Ausentei-me. Aquilo que pensei que nunca passaria, aquela vontade que é quase uma necessidade por essas cidades que achei nunca terem limite, foi-se um pouco, foi-se por uns dias, foi-se por nada mais que menos de algumas semanas. Pra que cativar o olhar, pra que arrumar o carro, o porquê de deixar tudo em dia; vem, pode vir sim!, pode vir pra me explicar pra qual lado o bom senso resolveu ir, por que foi que a pontinha de saudade chegou assim, sem avisar, chegou-se assim no meu travesseiro e me pôs pra dormir até o próximo fim de semana chegar. Sim, ausentei-me. Quis deixar de presente pro meu destino esse eu que já cansou de mim e vice versa.
Vai passar, e antes mesmo de chegar janeiro vou sentar divagando de frente pro mar, achar um calendário do verão passado enterrado na areia, e confirmar porque foi que o carnaval passou tão depressa esse ano, porque foi que ser feliz assim cobra caro nos meus sábados dentro do apartamento. E como passar não é ir embora, a brincadeira é ficar passando cá dentro até que alguma coisa faça sentido, até que algum jornal voe direto na minha cara justo na noite que eu deixei a janela aberta pra sombra dos carros, para os postes cadentes e estrelas empregadas do sensor do céu.
Eu volto, claro que volto; mas espero que volte de carona nas mãos que correm pelos meus cabelos, mãos que não sabem, mãos que nem sequer imaginam como quis ser Capitu nas mãos de Bentinho. Só assim vou insistindo, só assim encontro na porta da minha casa razão pra deixar tudo ir embora, e olho para os não sorrisos no banco ao lado, pras gentilezas fora de hora que tiram de mim a responsabilidade de qualquer coisa. Engulo à seco, abro a boca à seco e digo coisas sem nexo na esperança de coisa alguma; sim, eu! se fizer errado que seu sorriso conserte depois, que o mundo entre no trilho apenas no dia em que pegar tua mão não seja precedido de mil pensamentos, mil resoluções com apenas uma certeza lenta que me embala.
Não saber a cor é desculpa, acredite. É comédia romântica com mais daquilo do que disso, quase sem graça nas horas que aperto o passo pro que já tem ritmo ordenado. Não sei, apenas não sei, e queria saber não saber das coisas da mesma forma que disfarça, da mesma forma que deixa pra lá o que ninguém realmente sabe onde diabos está, onde diabos vai parar com esse jeito sem jeito. É, apenas é e continuará sendo. Só te peço o arrepio, o pensamento vazio antes de encher a cabeça de sonhos cheios de sonhos, de sonhos que desconheço por já saber de mais.
Elephant Gun – Beirut
