sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Maracujá

Do livro que ganhei em sonho, a capa vermelha escurecida no dourado velho das letras do título: um dourado quase sem o místico que todo dourado ofusca em olhos e prende a atenção da criança que não sabe o nome das cores e só respeita numa veneração própria do ser humano, antes mesmo do ouro, das embalagens, antes mesmo dos detalhes das roupas de Deus. Olhava o autor, lia e relia por saber que quando me acordasse seria a sensação de que alguma coisa foi embora e só. E acordei rindo daquele que dormi pra acordar, o nome claro em três sentenças separadas por vírgulas nas letras lindas que nunca pude sonhar: lembrei-me do detalhe mais importante do sonho que é o detalhe mais importante da vida. E nessas certezas, sorrindo, fechei os olhos. Penso agora nos detalhes já dias depois, de mim sentado em um banco de praça longe desta e ela vestida de seus cabelos dizendo que sabe, que a dedicatória é de entender pra quando eu acabar, o sorriso dourado em segredos e no vermelho da capa que haveria de ter lido se houvesse dormido pra sempre.

Perdi as letras da capa, e da dedicatória tenho à minha incerteza sua posição central logo na terceira página: uma linha inteira e outra pela metade em lápis. Sentado nessas mesas de fundo de casa de praia, descanso o cigarro no cinzeiro. E ele parece durar tanto, tanto. Tem aquele rapaz que me disse do soul ser feito no ritmo de um cigarro distraído. Quando se calam os pianos e trompetes e as vozes rasgadas, eu já posso levantar sem nenhuma tragada suspensa: sem nada por fazer que não me lembrar dele e pensar que nessas músicas tenho a única certeza da vida. A criança que gosta de refrigerante vermelho pula na piscina, e tem cinco, talvez dez segundos de liberdade antes de me perceber por de trás da rede, sentado à sombra do telhado e do cinzeiro enfumaçado. Não sorrio e o rosto vai leve. A criança entende, e já me faz de lado antes mesmo de me dar a nuca. Fecho o caderno sem esperança de lembrar o nome do livro. Talvez tenha sonhado isso tudo meses atrás, e o calor e a maresia tenham bagunçado meu calendário de lembranças. Talvez seja isso. Ano que vem as coisas se ajeitam. Teria oito, quem sabe nove horas antes que precisasse me tornar outro homem, abraçar os donos da casa, desejar prosperidade a todos. Um amigo me disse pra não mais pestanejar nesse novo ano. Penso duas vezes e sorrio.

Arrepiei de minha família. Cada qual pra seu lado, qualquer lado nos sendo como se juntos nessas coisas que não existem e torno reais como se de fato fossem: vivo em fantasias. Já pensei neles, jantei com os donos da casa da praia e vou andando pra queima de fogos. Alguém me disse com um carinho especial sobre os estilhaços de luz ou explosões de anjos. Não me lembro, e agora já não soa tão carinhoso assim. Vou calmo. Chove calmo. Dizem que aqui não existe fim de ano sem chuva. Falta um minuto, e ainda alguns passos por vencer. A dessincronia dos fins de ano, alguns pedaços do céu já em chamas. Lembro-me de mim criança, com poucos passos pra vencer até a quadra de futebol e as pernas que não me deixavam andar: corria como se a chuva grande já fosse madura no dia que minha mãe relacionava o meu chegar molhado com seus tapas de amor. E disso, ou de qualquer outra coisa, corro. Meia quadra de desespero infantil, os outros nove garotos esperando, tira a camisa, hoje você é do time deles, pode começar. E o mar vai aparecendo, escondido por entre tanta gente de branco, nucas olhando pro chão, rostos iluminados da pólvora em vermelho, azul; da pólvora em dourado que tanto chama minha atenção nesse céu de capa vermelha.

Chego atrasado. Perdi os dois primeiros minutos do ano correndo. Perdi o último minuto do ano passado, que tanto ainda me é, pensando que diabos levava escrito aquela capa. Tenho vontade de voltar pra casa, revirar a estante, provar a confusão entre o que sonho e o que vivo com a capa vermelha escondida entre minhas poucas pilhas de livros; descer satisfeito, fumar um cigarro ao lado da janela do vizinho que logo chega pleno e pergunta dos meus pais que vão viajando, voltam mais pro meio da semana. Pestanejo. Que prazer existe em pestanejar, poder viver quaisquer que sejam as vontades em sonho.

Ouvi do maracujá, na propriedade esquecida tida em suas sementes de vidro que alegra a vida. Tem o liso da casca, a calma em sua fragrância quase ácida em doce amarelo. Talvez seja isso e volto pra casa na primeira manhã do ano. As coisas ainda tem qualquer dourado de inédito. Visto a bermuda, coloco o caderno no bolso e vou dormir nos estalidos das sementes que como por esses sonhos de felicidade.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Francisco

Sonho com teus quinze anos desde há muito. Não me peça descrição. Entendo que lhe relevo como assim, de meu pai, aprendi a fazer com todas as coisas. Essas coisas mudam de um jeito que seria crueldade pedir seu sorriso de quem quer aprender. Não sou cruel. Faço-me esquerdo em quaisquer que sejam as condições desse mundo de destros, mas nunca fui cruel. Errei. Erro numa inocência que acredito ser próxima daquela que invade teus olhos de quinze anos, Francisco; a íris num castanho negro que se camufla na pupila linda do teu silêncio. Chegou refém de minhas tortuosidades, e acima do que julgo amor e incondicional, é tudo meu pedido ao teu perdão; de quem não sabe endireitar o reflexo que hei de ser à tua alma em folha branca nesse mundo cinza de fumaça. Você não tem culpa das vezes em que tudo vai trôpego, e deixo as latas na pia vazias do que sonhei ser um dia contigo, Francisco; por conta do vazio que não tem jeito nem cinzeiro que aconchegue as cinzas dessas fumaças um dia lindas, lindas. Parecem pernas de bailarina, me disseram um dia. Deixo a mão trêmula longe de minhas ansiedades, e a fumaça ganha plenitude. Tudo um dia é lindo, Francisco. Ainda que a maquiagem borre desses nossos verões intensos, que o travesseiro não trate nossas máscaras com o carinho que lhes temos, tudo um dia é lindo de um jeito que a alegria já faz doer a falta que faz. E parece num vazio que de um repente só dá vontade de gritar my sweet Lord i really want to see You really want to be with You ­e ninguém entende nada Ele não entende nada e você termina o filme e pergunta de um jeito que eu queria te abraçar e dizer que tá tudo bem ele vai voltar o nome daquele violãozinho pequenininho é ukulêle eu ainda não sei dizer certo pode dizer sem acento aquele homem volta sim a mulher dele chorava de cisco no olho dizem que naquela época do ano as pétalas se desfazem em ciscos e todo mundo chora dos dedos das flores que entram no peito digo nos olhos ele vai voltar sim era só aquela brincadeira de esconder que te falei as pessoas voltam deixa eu te abraçar não é nada acho que era alergia teu perfume novo é de perfeição me deixa perto mais um pouco. Teus olhos são lindos, Francisco. Hoje a gente vai dar uma volta no fuca. Quando eu tinha menos que teus quinze anos, andava no fuca de um primo lá do Espírito Santo. Minha mãe não gostava. Pedia sempre pra ele andar devagar, e eu só sentia o cheiro da gasolina e o topo dos prédios; meus olhos que não viam nada presos na minha cabeça presa no meu corpo ainda pequeno, refém do painel alto do fusca amarelo de meu primo capixaba. Mas eu juro que te conto tudo que passar pela gente, e dirijo como se minha mãe pedisse pra que eu fosse devagar pra te dizer o que acontece em volta, o movimento dos bares, os motoristas que não ligam a seta e deixam todo mundo irritado nesse mundo que é bravo, que avança na gente igual cachorro não quisto. Tenho um cachorro, Francisco. Sonhei esse cachorro antes de sentir falta dos teus quinze anos. Chamo de Cachorro mesmo, e foi o melhor amigo que tive na vida. Tem o tio da barba, tem o tio do Atlético; mas meu melhor amigo sempre foi Cachorro. Caráter exemplar, cheiro de sonho. Deixou seus pelos por tudo que imaginei, e ainda agora bato a camisa dos vestígios de seu peito arfante, seu focinho gelado de amor. Você brincou com ele e talvez nem lembre. Um dia te falei que tinha ido ajudar crianças que tinham medo de escuro, expliquei aquela coisa das pétalas e dos ciscos e te abracei como se fosse um domingo de sol às seis da tarde. Fez cara feia, mas trouxe o sorvete e o desenho tinha começado. Você e seus lábios contraídos, Francisco. Doeu mais que a mentira. Logo esqueceu com a cabeça perfeita dedicada aos brinquedos de incontáveis possibilidades. Chorei a falta de Cachorro entre suas risadas, o gosto de morango e chocolate e os pelos na minha camisa. Eu tive tanto medo do escuro, Francisco. Quantas vezes menti cuidar teu sonho, menti trocar o lado dos meus discos teus que te dormiam por que o silêncio me dói demais. Ela? Ela existe sim. Foi linda enquanto pude, e tua orelha direita tem o cheiro do ombro esquerdo que tanto confortava minha testa. Perdem os olhos da mesma forma, e às vezes, só às vezes, sumo nesse descaminho por não sei quanto tempo. Ela também foi embora, Francisco. Nessas coisas das coisas irem, acabo pensando se quem anda não sou eu. Perdoa. A gente compra sorvete só se você cantar. Eu sei que você já tem quinze anos, mas é Legião Urbana e isso não tem idade, sorvete não tem idade. Por quê você não me deixa em paz?, você diz e me grito isso há tanto tempo que não te respondo num sorriso que me solta o ar. Queria fumar um cigarro contigo, ouvir das tuas desilusões. De mim, só aprendeu desilusões. Sei que na terceira lata já disse minha vida toda, mas acredito que você goste. No teu copo é só refrigerante, mas teu coração é esse eu torto que te ama. Meu perdão. Meu muito obrigado. Vou fingir que você já tem dezoito. Tenta não pensar em nada. O gosto é ruim, eu sei. Meu pai me deixava molhar o dedo no colarinho de seus copos na Fruteira; mas é tudo sonho, e todo sonho é amargo assim. Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim, e eu já sinto falta tua, Francisco. Reclamava e só sorria no teu dormir manso. Você nunca soube como são lindos seus olhos enquanto dorme. Ela. Alonga Francisco, que a coluna entorta sem avisar. Tá com o corpo bonito. Homem já criança. Elas olham, Francisco, e hoje uma entrou tão linda na mercearia, escolhendo as batatas como se fosse a esposa assumida de Deus. E sonhei e pensei em tanta coisa pra contar que senti tua falta como senti os sapatos arroxeados dela pisando minhas saudades num jeito que só teu passeio comigo no bairro iria entender. Torce pra chover. Calça o chinelo e torce pra chover. Se perguntarem, eles espirram água na bermuda e andar descalço acaba mais fácil. A gente vai procurando pelas poças, Francisco. A chuva morta nas poças num morno macio, o cabelo que vira nuvem e vai empoçando o rosto num sorriso nosso de quem puxa o galho da árvore em cima do amigo depois da chuva. Você ri por entre os dentes brancos, a gente molha a sala, não tem problema, pizza?, você escolhe. Deixei o computador e a televisão como quadros nas paredes de livros. Meu orgulho secreto, Francisco. Não tenho muito que dizer. Um ou outro faz sentido, desperta a vontade insaciável da primeira tragada no cigarro. Márquez faz sonhar e tá ali na estante. Sei que o pó não mente, e a mancha nos teus dedos de um ou outro tem de aparecer logo que me esquecer da vida, a estante improvisada com as lombadas sujas do teu cinismo inocente. No mais são os nomes, os prêmios, o assunto pra puxar entre a segunda e terceira cerveja. Um dia você vai sozinho. Aos sábados à tarde, enquanto suas aulas de violão, hei de sonhar contigo lendo, Francisco; uma quinta de chuva na poltrona de baixo da janela, você achando que o Coronel tinha que vender o galo, que o Benjy parece ter os olhos tão bonitos. Deixa pra lá. Hoje você dirige e finge que minha mãe pediu pra ir devagar. Dói muito, dói muito te ter longe assim. Dorme nesse lugar teu que o banco direito do fuca já tem tua forma. Perdoa. Obrigado. Não faz tanto, mas é que você não chega. O quanto meus pais reclamaram de minhas demoras daria um silêncio de boas horas no bar da Visconde. Você me dói do jeito mais lindo que pude ser. Quero te mostrar as coisas que aprendo, mas a cerveja crava à cama que não tem saída. Conheço seu jeito. É um caminho sem volta e te amo tanto que é uma ida sem razão, entrega consciente. Francisco, meu filho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

A Sertaneja

Refiz o caminho e já não pude perceber as pessoas. A coluna reclama as horas mal sentadas pelo meu andar lento, julga o cabelo por cortar num sobrepeso ainda meu e de minhas ideias na cabeça que tanto bate e sente como um peito sem calma. Incomoda o silêncio de não ter por certo à quais olhos entregar assentido o meu cumprimento de quem muito viveu em Cachoeiro. Quando dessas ruas eu era parte do cenário foi sempre fim de tarde. Caso apertasse o passo, adiantasse o expediente ou dissesse precisar pegar o ônibus que passa antes e nunca vi, teria a certeza de encontrar a calma da moça da lotérica por seu ombro decorado em bolsas coloridas; o desenrolar da porta dos mecânicos já tão senhores que o ranger das engrenagens confunde em seus braços e testas de graxa velha e óleo seco. Pensava em meu pai. Agora em silêncio refiz o caminho mais sozinho do que nunca, perdido pelas ruas que tão bem desconheço as pessoas, os nomes nas placas que talvez sejam filhos dos pais que por outrora atravessei e dobrei e tive por certo aos pés de minha calma.

Vou estranho como o sóbrio nos carnavais de Antonina. Na primeira esquina o operário sorri da folga inesperada, sentado na grama e muito mais Zé que todos os reis que lhe passam parados no trânsito, coroados em conforto e metal e fumaça. Ostenta os dedos dos pés livres das botas e entregues aos carinhos dos dedos das mãos, e não sei dizer como desgostei de meus chinelos, invejei sua certeza de saber que não são seis horas e que por essa tarde toda o mundo é seu. Passo e entendo querer ser Rubem Braga. Tenho nas lembranças a forma de viver as coisas que não vi por andar escrevendo, inocentes mãos à máquina lenta de meu peito sem tinta.

Da minha cabeça pesada faço alerta aos pés, e pelos mal quistos chinelos vou até que chegue ao cabeleireiro da Marechal. Era perto de meu trabalho, e agora entendo viver à mercê daquilo que vi e não soube por andar escrevendo com os olhos no chão. Era de Rondônia, e na primeira vez que sentei à sua cadeira perguntou mesmo se eu queria raspar numa inocência que me fez filho aos olhos de mãe. Pela máquina três me contava que a vida aqui é cara, o ponto é bom e que tudo deu dez reais. Hoje a porta vai fechada. Desço a rua sabendo que não volta, e talvez as coisas por lá tenham dado mesmo certo. No bar da esquina, lotado do programa esportivo da televisão, o dono não se levanta e diz que encontro outro na quadra de baixo. Ando três até que chegue ao salão simples que não pede agendamento de hora com a manicure em seus cheiros diferentes pelos braços de tantos cremes. Suas unhas vão por fazer. A cabelereira, gorda e sentada à porta sob o ipê já sem cor, levanta de surpresa e diz que tudo é doze, que tudo bem e me mostra a segunda cadeira das únicas duas que inundam o cômodo pequeno e digno. Lembro de meu amigo de Rondônia e dói. Pelo espelho respondo às avessas pra que seu reflexo entenda direito o que é meu esquerdo, e por fim sinto não dizer nada. Tem o carinho da navalha ao meu redemoinho que, segundo ela, é bem no pé do cabelo. Acho entender assim os passos daquilo que penso, e saio com os perfumes da manicure impregnados por meus dedos de cigarros.

Sinto ter traído a simpatia do colega de Rondônia. Falou que as coisas lá são calmas, que a falta da família por aqui só chega à noite e nos dias que as pessoas acordam satisfeitas com o cabelo pela hora de cortar e suas cadeiras não abrigam ninguém. É assim mesmo, a clientela é fixa e o movimento não depende nem de chuva e nem da lua: seus horários à mercê da pressa dos cabelos que o humor estima quando bem entende. Peço desculpas e trocaria dois ou três dias de minha vida pra que já fossem seis horas.

Tomo o caminho pra casa pelas ruas que agora vão em obras. A farmácia continua, o ponto de ônibus tem a mesma sombra de sempre que parece derrubar da árvore uma ou outra menina apressada em passos de quinta feira. Amanhã logo chega, tenho vontade de falar, e elas me atravessam e o pedreiro não sorri enquanto ajeita o boné cinza em seu corpo cinza. Escancaram as portas e derrubam paredes do que antes era uma casa pra sempre fechada, daquelas casas pra sempre fechadas que toda rua digna tem escondida. Creio que os pedreiros sabem de sua culpa, e os semblantes sérios me dizem que o patrão mandou, que cada marretada nesses tijolos simpáticos derruba tanto, tanto que você nem sabe. Por aqui havia outra casa que me lembrava chalés em países de neve. As cortinas sempre fechadas, cadeado no portão e raras vezes, à varanda, uma senhora e seu rosto de olhar trancado, envolta de gatos como que acorrentados pela sombra que dali espantava o sol. Passo e vejo os dedos de um senhor esforçados pelos cadeados do portão, e a varanda hoje é vazia da senhora e de seus olhos e seus gatos. Não há mais sombra, e sinto afeto por ele com os dedos ainda enroscados em ferros.

O ônibus não demora. O motorista tem o rosto úmido, e parece ser da mesma temperatura do metal que guia e lhe é. A cobradora vai impassível, sentada no banco alto que nos diminui tanto, de tantos jeitos que Deus parece mesmo existir. Desço e não sei das horas pelas ruas daqui que vão desertas do fim de ano. Nossas vidas feitas aqui, nossos peitos esburacados enganados das fantasias daqui, e nos fins de ano daqui se esquecem. Sinto entender o silêncio até mesmo das calçadas, e entro em meu condomínio de prédios que tanto parecem feitos de vidro. Passo pela quadra de futebol, e a mãe assiste os dois filhos chutarem a bola pequena. O mais novo se concentra em cada chute que parece mostrar o caráter desde cedo impassível, enquanto o outro devolve e finge o esforço na paciência e proteção existente apenas nos irmãos enquanto crianças. Penso no meu e sinto falta da sua voz dizendo que eu não podia, que a mãe pediu pra ficar aqui, que depois ele me deixa dormir na cama de cima. Nunca deixou, e seja talvez esse um dos maiores orgulhos que tenho dele.

Sento às churrasqueiras daqui, sempre desocupadas de festas, repletas de papéis e dos cigarros mal apagados que me esqueço de jogar fora. O calor aqui hoje vai alto. Disse na televisão que uma capital do nordeste teve a máxima menor que a nossa. As pessoas que ainda não ignoraram a cidade andam aéreas, e talvez tenham até colocado as malas nos carros e trancado as portas de casa, mas o calor lhes colocou num transe que só passa quando cair enfim essa chuva eternamente suspensa. É ela que abafa, que me pesa a cabeça agora vazia de cabelos e ainda tão pesada do que tanto sei não saber. Sentado aqui é difícil não ser envolto na melancolia das tardes de meio de semana: os passarinhos que parecem cada vez mais perto de mim, curiosos de minha coluna curvada sob papéis que nada lhes são; as crianças e suas bicicletas e bolas num ritmo que foi meu, que não deixei que fosse embora, que busco no silêncio do que lembro e não acho cor e não acho mais sentido. Tudo sempre tão longe, e hoje, o tudo aqui é vazio. Sinto vontade de ligar a algum conhecido na praia e perguntar se viu algum melancólico andando com os pés na espuma do mar, mas desisto por não pensar em ninguém que consiga procurar como eu haveria de fazer. Sei que ela foi andar pelos lados de lá, silenciar os daqui pelos lados de lá.

Não me sobrou nada e fico satisfeito. Caem os primeiros pingos desse céu cimentado em nuvens. Largo o Rubem Braga já amarelado sob a mesa, o maço pela metade que deixa o isqueiro à salvo de extravios. Hoje ninguém mexe em nada. Descalço os chinelos e lhes sinto afeto ao sair do telhado de madeira pra entregar o rosto ao céu de chuva: é de um carinho morno e pausado. Sento à grama, e sorrindo dou aos pés os dedos de minha mão. Desaba do céu o peso de minha cabeça. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Largo de Jacó

Nesses dias de calor invento o caminho mais longo. Tenho de meus passos inconstantes um andar parado, negando de esquerdo o direito que insiste não sair do lugar. Já no ônibus o olhar encalorado dos sentados, dos em pé que calculam o horário de amanhã no desejo da janela aberta, da brisa sólida e abafada que conforta cabeças escoradas em vidros de tantos sonhos sem fim. Levanta primeiro a alma como quando Satie ilumina ouvidos por esse bairro de ruas de céu de árvores; procura a expressão mais cândida, o corpo inerte suspenso pelo olhar perdido de braços e sacolas equilibristas desse trânsito nada estático. E eu não me mexo, não borro sequer a vista de qualquer piscar sem que saiba por que levanto, sem que saibam por que ocupam a janela anunciada de minha alma pouco antes. A campainha me fere os ouvidos enquanto revela meu destino aos olhos de espelho do motorista que se reflete pra tanta gente. Nesses ônibus pequenos e sem cobrador as coisas parecem mais fáceis, os sorrisos começam em qualquer lugar. Salto perto do largo daqui. Não sei bem a diferença entre largos e praças. Não sei quem é Jacó e muito menos seus bancos em madeira, muito menos o cheiro de sua grama rala da areia das crianças. Prometo sempre mais tempo à próxima vez, e suas sombras me sorriem das promessas que não cumpro. Às vezes, e não sei bem precisar em quais, as ruas daqui tem o cheiro dos pés de carambola da Cachoeiro de minha mãe.

O tempo logo fecha, e chega a chuva na birra dessa cidade que não consegue ser sol. Como são lindas as donas de casa que se apressam ensaiadas pra trancar janelas, maldizer o tempo, estranhar o rapaz que anda lento nesse furor que a chuva derruba antes de seus pingos. Acabo avesso, e é só o alto de seus cabelos amarrados que me percebe assim. Dessas ruas desertas fazem calçadas, e os ipês pintam tudo que os braços de suas árvores alcançam, que o vento ajuda em borrar por cima dos carros sempre parados, das garagens sempre sentadas de senhores e suas banquetas de madeira antiga. O cheiro impregna o rosto, mela a língua. Escorre a criança que atravessa a calçada em caretas e me deixa a língua de flores num sorriso roxo e amarelo e azul. Não dá tempo pra que me vire e a veja de alguma forma que não já em flor, já de volta aos galhos dessas árvores que escondem o céu escondido agora de nuvens. Penso de quais sopros chegam esses que me passam silenciosos em seus floreios. Logo na esquina o pai jovem chuta a bola ao filho de olhos sérios, e de qual árvore são eu não sei, não pergunto. Talvez a mãe já tenha recolhido a roupa do varal, dito aos dois pra secarem bem os pés antes de entrarem pelo tempo que hoje fechou e eu ainda não fiz o café. Fins de tarde que parecem sempre sábado, sempre as cinco horas que esses relâmpagos abafados anunciam quase a todo instante. Eu digo que sei, digo que logo chego e assovio ao bar que já tem as portas ansiosas dos alarmes de Augusto, das chaves que me enferrujam os dedos desse alaranjado de flores. Aqui os copos quebram mesmo às nossas mãos seguras, mesmo aos olhos de concreto azul cimentados em Luiz.

Cruzo o portão e penso em Deus e nos fins de tarde que nunca passam. Arrumo as mesas à simetria de suas cadeiras, abro portas e janelas e a luz insiste em sua desconfiança que torna tudo sombra aqui de dentro. Penso em Deus e no meu silêncio. Luiz me chega primeiro na fumaça densa de seu cigarro que lhe esconde o rosto pelas frestas de seus olhos. Confere tudo por conferir, apalpa os bolsos e olha a camisa riscada de nossas canetas que tanto somem. Penso que confia em mim, que já pensa em nada pra esperar chegar a vontade de seus outros cigarros que só vão até a metade estrangulada desses dedos em cacos de copos. Pelos filtros brancos e sufocados o encontro já pela calçada, aos cantos escondidos do bar que nos limpam a cabeça de pedidos na fumaça cansada de nossas pausas. Guri, me diz, deixa só as mesas pra fora que o tempo fechou, diz, enquanto sorrio escorado à porta que a luz insisti em não cruzar. Há muito que me chama de guri, há muito que me chamam pelo nome.

Aos que chegam, nosso cumprimento às vezes sincero de saber como foram seus dias. E respondem tanto sem dizer nada, e tudo pra de em quando falarem do futebol, atrasar o silêncio da despedida numa intenção que não entendo. Penso em Deus e volto à porta com meu cigarro por de trás da orelha. Augusto aperta a caneta contra o granito do balcão, e não raro assusta as próprias pernas quando se levanta decidido, caminha até a última geladeira e volta ao mesmo lugar com a caneta agora descansada e o silêncio num alvoroço que só dele vejo. Deixo alguns sorrisos prontos pelos olhares que se esbarram por acaso ao meu, e procuro o motivo pelo qual bebem sozinhos os que chegam mais cedo por ter quem esperar, que aguardam o amigo de volta do banheiro carregado daquelas conversas reprisadas. Percebo que não é inconsciente, e sinto a confiança nesses que deixam escapar a razão de suas doses, de seus copos pela metade pra que não esquentem tão logo. Chega Blumenau, chega Mineiro e Clair e suas cervejas de rótulos azuis de tantos e de Adoniran Barbosa. Em dias assim Augusto não nos olha. Dá a atenção de seu cabelo sincero às contas do fim de semana que passou, às entregas dos pedidos sempre tão bem atrasados em seus funcionários de caminhões que trancam a rua, apressados em seus carrinhos de caixas e garrafas que tilintam alto em meu peito de olhos de Luiz, do silêncio desses dias mansos de Augusto.

E tão logo acalmo, dos motores das geladeiras rasga um sussurro intermitente que me leva ao balcão. A lista de compras já gravada em meu andar, o dinheiro contado num exagero que passa a sensação de que esqueci alguma coisa. Nem sequer me despeço da moça do mercado, nem interfiro na briga dos irmãos da padaria: logo volto por que já não me lembro mais, diz aquele de mim já destacado do resto. Como eles aos meus olhos, me esvazio. Subo a rua sem saber o que é calçada, e das sacolas cheias compenso o que vou deixando pelas ruas calmas de mercearias e saudades.

Encontro Paulinho antes mesmo de chegar à quadra, seus olhos que se jogam incertos nessa vontade que a gente tão pouco entende. Aperta pela mão quaisquer que sejam, ronda o bar em sorrisos sinceros numa intenção que também nos sorri pelo desespero do não saber. Meu piazinho, e minha mão apertada na dele como se quisesse que eu entendesse, como se em seus olhos incertos gritasse qualquer coisa que não nos é. Chega manso, pergunta que dia é hoje e tenta me convencer de que não falta muito pro natal. Acredito ser ele o único que saiba tudo por aqui como sábado. Carrega seus jornais velhos de hoje cedo, suas caixas que vende por onde desconheço. Contou-me que não gosta de cachorros, que a moça que limpa a casa de sua mãe não enxaguou o banheiro e que ele caiu e sangrou. Diz e conta e. Cala. Principalmente nos dias em que as coisas lhe passam despercebidas e me ignora, ignora os poucos que lhe esperam com a mão estendida. Escolhe a cadeira numa intenção que daqui da porta não me parece clara, e silencia o tempo em uma ou duas latas de refrigerante antes de sair cansado do que tanto nos explica, do que tanto nos diz em seu jeito que me leva os olhos.

Sei das horas por aqueles que saem, pelo frio que me fecha os botões da camisa às onzes horas aqui dentro sempre tão frias. Os relâmpagos já não me dizem mais, e num instante as luzes de fora já vão acesas, as pessoas apertam cadeiras e vontades sob um céu de estrelas que não lhes ganha a atenção. Às vezes a lua parece flor por entre as árvores daqui da frente. Vejo prédios baixos e as casas de janelas tão lá no alto, e ignoro até mais de um pedido sonhando o céu daquelas janelas vazias de senhoras viúvas, de senhores e seus bancos puxados com esforço de suas garagens nemorosas. As cortinas sempre por balançar, mesmo que pelas janelas fechadas não passem crianças em vento. Nessas já as sonho recolhidas com seus pais jovens às suas árvores que desconheço.

A mesa do canto é a única de calma nas noites cheias de gente e de seus silêncios ruidosos. Um, quem sabe dois lugares permanentemente vagos. Dos que ali sentam julgo saber do vazio de suas vontades, e volto de dentro com cinzeiro, copo e a primeira cerveja da primeira geladeira que me atravessa a ansiedade. Não digo nada. O rapaz ameaça erguer os olhos, mas o isqueiro já sai do meu cigarro à sua mão trêmula pelo relógio que não leva. Talvez o tempo lhe escoa avisado apenas pelos relâmpagos que do portão pra dentro nada anunciam. Nossas fumaças se dançam, se conversam, e saio sem que perceba.

Nossa cozinha fecha mais cedo. Não consigo saber quando sinto falta da campainha que nos chama aos pedidos. De qualquer forma, é nessas horas vou aos fundos, tranco a porta e arrumo o depósito de caixas e geladeiras e coisas que Augusto não pode se desfazer: garrafas já não mais retornáveis, um cofre, tacos de sinuca e ventiladores e cadeiras aos pedaços. Estes amontoados me fazem pensar no silêncio e em Augusto. De meus tênis furados driblo as garrafas mal varridas, as tampas de cerveja que insistem em bater nas bordas de nossos lixos vazios ao final da noite. Empilho as caixas no carrinho, e no corredor até as geladeiras não ouço garrafas num murmúrio sequer: uma aceitação de seus destinos, a obrigação de alimentar o silêncio daqueles que por hoje já fecham suas contas e estranham o vazio que se manifesta perto do carro, à porta de casa depois de cada bebedeira.

Quando já não há mais, vou pra fora e tenho o primeiro cigarro inteiro da noite. Procuro a lua por entre as árvores e sinto como se já fosse colhida. Penso em Deus e nas coisas por brotar aqui de dentro. Os últimos logo saem. Nesses dias em que parece sábado sinceramente não me incomodo de esperar. A música toca agora mais lá longe, as pessoas conversam agora com mais silêncio. Augusto adianta as coisas e fecha o caixa que lhe martelou a caneta ao granito por tantos olhares. Luiz serve sua meia dose e escora os ombros no balcão pelo espaço que sobra da sua cerveja já aberta, do seu copo já meio cheio. Desenrolo as portas e o som de suas engrenagens despenca tudo. Penso nos relâmpagos e no vazio que de agora em diante não me fala mais do tempo. As chaves na caixa vermelha, e procuro a garrafa já quente por entre as mais geladas que há pouco coloquei em seus silêncios conformados. Dos copos que sobram inteiros, sobra um que amansa os dedos retalhados de cacos e ferrugem. Augusto há muito me priva o prazer da volta de bicicleta pelas ruas que apenas de madrugada se parecem com as daqui. Diz da segurança, diz de coisas que pareço não entender por só sentir falta da calmaria que preciso, e espero.

No fundo do bar as cadeiras já empilhadas, mesas limpas das cinzas e daquilo que choram as garrafas. Desabo o corpo onde as pernas pedem, meu copo e sempre pela metade, cigarro por me sonhar enquanto o isqueiro me foge aos dedos. Penso em tudo sem lembrar de muita coisa. O gosto dessas cervejas me estanca a alma, e no dia já por raiar que atravessa o toldo furado de pinheiros, sou o motor da geladeira, o molhado dos copos que ainda escorre na cozinha deserta. Augusto me agradece em seus sussurros transparentes.

Eles e eu à banqueta no balcão, de qual levanto só hora ou outra pra tirar alguma mesa, limpar algum cinzeiro até que todos saiam e deixem meus bolsos livres de canetas, de abridores e gorjetas que somem de um pra aparecer por algum lugar que nunca sei. Agora só nosso silêncio e as geladeiras. Penso em Satie e não sei de onde vem o arrepio, não sei quantos copos encho até a hora que me peço pra ir embora. Augusto não me chama nem o táxi que de algum jeito já me espera, a porta do passageiro aberta e o nome aos lábios do motorista. Luiz me pergunta do fusca. Sorrio que logo chega, calo pra que eu dê as costas ao caminho de casa, agradeça ao taxista e diga que hoje não, que chamei por engano, que vou dar a volta na rua e ir pros lados da rodoviária até me perder nas travessas iguais, achar por fim o começo da Visconde de Guarapuava.

Saio pra logo mais. Tranca e portão encostado até que bato a porta laranja do táxi que confunde a ferrugem de minhas mãos. Penso na seta à esquerda que me envereda em sonhos à Visconde, a terceira marcha presa na sincronia divina dos semáforos de lá. Dou o endereço, meu silêncio e não tenho mais nada. O taxista olha de lado meus olhos que acompanham os postes tristes e amarelos. Penso que assim serão as lembranças à hora do juízo, que iluminam o caminho sincronizado em terceira marcha que tive durante o que pude. Penso em Deus, no meu céu de avenida. Quem sabe quem minha alma escolhe amanhã ao meu lugar do ônibus, se me cumpro a vontade dos bancos sozinhos do largo de Jacó.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Poltrona

Passei hoje a terceira eternidade dentro de apenas três dias de pra sempre. Não me lembro de perceber jeito ou maneira para diferenciar a semelhança dos momentos, de ter deixado atalhos espalhados pela casa. Sinto meu corpo ausente de mim, e a possibilidade de ser apenas enquanto sentado na poltrona do canto. Desde há muito conheço-me somente nos ângulos que tenho daqui, e assim transverso-me. Pelas manhãs e tardes espero me voltar de quartos e corredores pra saber como está, como vou. Só tenho meu silêncio. Só sei de mim o que imagino nessas abstrações de eternidade, e quando volto não me digo nada. Talvez justifique o vazio, ignorado ao canto, largado sob os próprios pés, próprios e meus que por tanto vão e nunca me chegam.

Há três dias não durmo. Tenho estado suspenso, mergulhado em uma dimensão de silêncio. Relógios e seus ponteiros moleques. Passo cada noite nesse ritmo eterno, onde minha vida de temporalidades não se encaixa com nada: acabo inútil e solto e pra sempre. Não há possibilidade de me deixar pra outra hora, agarrado a mim já preso sempre a tudo. Arrumo o tapete com os pés: corrente, trinco, e nessas horas o que fica da porta pra lá é tão a mesma coisa que não faz sentido apertar ferrolhos, torcer chaves. Minha casa acaba extensão de qualquer corredor. Em fuga desço as escadas e contorno o prédio. Suas luzes apagadas seguem meus passos, decifro lampejos de salas e quartos como espio de criança que finge dormir. As coisas ganham esse caráter infantil e duro, possíveis somente nesses enquantos. Pelas calçadas disformes chego e estaco em frente de minha janela, farol do jardim que hoje é noite sem sereno, muro sem gatos relegados apenas às lixeiras daqueles que dormem. Olho pra cima e a sala acesa beira uma sensação de agrado. Parece mesmo que as coisas ali dentro são boas, que a música toca baixo e dois ou três vão buscando alguma justificativa pra continuar logo mais pelo amanhecer. Sinto que posso, e até diria que corro se mudasse alguma relação no tempo daqui que é infinito e de pedra. Tão logo me trago de volta. A maçaneta tranca às costas, apago a luz pra claridade desse sossego sem paz e sem nada. Meu prédio volta a dormir sem mim.

Ainda falta pra hora do banho, da roupa certa, dos dentes cada vez mais amarelos. Mesmo não vendo cores daqui, sinto esse amarelo como indicador do tempo: às roupas, aos dedos, ao jeito das saudades. As coisas só ficam claras de um repente só, independentes das vontades minhas e de mim. Desperto. Saio de baixo da água sem aquele trago de desespero. Me pego mesmo pela mão e o café já foi tomado, a poltrona do canto parece e não me lembra. Chega um sorriso de carinho e o elevador de duas crianças sonolentas e pai responsável já desce cheio de mim. Talvez as crianças me entendam. Pergunto ao garoto mais velho como são seus sonhos, mas a porta já desce fechada e fica só o cheiro de quem recém acorda. Por um momento estou entre o térreo e a garagem, imerso em concreto. Lembro bem, mas não consigo entender quanto falta pra que me esqueça de mim, pra que durma desse espelho às minhas costas que me reflete de sua poltrona tão minha.

"quem sabe a luz de um cigarro que desaba do vigésimo andar"
Vitor Ramil - Não é Céu

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

transparências

assim como sou parte de minhas convicções, veleidades concretadas à relação com nada que não acasos sem sincronia, faço hoje, de meu pai, um exímio fumante que haveria de ter sido. ideia essa me passa em dedos e lábios desde há certo tempo, desmistificada em uma caixa de fósforos que, assim como as outras, parece surgir somente em dias de vento, em dias em que o fogo volta às mãos divinas e nos encaramos reféns de nossa existência de preces e fé. como somos imagens, ou como acredito que assim sejamos imagens, fiz a de meu pai num misto do que de fato é em barba, pele e cheiro. naquilo que me faz falta, entendo um vazio nas grandezas que de fato vejo e sinto, a ele invisíveis nos raros luxos em que se reflete em pensamentos. uma vida por completar e que, no entanto, há outros tantos já é plena, numa perfeição transparente aos olhos, cruel à percepção torpe que nos temos: esse sem fim da nossa procura. não me coloco à parte dessa incompreensão, e por isso, numa piedade humana que excede laços ou afinidades, faço de minha imagem a imagem que meu pai não pode enxergar, o reflexo que completa num paradoxo o que já é perfeito, que assim já é pai. uma relação de sacrifícios, onde o mestre abdica a vida aos passos do aprendiz, que deixa de se ser à compreensão da grandeza que sua fonte desconhece. sou eu filho, que por assim ser sorrio como meu pai, que não sabe até que ponto meu irmão lhe é reflexo ou não, que não sei até que ponto os homens de minha vida são pai e filho entre si.

por muito me vi minha mãe, e não somente no sorriso, não somente no coração capixaba repetia seus gestos, perpetuava o caráter sereno e impassível daquele povo ensolarado. desde há outro certo tempo tomei consciência do que trás o companheirismo, dessa troca de formas que o convívio opera no silêncio do tempo. tenho, então, uma mãe que é meu pai à proporção que imprime seu caráter sereno e impassível aos sorrisos que por nada lhe escapam. é impossível imaginar a quantidade de risadas que guarda dentro de si, em seu coração empedrado de alegrias já cinzas. achar a fonte do que são é ver fim no jogo de espelhos do elevador, retratos que se multiplicam conforme o esforço dos olhos. pela falta de insistência que tenho de um dos dois, assumo minha imagem como a de minha mãe que é a de seu companheiro, meu pai. ser um é ser o outro que já não acha começo, e o companheirismo dos dois nunca me pareceu tão único e intenso.

a graça fica por conta do reconhecimento que julgo também impossível. como a quem quer que seja, foge às minhas mãos alguma sombra que desenhe o que de fato sou. talvez por isso eu pareça ao meu pai algo completo numa busca desnecessária, e assim faz dos gestos da sua vida entregue o que falta à minha compreensão. fica meu pai sendo pra mim o que não posso enxergar, ao passo que sou reflexo das transparências de meu mestre: um sendo impossível ao outro, retratos do que de fato não existe e que, ainda assim, tanto nos é. fica a cumplicidade do olhar e das coisas que também sabemos não nos dizer.

ao meu irmão, cada uma das imensidões de seus dedos que não vê, que reduzo geometricamente e aplico aos meus sapatos, ao meu barco sempre por lançar. sinto como os pés na areia, água que molha o joelho que o vento já secou. acabo sendo também maré, e fico estático frente ao meu irmão que oscila, sempre sentado na sua correnteza de silêncio e eficácia, em seu barco inalcançável de proporções perfeitas. como se a calmaria não nos tivesse sido opção, e o silêncio de fora acaba escondendo a infinidade de explosões que cada bolha sussurra ao grão de areia em lança, que mata e absorve e devolve o mar pra sua imensidão nunca suficiente. sinto sua falta quando bocejo de boca fechada e meus ouvidos mergulham seu mar de saudade. creio que baste os cobertores silenciarem pra que nossa respiração grite o oceano que agora esvai, apodrecendo os pés das camas, enferrujando nossas janelas que nunca tiveram cotovelos de companhia. velejamos camas iguais aos sonhos dele que desconheço, e acabo sendo dúvida em suas certezas silenciosas.

de quando meu irmão fumava, acredito que, apesar de há época ele ser mais novo do que sou agora, também tinha a intenção secreta e inconsciente de ser o que meu pai era e não sabia. nada mais faço do que repetir os passos que afastam meus dois espelhos, tão distantes entre si que me fazem distante em essência. não apenas como relação temporária, como nada que não seja distante simplesmente na forma que deles torno minha.

tomo a caixa de fósforos à mão achando graça da forma que arrumo os palitos, segregando queimados e por queimar, pontas voltadas cada uma pra seu lado definido na caixa de quatro pontas e duas castas. se me pedissem um motivo, diria que faço o que ele faria caso fumasse. contaria da importância dos palitos válidos e desvalidos ser a mesma, responsáveis e cúmplices pelo cotovelo que meu pai apoiaria no balcão do bar, cigarro entre os dedos mágicos de graxa, pulso ancorado ao rosto entre queixo e orelha, esta que é direita, esta que é sempre direita e testemunha da infinidade de tragadas que não daria, que acabou nunca dando.

há alguns dias não fumo, interstício que faço pelos mesmos motivos sempre invisíveis ao dono do reflexo. acabo me desconhecendo numa espécie de ingenuidade concreta. meus passos sempre aos outros, existências que findam e se revelam aquele que fui. talvez agora seja filho, assim como meu irmão através de seus cigarros já quis ser pai. derretida a fumaça, esvai-se a consciência presente: o certo como certeza efêmera, clarão pleno que ilumina pra dimensionar o vazio sempre mais infinito. como se fosse apenas no instante que ainda sou pra deixar de ser, e largo os cigarros há alguns dias como alguém que não se conhece, que nunca fumou, que não pode ver em que imita o pai, em que tenta ser o irmão. fica o fim como responsável de mostrar a quem ouve o que foi que houve, o que às vezes nunca houve há alguns dias demais.

considero esse o começo, como se já não tivesse nunca fumado, como se já não tivesse nunca sido meu pai. a roupa da outra noite parecesse não ser minha, esse cheiro emprestado de alguém por fim passado. acabo presente apenas no enquanto que não me sei, e fica tudo suspenso como são suspensas as coisas quase aqui.  

The Kings Of Convenience - Homesick

sexta-feira, 26 de julho de 2013

rodapé

e por ter como espelho os próprios pensamentos, fazia do silêncio seu reflexo invisível. andar de olhos baixos como quem procura seu relance em janela, certeza provisória de um enquanto onde tudo está bem até o próximo vidro espelhado em azul, em nós. calado confirmava algum tanto por ainda existir, confrontava a imagem que lhe era com o desenho que julgava à ele ser feita. por só saber reparar, aprendeu a presença do que não existe. tudo pela possibilidade do fantástico. era durante as semanas em que conversava e se fazia ser visto que deixava de existir, passando transparente aos retratos avessos que qualquer superfície não podia, pelo momento de sua extensão, inverter na fidelidade contrária do refletido. talvez por isso tenha sido o único numa vida intercalada entre a presença física e a impossibilidade de ser: era, ou literalmente não o podia.

nos momentos em que se ausentava de si, vivia quaisquer que fossem os outros numa fé cega de fim próximo. moldava-se à imagem de quem devotava, numa esperança inconsciente de se ver outro no vidro do carro que passa, que nos leva embora de quem somos, de quem, no caso dele, tornava próprio. de se ver outro por simplesmente se ver. não sei. seus pensamentos invisíveis tomavam posse em sinais sempre diferentes. a verdade é que esquecia das delicadezas que lhe davam de volta ao que era, e na falta do que comparar, acreditava na impossibilidade de evitar os caminhos destinados à transparência de se ser. uma boa memória seria como fórmulas de mãe, de resultados infalíveis aos banhos quentes seguidos de sereno, à falta de sabor que a pressa deixa ou pela comida ou pela boca. nunca soube. nem ele, nem eu.

por ser quem é às vezes torná-lo outro, comportava todas as opiniões, todas as maneiras de segurar a manga da camiseta comprida quando sobrepunha algum suéter, alguma camisa. era a infinidade de tudo que devotava por não saber ter reflexo, por precisar ser quando não se era no propósito simples da existência. como ser vitrine do outro. tinha a predisposição do alfaiate quando encontrava com alguém, e conseguia se fazer presente enquanto dedicava toda a atenção em olhos de fita métrica, mensurando largura de ombros, fissuras deixadas pelo riso. a ideia leve do sorriso sempre se desfazia quando notava as marcas fundas que a alegria talhava ao rosto. por fim, tinha as medidas na cabeça pra incorporar atitudes alheias como um traje feito sob medida, mãos de artista, dom hoje deixado pra trás pela facilidade em se enquadrar tudo em moldes prontos. ser o molde pronto de outras pessoas era tudo que podia, já que nem o fantástico conseguiu vestir sua transparência. ou que não tinha. também não sei.

"por assim ser" lhe ser definição impossível, fica por assim que não só aos espelhos se faz invisível, mas a todos que o percebem apenas quando é outra pessoa. à mim próprio não é dado o direito de dizer que o conheço, já que só o sou quando é ausente desses pensamentos que lhe tiram de mim, que lhe tiram dele próprio e que não me deixam vestígios, iguais apenas na capacidade de serem esquecidos assim que acordo. é como se eu fosse outro por não poder ser refletido em mim, e nesse instante de consciência fico imerso em seu próprio silêncio meu de imagem invertida. acabo por me ser apenas quando não posso mais por assim, quando os pensamentos ainda não tomam conta. por de repente parecer despertar em baixo d’água, caminha de olhos baixos refletindo a incapacidade de ser ele próprio, onde só posso ser quem sou quando ausentes de nós.

"mas às vezes ainda espero você chegar"
carlos posada - província