quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Inédito

Na verdade pensava isso em todas as metades de dia em que acordava. Fazia questão de sentir o gosto de desapego que as poucas horas de sono cultivavam em sua boca. Achava engraçado o cheiro ruim de sua roupa de cama lhe dar o prazer de fundas tragadas, e só levantava depois que todo resquício de sonho havia ido embora.

Enquanto tropeçava em direção ao banheiro, ia escolhendo suas reclamações do dia e certificando-se de hoje investir sua raiva em algo real, e não num pesadelo qualquer que se manteve esquecido. Antes de olhar-se no espelho, apoiava os braços na pia manchada e forçava-os para fazer o primeiro e último reflexo retrato falso de si. Enquanto brincava de limpar suas manchas na privada, pensava consigo que tamanho não importava e que ‘’ela’’ seria relevante com todos seus fantasmas, por menores que estes fossem.

Ele era assim. Pegava a xícara, e com uma mão na porta do armário e outra na porcelana de grãos, lembrava que ninguém tinha feito café, que ninguém acordara mais cedo pra deixar as coisas em ordem. E depois só restava guardar aquela caneca inédita há quase dois anos que devia ter um raro poder de tornar mágicos os cafés normais. Nunca tinha louça pra lavar, e tinha uma inocente curiosidade de ouvir o som da água batendo na pia. Mas a rotina sempre lhe puxava, e aos tropeços voltava ao banheiro pensando se a água respingaria na sua barriga, ou morreria dançando em círculos no ralo mais infeliz do seu prédio.

Da mesma forma que entrava no banheiro saía; ele não se dá conta, mas todo dia faz a mesma coisa e nem se pergunta, e nem sequer pensa nisso. Camundongo miserável! E volta pra sua cama, agora mais acordado do que nunca, agora sentindo os cabelos na nuca mais do que nunca. Revira a cômoda do lado esquerdo, e procura o que já sabe estar entre os lençóis emaranhados. Fica irritado por não achar, senta na cama e abre a gaveta pra procurar melhor o que já sabe estar entre os travesseiros amontoados; depois respira fundo, solta o ar olhando para os pés de veias saltadas, e se apóia nos travesseiros com a angústia de não ter nada pra procurar em parte alguma. Depois, com a certeza de continuar sem saber o som da campainha de seu telefone, enfia a mão no reboliço de tecidos e pega aquela foto velha e manchada. Ainda alisa o sorriso sem saber ao certo o que é o que, e só para quando sente uma espécie de saudade com gosto de tristeza escorrendo entre seus dedos, molhando suas pernas, desfazendo o sorriso cada vez mais, e manchando as velhas manchas de seus lençóis amarelos.

Depois não sorri mais durante o dia. Toma banho, e faz tudo com tanto arrependimento que por vezes deixa até de fazer. Liga o computador e fica procurando pessoas como quem anda numa calçada movimentada. Então se arruma, até demais pra alguém que não tem problemas de encontrar conhecidos na rua, e fica andando em calçadas movimentadas como quem tem vontade de desligar logo o computador e ir pra cama. Quando sentava na praça como quem estagna na foto de alguém que parece ser legal, perdia a vontade de fumar assim que a ponta do cigarro ficava vermelha; depois era por pura obrigação, como tudo na sua vida era só pra fazer valer o destino de um filtro.

Chegava na porta do prédio, e era quase fim de vida na cidade. A sua casa continuava igual, mas olhava tudo com calma na esperança de achar a pia meio molhada e algum livro fora do lugar. Não queria ficar sozinho, mas sabia mais do que ninguém que a companhia de qualquer pessoa seria a pior coisa do mundo. Tirava a roupa, e nu encarava a própria sombra no chão, talhada pela luz do poste na janela. E nessa hora, mais do que ninguém no bairro todo, sentia frio; ia como um doente nos corredores do hospital até a sua cama, e jogava aquele monte de tecido gelado sobre o corpo. Demorava alguns minutos pra se sentir seguro o suficiente e poder sonhar, e de olhos abertos não se dava conta que tudo tinha se repetido pela primeira vez.


‘’And so it’s

Just like you Said it would be.

Life goes easy on me,

Most of the time.’’

The Blower’s Daughter – Damien Rice