domingo, 9 de maio de 2010

Espaço

A questão não é o desapego, não é gostar de mais ou gostar demais de gostar de menos, mas é que às vezes vou sem querer explicar, e não é só porque o ponto de partida das minhas viagens são teus abraços perdidos e olhares apertados que eu te devo alguma explicação, que devo aceitar sua cara deslavada aprendida em algumas aulas experimentais de teatro; me deixa ir sem ter que explicar pro teu silêncio o que tanto me faz quieto, sem ter que achar nos meus erros adormecidos dose sem fim pra esse teu vício de querer saber de mais das coisas que pra mim já são de menos.

Passa, é claro que tudo isso passa. Se o erro da humanidade é querer ver o fim das coisas boas antes da hora, tiro teu sutiã e te deixo a camiseta pra sentir as luzes do teu segredo toda vez que o fim for deixado pra lá mais uma vez, mais de uma vez. Encontro na dor das minhas costas a assinatura da tua cama de solteiro, e da falta de jeito dos meus braços em dormir como um C em cima do cobertor rosa de mulher estreita. Só me resta acordar de madrugada, amarrar o cadarço no escuro com a mesma boa vontade de filho desobediente, acenar para o porteiro com a mão calejada de quem faz do gesto simples orgulho carente, e rumar pra minha cama solteira de mim, conhecedora dos sonhos que vou insistindo esquecer em todas as manhãs que chego em casa.

Do mais, é bem pouco. Talvez se soubesse que o descaso da falta dos meus comentários vem da mesma fonte onde nascem teus sorrisos, fosse um pouco mais simples pro lado de nós dois. A questão não é me dizer o que há de errado em ser sincero, mas sim, o que há de errado em acreditar que se é sincero; o que há de errado em descontar nas surpresas os segredos dos meus maus pensamentos.

No fundo, tudo é bem raso, e na colcha da tua mão leve carrega minhas idéias ruins, meus cabelos soltos, meu descaso em dormir, as caspas que pesam meus ombros carregados de irresponsabilidade e incerteza. Ser solto pra andar nas tuas algemas, ser teu pra sentir falta do dia em que fui só pensamento; que não seja como nostalgia o que não marco mais no calendário, mas que venha a mim como tal guria que dá um tipo de paz sem sono em toda semana dos meus dias.



Nescafé – Apanhador Só