boa e que hoje já não se lembra mais de trazer à tona. a mãe vai linda, inquieta das vontades do próprio peito que a tornam sempre mais dela. o pai descalça as botas na área de serviço e a gente já não reclama do cheiro; parece agora ter tempo de viver pelas coisas que tem vontade de viver, pelos sonhos que tem vontade de dividir comigo e com os copos que dividimos juntos dos outros.

peguei meu celular e expliquei as dificuldades de conexão. justificava a deselegância de largar meus olhos pela tela pensando sua estante que conheci pelos tempos da mudança. encontrei-a um dia, ainda esperançoso de achar a dedicatória perdida por algum canto qualquer da casa já inabitada. existiam ainda os móveis, o cheiro e o pó que tanto talvez seja resquícios de sonhos e afins. achei Drummond e Sidarta, ambos em capas brancas que beiravam os limites com o infinito. minha amiga que ficou com Hesse disse ter acordado pela madrugada em que terminou o livro, e na beirada da janela que recorta a Avenida Visconde de Guarapuava, uma luz forte iluminou todo seu quarto. disse que ainda assim dormiu em paz, e nessa hora me lembrei de você, dona Gerda. quanto ao Drummond, na noite anterior a menina havia me sussurrado a primeira frase de “A Mesa” num som quente que deixava a cidade toda em agasalhos e braços cruzados. mexia no celular na intenção de achar a poesia, e como quando explicava quaisquer tecnologias para ela, pareceu assentir uma incompreensão mal disfarçada.

achei que seria mais justo se a visita trouxesse junto teu livro e não um celular disfuncional, mas acabei só vendo beleza a partir do recorte dos olhos da menina. Drummond ficou com ela como paga, e sei bem que entende essas coisas. li de voz minha uma infinidade de versos que lembravam coisas tuas, teu lugar na ponta da mesa de domingo satisfeita do Schumacher e vendo a ascensão de seu irmão: sonhava em segredo que os dois corressem pela Ferrari, e a sensatez de meu pai desmentia, e as análises técnicas de meu irmão diziam das desvantagens. essas coisas existem numa impossibilidade de esquecimento, e sei que disso bem sabes. “nos iludirmos junto da mesa vazia” naquela tarde não pode ser desfecho.

deixei a rosa coral onde julgava apontar seu nariz de sorriso. possa agora talvez sentir as flores que inundam as ruas e corredores do quarto novo que divide ao pé da novena. levantei depois de pegar minha coisas, e uma abelha me acompanhou até a saída para desaparecer antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa.

obrigado, menina.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

septimus

para V. L, que tanto bem sabe de tanto.

conto-lhes a história do filho e do pai deste. ambos únicos, sendo este o primogênito numa ninhada singular que ao progenitor acabou sendo mais do que suficiente; uma relação de abundância avessa à alegria ou qualquer outro sentimento positivo que se faça valer do excesso como fonte. adianto-lhes ser essa a versão capturada por meus ouvidos despretensiosos, estando a fonte, e quem sabe a verdade, escondida no desenlace de um labirinto afora já sem solução a que chamamos de vida, composta sempre dos causos que são espectros em catarse da unidade ali mencionada. o simples fato disso tudo ter sido rascunho já me afasta dos ouvidos que tive àquela vez. conto-lhes então a história que um dia foi de meus ouvidos e que de minhas mãos entreguei ao juizado responsável por meus olhos. façam dela aquilo que bem entenderem.

ainda que mereça o filho prioridade pela sua grandeza e entendimento amplo ainda precoce, haja visto também a infinidade de possibilidades que tem toda criança frente ao adulto definido em silêncio, começo pelo pai na tentativa de manter uma cronologia plena e sem devaneios. por último, adianto também o decorrer ser parte de tempos em que a medicina já é senhora de si, capaz e desmistificada do que agora chamamos em prepotência de crendices e inocência. pela trama haveria de existir a já gasta e previsível personagem da mãe doce que aquieta pela gestação e fenece tão logo lhe rebenta a vida ao ventre. admitamos que o ordinário passa longe da tragédia, e sinto pesar nisso tão pouco contribuir no relato. subtraio a figura materna nesse desfecho verídico que em nada acrescenta ou diminui os outros fatos. por fim voltemos então a mocidade do pai, aqui ainda confundível ao filho que mais à frente será desenhado em vossos quadros imaginários que formam o lido.

comecemos.

em infância o pai não pensava em responsabilidades, escusando-se dizer a limitação do vocabulário mancebo na transposição do léxico à suas duras correspondências em vida. talvez por isso brincava, galgava os anos escolares sem muita dificuldade graças à exigência mediana que nos molda medianos. diz o poeta maldito para termos cuidados com tais tipos, mas isso não vem ao caso. perto de deixar de ser criança engravatou-se ao banco, pedido de seu tio que devia ser aceito pela possibilidade de vida estável e promissora cedida como favor por um amigo de outra infância que agora pouco vem ao caso. assim foi. fez amigos, conheceu moças e mulheres até que entendesse que moças e mulheres são desenhos feitos pela capacidade de nossos olhos. o apartamento em planta condizia com o futuro prometido pelo engravatado amigo de seu tio, e tudo que lhes digo e me poupo de dizer é que caso um dia visitem esse apartamento, que sim, é uma daquelas sequencias de janelas do centro da cidade aparentemente inabitadas, procurem pela estante em mogno situada em baixo do grande espelho da parede à esquerda: fotografias mudas darão fé ao meu depoimento, e os rostos sem expressão hão de condizer aos vossos retratos próprios compostos em vossas cabeças desconhecidas por mim e por si próprios.

não diminuo o valor materno na vida do filho, muito menos a feminilidade santa da mulher que por vezes é calma aos soltos gestos do homem. a questão é que tal casal tinha clara a singularidade de cada um, homem e mulher responsáveis por suas necessidades que não necessariamente eram sanadas no outro. talvez seja justo dizer que habitavam separadamente o mesmo espaço, e lhes peço que não atribuam aqui o julgamento de infelicidade ou até de infidelidade. tenham sido talvez melhor do que todos nós. ela, como dito, se foi em normalidade, ao passo que a descrição do prefácio parece ser suficiente.

contrário daquilo que se imagina ao pai recém viúvo, pouca coisa mudou. o sorriso foi de sempre um comedido natural que achava paz em coisas próprias demais para que pudesse alguém saber. por vezes se lembrava de sonhos em que a esposa encontrava no filho a fonte de uma sede sentida há tanto e que logo passava. talvez no fundo tivesse achado cruel o desfecho, mas não se sabe de alguém que confissão ou sussurro tivesse partilhado. acho justo poupar o esforço que requer o caminho até o fim àquele que aqui procura ideais de gêneros subentendidos, posições despercebidas ocupadas numa generalidade que dispõe homens e mulheres em afastamento progressivo. também saliento que nenhuma luta desmereça ou ache desnecessária, porém aqui tais disputas nunca encontraram espaço, e deito fé que certo estranhamento se deva à falta de moldes por enquadrar tal retrato. de qualquer maneira, acho justo dizer que aquilo que lhe doía eram os sintomas da efemeridade.

conheceu certo Donato semanas depois do nascimento do filho. sapateiro de mão cheia, que deixou como novo o pé direito do calçado rasgado precocemente. mal sabia que o pé direito de seu sapato era remessa final dos calçados que Donato arrumaria em vida. contou-lhe a filha ou sobrinha do sapateiro que seu pai ou tio arrumou-se na elegância permitida por sua simplicidade, e de violão nas costas foi animar a festa de noivado de um jovem conhecido de bar. tombou à terceira música sem dar muito trabalho. doeu-lhe perceber o caminho da foice tão direcionado ao seu entorno, e calou como quem entende. da morte nunca mais soube, e colhido foi anos mais tarde enquanto dormia um sono desavisado desses de segundas à tarde. não convém, e falemos agora do filho.

desenvolveu cedo certa repulsa por dormir. sendo a insatisfação traduzível apenas em palavras ou conceitos compostos destas, usou de suas escassas e infantis ferramentas algébricas para dividir o dia em uma trindade de oito horas. do pai recebia instruções da educação católica, ainda que nunca tivesse visto ou sabido da presença do pai em alguma catedral ou simples capela. talvez evitasse até praças de vultuosas arquidioceses. sinto. o filho, às missas que ia sozinho aos sábados à tarde, renunciava o toque aos próprios ombros como gesto de defesa contra as demais trindades que, ao seu ver, possuíam sempre uma terça parte desnecessária. sobrou-lhe durante toda a vida apenas o Pai e o Filho, testa e peito sem que nisso tivesse visto referência ou transposição na relação com seu próprio pai. desbravou assim madrugadas na companhia de Frederico, cachorro e único amigo capaz de habitar em onipresença todas as fantasias e cômodos de sua casa e pensamentos que tanto lhe eram morada. dentro do comportamento próprio dos cães mantinha feição de companheirismo aos olhos abertos do filho de seu dono, fitando pelas suas janelas cerradas e caninas as coisas que esse flutuar revela: o garoto por vezes deitado, por vezes apoiado no beiral contando luzes acesas no prédio em frente. não arrisco dizer das durações daquelas noites e muito menos  do impacto à saúde tido nestes que desafiam o metal do rosto pela oxidação das madrugadas afora. Frederico acabou fugindo anos depois sem transparecer cansaço ou insatisfação aos tratos recebidos, época em que nosso protagonista pouco se lembrava de tais guerras noturnas. desconheceu, pelo esquecimento que acomete toda infância pequena, a razão das bolsas por debaixo dos olhos, e assim de inconsciência relutava todas as noites à hora da cama.

dentro de casa o silêncio era habitual. decifrava a presença de seu pai pelas quietudes dadas em seu chegar manso: corrente sem trinco, maleta no sofá e sapatos despostos logo abaixo da última cadeira da mesa de seis. o que tirava os olhos daquilo feito pelo filho era a respiração liberta tão logo o pai desenlaçava a gravata, jeito e maneira tão sutis que talvez a nós tal som nunca passasse de nada que não placidez. assim foram. ao filho são guardadas vagas lembranças de diálogos com o pai, todas em sextas feiras espaçadas dentre meses confundíveis; este em sua poltrona que nada lhe combinava, aquele à reta esquerda do quadrado imaginário formado pela poltrona, sofá, janela e escrivaninha. ao garimpado das memórias, o mais novo julgava-se sempre atento aos comentários feitos pelo outro à respeito de temas variados numa probabilidade exata: esposa, mãe, mulher e demais infinitas personalidades consideradas pelo marido, homem e pai àquela que lembrava sem dor. deixemos tal retrato como fim de capítulo desta curta história. de mais detalhes acabei não sabendo, mas em meu hábito de aglutinar e entender tudo logo pelas primeiras aparências – estas em altas contas no meu perceber chapado de causos rasos –, entendamos sem dar margem à curiosidade que esta época foi assim e apenas assim. passemos por fim à vida adulta do filho.

os mais desavisados dirão que não pode qualquer filho sair avesso à qualquer pai, ponderando inclusive laços biológicos, morais ou afetivos como inferiores no imprimir do um ao outro através do inevitável fardo da convivência. dou-lhes corda, e com ela façam também aquilo que calha à cada gosto.

em tal momento o filho já é adulto, mantendo fugidios pequenos traços de mocidade à poucos dos gestos e todos de seus olhares. tal qual o pai, embarcou numa vida de escritório tão logo terminou seus estudos. a intenção de tal prumada, e agora não sei bem se fantasio ou se faz parte do relato apreendido, é impossível precisar. nunca ponderou desbravar o mundo até certa idade, e fica descartada aqui a intenção de arrecadar fundos pelas engrenagens estabelecidas à fim de delas escapar. quanto à independência sonhada faço também pouco caso: saiu cedo de casa, depois que uma caminhada rotineira pelos arredores de seu trabalho mostrou-lhe um pequeno apartamento de valor enxugado por igual. as poucas coisas de sua cômoda e guarda roupa levaram, ele e seu pai, numa única viagem que poupou grande parte do bagageiro do carro pequeno. parecia invisível por entre o trânsito, tal sua cor desbotada em tons que beiravam o inaudível do motor que nada roncava. não se sabe onde originou-se o silêncio que tanto lhe habitavam apartamento e conversas e atos, mas era claro que envolvia quaisquer que fossem suas extensões e caminhos. o pai não subiu, e a única parte sua que frequentou o novo apartamento do filho foi a voz: ligações pontuais às oito da manhã nos dias do próprio aniversário e do de seu filho. este não sabia de datas, e raras foram às vezes em que lhe chamou atenção o nascimento dos outros. não se perguntava muito talvez pela falta de curiosidade, talvez pelo excesso dela em de nada saber. nenhum conceito de desapego ou de compreensão do vazio das tradições: apenas silêncio.

até onde sei, trabalhou por vinte e três anos no mesmo setor do escritório. recebia promoções em espaços curtos de tempo, mas nunca deu-se ao trabalho de olhar o contracheque. moldou a vida ao primeiro salário integral do cargo que exigia camisa e sapato, dispensando à gosto do funcionário o uso de gravata. pelos aumentos desapercebidos nos ordenados não desenvolveu o hábito de pesquisar preços ou adequar lazeres à conta bancária. fazia compras na mercearia de esquina à lotérica em que pagava as contas todo dia quatro: poucos papéis e o talão das prestações do apartamento que havia comprado por exigência do proprietário. não eram muitas as palavras que trocava com o casal esbranquiçado dono da mercearia. pela concorrência dos mercados maiores acabavam ficando, de maneira até frequente, sem estoque para grande parte das mercadorias. existiam receosos quando chegava o quarto dia do mês e as prateleiras de alimentos não tinha o que oferecer. ainda assim entrava o rapaz, pegava o pouco ainda por vender e saia deixando a quantia da compra por inteiro. na primeira vez tentaram explicar, falou-se inclusive do senhor ter se exaltado e sentido certa tontura, mas o rosto num azul de céu recém desperto do moço se comportava inconsciente numa feição de sorriso que estancava qualquer pretensão de discordância. ainda depois de fecharem a mercearia, poucos anos após definida a aposentadoria e já conformados com o manso fim cúmplice tido pelos afortunados, levantavam as portas tão logo amanhecia o quarto dia do mês. na véspera iam ao mercado comprar os itens desejados pelo rapaz, lista que traziam incrivelmente clara às ideias já um tanto crianças e levadas. amavam-no como filho, e disso nunca soube.

adianto que do filho já não sei mais. a última parte da história que ouvi dizia de um fim de expediente de segunda-feira em que a encarregada pelos telefonemas urgentes o chamou à sala da gerência. disseram que o síndico do prédio de seu pai acabara de ligar e a empregada ou o carregador de compras do mercado haviam-no encontrado na poltrona da sala ou no sofá; a ligação era ruim e só adiantava que as medidas já haviam sido tomadas. aconselharam-no um advogado de confiança da empresa que havia cuidado de outros casos similares e deram-no uma semana de folga. ouviu tudo estranhando o choro da funcionária moça, e na impossibilidade de ver o próprio rosto, ou até mesmo na ausência de saber a aparência do próprio olhar, desconheceu que as olheiras de sob seus olhos lhe tornavam triste e sentido e inconsolável; um carrossel de aparências comuns que diz tanto numa verdade que só murmura silêncio e ausência em qualquer que seja o semblante.

em dois dias estava tudo resolvido. o tal advogado de confiança colheu algumas assinaturas e transferiu bens e saldos bancários em tempo recorde condizente aos ordenados astronômicos. do apartamento cuidou o síndico de alugar à um casal de bem, amigos de parentes distantes que se mudavam recém para a cidade grande. ainda sanaram com a venda do carro algumas dividas e despesas burocráticas, e na tarde do segundo dia seu pai fora enterrado ao lado da mãe da esposa na presença de seis pessoas, levando-se em conta dois funcionários da funerária que não tiraram o boné em momento nenhum: morenos num uniforme verde que trazia escrito pelo peito e pelas costas o suor que cada enterro requer. na ausência de lágrimas, a necessidade do choro requerida em todo adeus foi sanada aos olhos divinos.

talvez digam os mais céticos que o caminho do filho tenha sido igual ao do pai, com exceção deste nunca ter em sua cria o título repetido. na verdade disso não se sabe, mas assumo que esperar o contrário seria ser esperançoso ao fato irremediável. assumo fé verdadeira naquilo que ouvi, e por quais motivos não entendo bem aqui transcrevê-los. admito certa curiosidade de conhecer a mercearia, sondar sentado em algum banco desses nossos espalhados pelo centro e bem saber qual silêncio combina mais com os retratos de minha imaginação. talvez tenha sido o melhor que pode a única imagem que soube ter, uma consciência prematura presenciada apenas por Frederico de que não havia muito por ser feito. quem sabe. de meus retratos o vejo pintado numa sala sem espelhos, ausente do silêncio que tudo entorna por dentro de suas olheiras não sabidas.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

das linhas não lidas

Como se recém desperto, ia pela cadência do velocímetro batendo o topo de seu primeiro quarto. Não havia antes, muito menos pretensão de que depois fosse possível ou qualquer maneira outra. Tinha estancados quaisquer que fossem os ideais, e guiava numa completude ao tempo e espaço que fazia destes um ou até menos do que isso. A rua vazia não obrigava meu caminho sempre lento à faixa da direita, e seguia assim, escancarado assim, pelo meio da avenida Visconde de Guarapuava. Éramos eu, a brisa esquiva por entre o vidro entre aberto e o ronco manso do motor do fusca, trindade esta repleta de silêncio, ressoando únicos e amarelados dos postes sem razão. Era a calma, a eternidade tangível e de gosto e forma. O deslize dos pneus soava como chuva ao ouvido com algodão, um som de nuvem que não pode caber em nada não seja sonho. Percebi que estava morto.

Tive meus ideais de paraíso muito antes de realçar o laço que une nossa pequenez humana ao imensurável divino. Não imaginava ser possível ter como a eternidade um último sonho repleto pelo programado em vida. Que seja um homem de fé ou não, ao menos à hora da morte desenhamos o esboço daquilo que desde sempre nos espera. Os sonhos de lá, tendo em vista agora a realidade daqui, nunca nos foram de jeito qualquer que não distantes. Talvez por isso os alcancemos justamente nestas paragens, quem sabe uma indenização dos tribunais celestes que legislam e executam nossas sentenças. Sigo pensando nisso.

A sincronia dos semáforos é perfeita. Não causa receio de frear ou temer qualquer desaviado que nos cruza a vida em vida para colhe-la de maneira trágica. Penso nas esquinas que formamos ao passar uns pelos outros, olhares que por um instante são perpendiculares ao ângulo que não sabemos. Na impossibilidade de todo par de passos ser perfeitamente paralelo, vamos sem saber como o longe vai se tornando perto, se interpõe, se torna perto ao outro lado, para enfim distanciarem-se no imensurável. Sei que logo mais à frente a curva à esquerda simboliza o fim. Acredito nisso por não lembrar ter algum dia adornado meu ideal de paraíso com um retorno inconsciente do trajeto; uma espécie de extensão que levasse o primeiro cruzamento, que julgo ser com a Rua da Paz, até o último demarcado como Carneiro Lobo. Quem sabe dessa forma burlasse o fim da morte, que tão logo veio para logo mais agradecer a carona. É engraçado não ter tempo para aprender teorias ou crenças sobre o que chega depois dela, e o medo desse desconhecido parece leve por ser ainda puro.

A única casa acesa avisto de longe, poucos metros à beira da vereda sinistra. Telhado calmo e luzes mansas que se confundem como estrela em deserto, como farol de lumes circulares que aos olhos dos anjos talvez pareçam estrelas; pareça quem sabe o mar espécie de constelação ondulante onde peixes se alinham à imagem de figuras místicas em lendas divinas. Estaciono e rio de minha preocupação em trancar o carro. Tranco ainda assim. O muro é de plantas baixas, e o caminho segue por entre quadrados de pedra tatuados ao longo da grama por cortar. Sigo até a porta pensando em minha mãe, na risada de hortelã que soltava quando pisava por entre calçamentos que julgávamos de cor proibida. Parece aqui não haver saudade.

Chego sem que haja necessidade de procurar a campainha, como se honrado da segurança que tem o íntimo ao proprietário, que divide não só a morada dos pensamentos como aquela outra que abriga o corpo de tanta fome e tanta dor. Num estalido sem existência a porta cede ao carinho de minha mão direita, consciente da confiança depositada nela, em seus gestos requisitados sem que precise ser afinada pela atenção dos olhos. A sala é branca e não explica as luzes hepáticas que tanto adoecem as janelas, que tanto deixam a casa triste como nunca antes se viu. A música parece dizer de despedida, e o arrepio me leva flutuando às vibrações das teclas. Parece claro aqui a emoção ser originária do encontro de sons idênticos, que se habitam talvez no peito ou na cabeça, mas sempre resultante da similaridade entre o que chega pelo ouvido e o que já mora na periferia da alma. Poltronas e quadros num aconchego único, assim como o rapaz sentado em frente à porta e à quaisquer que sejam as outras coisas daqui. Seus olhos castanhos que seguem, ainda que seja impossível qualquer movimento que lhe obrigue atenção ao acompanhar. Habita como se de toda sua existência nada tivesse feito que não sentar em frente à tudo, me sorrir doente de compleição pelo meu espanto sem sentido. Deus é mesmo jovem, penso.

Não imaginei que fosse assim, digo quieto achando que aqui pensamento e tom são vozes diferentes. Tão logo reprovo a afirmação na impossibilidade do dito ser convertido em qualquer espécie rara de silêncio. É o que muito me falam, e me diz que tantas são as montagens, tantas são as cenas que se coloca por nossas carências de fé, que por vezes sente já não saber mais quem é; que se olha pelo espelho infinito que é o universo e não vê nada que não seus sonhos também tão nossos. O silêncio que enche todos os cantos onde é possível haver algum canto por ser preenchido é de uma dor que participo, que sinto clara na desilusão de ser possível partilhar qualquer coisa com Deus. Ouço, agora da maneira acostumada.

 - Não se acha digno ou pareço tudo que não aquilo que sempre pensastes ao meu respeito?,  pergunta já sabendo a resposta, provando que de fato tanto sempre nos teve às mãos.

 - Creio que os dois, mas tu bem sabes e já não faz sentido dizer qualquer coisa, pensar em qualquer coisa que não aquele cheiro de café que não lembro fazer parte do arquitetado.

 - Não apenas aquilo que escreve, explica por entre a respiração forte que seu levantar rápido obriga ao peito tão estranhamente humano, mas também os pensamentos que esqueceu; o teu entorno que abandona toda noite por ser muito o por alinhar e pouco o peito pra sentir. Não lembra, por exemplo, do dia em que viu a moça sentada à tua direita, modéstia à parte a direção mais perfeita entre todas as que criei, trazendo presos por milagre também de minha autoria os círculos perfeitos e sem fim que compunham tal cabelo como eternidade. Sim, agora se lembra, mas desconhece a simpatia por esse quadro que tanto lhe prende a atenção desde que aqui chegou; que me faria, caso não fosse Deus, sem voz à tua atenção limitada que deixa pregado os olhos à cada detalhe dessa casa.

Calo, e justo é dizer que nessa nossa ausência de tempo meu silêncio é maior que qualquer eternidade. Dou asas aos olhos que em seu livre voar me deixam apenas com minhas imagens de dentro. Ostentam o dom dos beija flores à cada detalhe que desperta interesse: rodapés, livros, luminárias, degraus específicos de distintas escadas, cortinas entre abertas, eu e até mesmo o relógio de Deus trabalhado em couro. Voltam sem avisar, dentro de um único súbito em que entendo a casa composta de tudo que vivi.

 - Do quadro vejo o listrado da camisa dela, o contorno do corpo refém da leveza dos próprios braços. Ela que tanto acredita em fumantes poderem também amar, e nisso ainda agora concordo. Deu um abraço que listrou de carinho a moça que lhe foi tomada ao corpo, o tom forte da voz manifestado na pose dura quando imobilizava as mãos por de trás do corpo; refém consciente do caminho, de peito aberto ao encarar das garoas. Agora me lembro.

 - Fostes sempre com muita sede, ainda que reconheça teu saciar precoce, teu desinteresse ao caminho que quer pra logo mais não querer. Não foste tu que se quis assim, meu filho.

Interrompe minha resposta antes mesmo que pudesse pensar em qualquer coisa. Deus tem essa mania terrível de responder as próprias perguntas, ainda que pareça ser só Ele capaz de satisfazer as próprias dúvidas. Entendo. 

 - Não, não entende e é por isso que és, assim como todos os outros, capaz de sentir apenas o não dito; traduzindo o desconhecido em medo por ser medo a única palavra dona de todas as faces sentidas aos teus olhos humanos que tanto são iguais em todos.

Cala agora ele, direciona o corpo de roupas elegantes à porta à direita e entra. Penso que tem Ele também suas manias, as afrontas que não permite de jeito maneira. Sei que há de voltar equilibrando sem dificuldade paradoxal a bandeja de prata de minha mãe, decorada das xícaras que foram da mãe de meu pai e que um dia se tornariam minhas e de meu irmão; ao centro o bule com café colombiano que tanto nunca tomei.

De fato. O vapor sai trêmulo em formato e ritmado às teclas que martelam essa música por tudo e inconsciente, som e silêncio numa existência inseparável que agora é clara de fazer sorrir. Pego a xícara oferecida e percebo que tudo sempre haveria de ser assim, ao passo que, agora sentado em sua cadeira, me responde com um sorriso recortado em xícara, cerâmica de encaixe perfeito à fenda que até em Deus se abre ao mostrar dentes amarelos de cigarros.

 - E as perguntas?

 - Já delas bem sabe.

 - Pois bem, e descansa a xícara às mãos em concha, movimentos rítmicos ao cruzar de pernas que demonstra orgulho pelo sapato lustrado. Pois bem. As mulheres têm graça em tudo, mas isso reluto em dizer que foi criação própria de suas maneiras. Não os fiz homens desgraçados, e dou aqui sentido apenas de ausência de encanto. Bem sabes que essa figura de elegância que assumo ao teu desejo é prova do homem ser tão ilustre por seus gestos duros. Voltemos às mulheres, e aponta ao bolso de minha camisa justo quando não sabia se formar cá dentro a sede de tabaco.

 - Obrigado. Posso ter a honra de lhe emprestar o fogo?

 - Não, e admito achar graça de querer fazer contrário tudo que sabe tão bem quanto eu. Voltemos às mulheres, e aproveito o exemplo do teu acender de cigarro: a forma com que dispõem dos dedos ao criar fogo. Com nós, e assumo o caráter masculino apenas ao teu desejo, o ato é ordinário ainda quando sentados por varandas, deitados pela grama ao sonhar que a fumaça que sai do peito participa de alguma forma às nuvens que não sabem parar. Tu bem sabes de como o rosto delas se ilumina, lembras de quando viu o corpo daquela que ainda lhe é incandescido em brasa pela penumbra do quarto. Essa graça não temos, meu filho. A bem da verdade é que você tinha razão ao dizer que percebia as cores conforme os diferentes graus de pequenez que galgava durante a vida; mas se nem em mim acreditava realmente, quem dirá em seus próprios pensamentos solitários.

Disse-me ainda dos esforços que fez. Admitiu por vezes nos esquecer à razões impossíveis para nossa compreensão, e por isso não nos pede perdão. Confessou uma ou outra guerra e a mutação de certos vírus resultantes de suas ausências, mas não demorou muito para perceber a perfeição de todo e qualquer gesto próprio, indignificando inclusive a piedade para conosco.

Fala com bondade, e não sei até que ponto o caráter dócil é atuado por vontade minha.

 - É frustrante, e agora quem levanta de cigarro aceso sou eu, pensar o quanto tudo é tão repleto de dúvida e incerteza, do próprio medo que ouso dizer não ter sentido algum em tuas paragens; tu que não temes, que tem claras todas as mistificações que compõem o duro e cético seguir nosso; tu que de tudo sabes e tudo participa e de fato é muito mais do que qualquer dimensão de totalidade; tu que és o infinito, e ao mesmo tempo longe de nosso sentir restrito e temerário.

Parece incomodado, e ao meu julgamento sorri de imediato.

 -  Não sei fingir espanto, e esqueço que você já se deu conta da maneira que as coisas funcionam por aqui. Mas de fato entendo sua frustração, e para ela nada digo. Viver a dura vida de incerteza na esperança que em minha face há de repousar quaisquer inquietações e turbulências na alma, e por fim me encontram conforme desejam que eu fosse, sabendo que a curva à esquerda tua é a porta ou o corredor ou o salto da montanha para todos os outros que te disse.

 - Devia ter nos avisado de alguma maneira que o fim não era você.

 - E por quais motivos acredita que isso nunca fiz? Lembra-te daqueles que escreviam as histórias daqui.
Lembro-me. Nas gravações em que aqueles aparecem psicografando segredos das dimensões que talvez se encontrem após a curva de logo mais, há sempre uma moça ou rapaz à função de virar páginas de caderno ou trocar folhas de papel para que continuassem o que tanto ouviam. Rimos um dia, eu e outros moços de mentes fantasiosas, na possibilidade da distração ou dos dedos secos que alisam sem nunca trazer o papel, fazendo assim com que algumas linhas sejam escritas no ar, segredos de máxima divindade em que o sussurro viesse talvez diretamente de Deus. Disso apenas ríamos.

 - A fantasia é a realidade desacreditada. Não apenas essas linhas escritas pelo ar, inexistentes ao vosso analfabetismo em caligrafias flutuantes e invisíveis, mas também os vultos reais que diluíam em jogos secretos entre olhos e escuridão, vozes caladas pela certeza do engano da mente cansada. Eu muito digo, meu filho. Talvez pelo longo tempo de solidão.

Pontua poucas coisas, e a totalidade destas é decorada pelo dedo em riste de sua mão direita. Gesticula com maestria, rasga qualquer que seja a vista de meus olhos num violino refém da intensidade do que quer provar. Fala do diabo, dos amores, das propriedades dos chás, de tudo aquilo que julguei ter levado na vida como dúvidas. Pouco falou de meu desfecho.

 - Isso não posso te responder. Àquilo que traz consigo como injusto ou ponderável de qualquer coisa que não aceitação, sinto, mas não cabe a mim. Foste a vida toda fantoche, para que agora tenhas em mim apenas a segurança que lhe falta para acreditar em tudo aquilo que nunca pode.

Como planejado. Ainda pergunto uma ou outra coisa sobre a feição de Santo Amaro, mas Ele pouco caso fez. Talvez as nomeações de santos pelo Vaticano não condigam com os bem quistos de Deus, e nessa desarmonia vejo graça.

 - Aquela ideia unir as pontas da rua daria jeito de fugir do irremediável?

 - Assim como uma vida saudável prolonga o sofrimento.

Levanto resignado, e agora como se desperto de um sonho. Aos ideais de mistificação do fim, a verdade se apresenta como crua e sem floreios aos nossos olhos. A bem da verdade é uma certa monotonia, uma ausência de surpresas que vem à tona por completo tão logo se dê conta do jogo. Sem despedidas o deixo da mesma maneira que o encontrei, e se essa pergunta tivesse de ser respondida por Deus, diria que me deixa da mesma maneira que tanto sempre nos deixou.

Um sujeito de bem.

Forço os olhos num temor desnecessário pela presença do carro, e ao alívio prazeroso caminho conferindo chaves, carteira e maço. Até aqui perco o isqueiro. Abro a porta e o molejo dos bancos range como chuva forte ao cheiro de gasolina doce que sempre tanto inundou meus pulmões. Paciência. O fusca pega fácil e por milagre ou desatenção minha, ainda tenho mais uma quadra antes da Carneiro Lobo. Não penso em muita coisa. Olho ao espelho esquerdo à força do hábito, e a seta ilumina a direção que não conheço. Foi tudo bem. A folga do volante persiste. Talvez arrumasse na outra semana, mas acontece. Venço a curva.

O semáforo poucos metros à frente alerta num amarelo sugestivo. Talvez pense, assim como eu, que faço a última curva desse estágio pós vida inominável sem a confissão de Deus. Tenho como trunfo a dependência dele às nossas fraquezas, e isso nada me adianta. É escuro, e sinto que me apertam algodões ao ouvido de maneira gradual. Não há mais tempo. Nunca houve. É tudo sonho, ou pelo menos soa como tal.

terça-feira, 20 de maio de 2014

andante

não acho justo o enquadramento. acordo por volta das oito horas da manhã de segunda à sexta, e não depois das dez preciso estar com o corpo preso à catraca da entrada do prédio. alto, espelhado, sede de inúmeras empresas que buscaram nessa opulência de metal e concreto a imagem real de seus objetivos abstratos e vazios. a intenção de todas elas é sempre a mesma. dia ou outro chego atrasado. o porteiro não sorri como de costume, os elevadores não respondem o clamado de meus dedos. num espaço de tempo onde aquele saguão é o universo por inteiro, olham-me todos como se aquela eternidade desgraçada fosse de minha responsabilidade, da minha barba por fazer, do cigarro que nubla o castanho de meus olhos num cheiro sem disfarce. sinto sermos personagens de uma peça ensaiada diariamente, de final conhecido por de trás da interpretação de cada um. o letreiro vermelho incandesce no imediato instante posterior à campainha anunciar o deslize cromado das portas. penso às vezes se o instante imediato não é sim o anterior, mas já trago a maleta apertada ao peito que sobe à vontade dos botões sempre tão bem apertados. som, deslize, e ao meu andar sapatos e seus saltos murmuram numa pressa disfarçada por corredores, na ansiedade que tilinta o pé escondida num rosto repleto de cores e esbranquiçado de expressões. deixo a mala por sobre a mesa e desço fumar.

assumo nossa pequenez, ainda mais quando cerro os olhos buscando lá no alto o contorno invisível do beiral transparente à claridade do céu, cúpula brilhante de um nublado escuro e reluzente. daqui da calçada sonho uma câmera imaginária que capta o exato momento em que entrego meus olhos ao topo do edifício, que num close rápido e inverso, sai da brasa imensa de meu cigarro até alguma altura suficiente à tornar o prédio pequeno e minha existência nula. penso nisso de mão direita no bolso, como que apoiado da velocidade das coisas que imagino e me deixam aqui e toda vez. a verdade talvez se resuma ao fato de todo ideal facultoso tornar-se medíocre quando visto por dentro, tal qual este prédio de vidraças espelhadas, relógio enorme capaz de ditar o passo daqueles que por ali passam esquecidos da vida. por dentro uma sucessão de andares sobrepostos, banheiros pontualmente distribuídos, pés direitos baixos à ponto de impedir que pensemos em qualquer coisa que não o preenchimento de planilhas. sinto falta de meu teclado, do jeito que me canta sublime as imundícies que lhe segredo todo dia em números confidenciais, balancetes de pesquisas encomendadas, infinitudes de dados que se colocados em papel ergueriam verdadeiros monumentos burocráticos. aos que descem fumar, a volta até o elevador contorna uma passagem de funcionários enquanto a catraca continua pronta, armada no ataque certeiro que nos arremessa sem pressa na aleatoriedade dos andares. penso se em algum dia já não desci antes da hora e sentei na mesa que parecia a minha por entre pessoas iguais a todas as outras. não sei e acho graça nosso dom de sermos tão próximos, comuns numa capacidade de substituir-nos de maneira idêntica.

aqui de dentro as coisas são claras e levemente azuladas aos dias de sol. bastões de luz florescentes escondem a cor branca do teto e daquilo que se julga parede: tudo é a tonalidade de um claro duro que participa todos os pigmentos em sua rigidez. pretas são as cadeiras, as capas das pastas e as molduras de nossos quadros eletrônicos. já passei noites nessa mesa sem que houvesse a menor mudança de tom ao azul das vidraças, que como dito, apenas nos dias de sol acusam uma cor levemente sagrada, celeste em nossas rotinas alvas que aqui perdem o caráter divino típico do branco imaginado do paraíso. de tal forma divido o dia pelos cafés, sede inconsciente que me chama três vezes a atenção antes do almoço e quatro no período da tarde. o relógio de meu pulso acaba apenas adereço que me torna igual aos outros e nada mais, cada um refém de sua maneira única de entender esse tempo comum e tão próprio de cada pessoa.

as regras de hierarquia são despercebidas. ainda que reuniões periódicas reforcem o ideal do trabalho conjunto, palestras baseadas principalmente em metáforas sobre a lida heroica das formigas, sinto o abismo de cada um como único e incomunicável. entendo por superior todo aquele que solicita ao tom grave e manso respostas que não posso dar. a arte com que admiram meu silêncio e agradecem o vazio de todo meu esforço talvez justifique seus cargos de sabedoria. somos singulares apenas aos tons da voz, unicamente quando nossos ouvidos podem ouvir aquilo que querem de maneira diferente. na maior parte das vezes é tudo baixo, como se houvessem turnos destinados ao arrumar da coluna, à pressa dos dedos no teclado que se manifesta em estalidos ritmados e sem muita razão; ruídos mansos e ordenados por regras inconscientes que limitam gestos, todos pacientes e ensaiados à meta desconhecida.

já é perto do último café do dia e a mesa à minha frente continua vazia. lembro dos sons e dos papéis coloridos do outro lado, o compensado branco que a todas as mesas separa dos olhos do um aquele outro sentado adiante, o longe pelo espaço de dois metros intransponível ao alvo que parece sem fim. no dia em que chegou perdi o horário do almoço. vários foram os olhares de reprovação, repreensões silenciosas de mãe pelas vezes em que levantei sem respeitar o equilíbrio de ruídos ao nosso corredor. lembro do cheiro, das vezes em que entregava a ponta dos dedos à divisória como se fosse possível trespassá-la. vi seu rosto uma única vez por sobre o pescoço, os dois primeiros botões da camisa sobrepostos escondendo poros sedentos da vida dali de fora. talvez estivessem ainda abertos do arrepio ao banho recém tomado, o carinho da toalha que tira apenas o excesso não tragado pelo corpo. vi seu rosto uma única vez e segui o compasso fino da ponta daqueles saltos até sua mesa. acompanhei seguro o despejar de chaves, dedos rápidos à ponta da coluna curvada digitando senhas, soltando do ombro a bolsa que tão bonito lhe deixava o braço. no outro dia não apareceu.

arrumo minhas poucas coisas numa carência por desordem, e envolto pelo silêncio dou a volta sem saber pra onde. a dificuldade daqui é ninguém possuir algum rosto que familiarize o caminho, feições como placas ou quadros que nos indiquem a certeza do lugar certo. sei apenas de minha mesa, minha unicamente pela tatuagem do café posto ao lado esquerdo. ao final do dia escondo a marca com pastas ou qualquer papel que pareça importante, qualquer coisa indigna de ser tocada por qualquer um; sejam quais forem as faxineiras que tanto tem acesso à tudo, que tanto apagam nossas marcas e esse outro pouco que resta de nós.

os olhos não aceitam de bom grado o dia já recolhido. como passarinhos de cozinha reféns do acender e apagar das luzes, minhas janelas piam e batem pálpebras por uma ou duas esquinas até que se amansam. o trânsito existe mas meu ônibus vai como aquário vazio numa sala repleta. sem apoiar a cabeça na janela penso qual a utilidade de um ônibus que nunca vai cheio. escolho os acentos duplos como se buscasse ver uma única vez algum rosto qualquer. certo dia sentou-me ao lado um homem já curado das feições joviais. pouco se mexeu e quando ameacei me levantar já existia rente à porta. desceu dois ou três passos à minha frente, e tão logo venci o degrau da calçada, ia ele manso envolvido pela fumaça de seu cigarro. parecia protegido.


até certo ponto parece justo o enquadramento. desaperto a gravata e ainda de sapatos dou os cotovelos ao beiral da sacada. moro no quinto andar e minhas luzes estão sempre apagadas como as dos outros andares. sinto que por essas noites sem lua os olhos de qualquer um viram estrelas, mas não. já parece tarde, um céu escuro como que se levemente azulado de dias de sol.

pega o táxi, meu irmão.

domingo, 11 de maio de 2014

canção na praia

nesses horários de fim de expediente anda tudo em estanque. confesso que ao semáforo dessa curta quadra a esquerda é opção, mas tão poucos são os carros que se entregam ao vértice sinistro, à obrigação de recalcular rotas pelos aparelhos que nos ditam a vida. parece ser o fluxo a intenção de tudo. vão as luzes estaticamente avermelhadas em pequenos movimentos que não mudam o panorama, onde estacadas brilham numa força uniforme, talvez o mesmo grito de ansiedade que implora ao inerte a esperança do movimento. desgraçadas são as ambulâncias, esse infinito escasso de cores que garganteiam passagem pelo travado, escoando-se por entre esquinas num falso intuito misericordioso que esconde a necessidade de ir sem pra onde.  talvez seja assim o ritmo: acostumar-se à lentidão num sonho de continuidade. é outono.

escangalho o cadeado e levo a bicicleta de banco dado em minha mão direita. ir pela contramão requer calçada, e nisso atravesso as poucas esquinas de outros tantos aglomerados de fachos rubros. a manhã que se maquia pra logo mais, diz a previsão, é daquelas de céu claro imundo das tintas de aquarela. penso em nossa longa travessa de centro levemente esgarçada dessas neblinas que só aparecem em manhãs escancaradas de alaranjado, eu saindo mais cedo por flagrar a preguiça das portas dormindo em suas trancas. é tudo silêncio e é macio por entre teclas de dedos mansos. se a sorte acomodar balancetes meteorológicos na intenção de iludir adivinhações nossas tidas sempre como ciência, hei de andar por contra o mau humor do sol ofuscando os olhos de quem quer que lhe encare a forma recém desperta, a intensidade do brilho que me tira traços do rosto daqueles que me cruzam, iguais assim, manequins sem sequer a expressão nula que todo manequim não tem por nada nunca poder que não seja ensaiar os sonhos que não somos.

imagino serem esses pensamentos próprios do outono. o verão que nos incandesce pelo inverno torna tudo tão sólido, a primavera colore e faz espirrar sonhos em pétalas que ao outono dançam-se em fantasias. já não faz muito e os pedais me levam sem pressa, ainda que esta seja refém da intensidade da busca. seja aqui talvez o motivo que delega pelo passo calmo uma áurea paradoxalmente turbulenta, riscada na pressa santa dos carros que aos semáforos esverdeados parecem tanto saber por onde chegar. pareço passageiro dessa minha extensão de muitos raios que giram e giram e mantém-se parados. desperto hora ou outra pelas ruas mais íngremes numa necessidade de esforço que torna o vagar lento, o encontro ocasional de olhares eterno em panoramas que por nada mudam nessa vagar de janela fechada. não há tempo às dúvidas, ao querer girar a trava da vidraça e perceber ventos de arrepio que devastam colunas tão logo o sol se torna um clarão esmagado. tão logo a subida acaba, adormeço pelos pedais que me sabem o caminho sem destino.

lembro de uma manhã em que passei pela nossa longa travessa de centro. talvez a claridade também encantasse o dormir das lojas, e disso não me lembro bem. naquilo que de memória assumo como realidade de outrora, chego à imagem de um rapaz autista sentado por um dos inúmeros bancos que inundam nossos caminhos. a cidade por vezes parece consciente do cansaço desse fluxo que nos falta, e arquiteta-se aos sonhos de outros de maneira piedosa àquilo que nos pesa. não importa. o rapaz se balançava o corpo numa precisão que toma minhas lembranças ao mesmo ritmo, o olhar vivo num vazio estático que ignora a revoada de pombas recém despertas. penso no carinho de Deus por elas ao dar-lhes gêneros definidos na própria nomenclatura, ao contrário dos sabiás e chupins e canários que não nos são como anjos de sons santos e sexos inexistentes. e rapaz seguia santo, completo em seus próprios pensamentos que nossa capacidade não distingue. nosso minuto de consciência como cotidiano que lhe congela feições, esquece o físico no brindar do entendimento de si para consigo.

admito o desconexo tendo como salvaguarda a possibilidade da cabeça ser geograficamente mapeada por caixas, e dentro dessa que reviro agora, encontro lembranças que algum diabo devem ter em comum. o rapaz se basta sabe-se lá aonde como tão bem se bastaria em qualquer outro lugar. talvez na praia haja mais sentido, haja sentir qualquer coisa pela areia que se faz uma num infinito de grãos unos. realmente não entendo as comparações. tenho leve ao peito as teclas espaçadas em sons que se confundem. seja quem sabe talvez o piano uma única tecla que se dispõe aleatoriamente pelas lacunas de nossas cabeças, cada qual à sua cadência própria, nosso jeito próprio de nos sermos nós. é a tecla grave que faz fundo ao delicado. sente o rodapé e que assim seja.

"song on the beach - arcade fire"