segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Poltrona

Passei hoje a terceira eternidade dentro de apenas três dias de pra sempre. Não me lembro de perceber jeito ou maneira para diferenciar a semelhança dos momentos, de ter deixado atalhos espalhados pela casa. Sinto meu corpo ausente de mim, e a possibilidade de ser apenas enquanto sentado na poltrona do canto. Desde há muito conheço-me somente nos ângulos que tenho daqui, e assim transverso-me. Pelas manhãs e tardes espero me voltar de quartos e corredores pra saber como está, como vou. Só tenho meu silêncio. Só sei de mim o que imagino nessas abstrações de eternidade, e quando volto não me digo nada. Talvez justifique o vazio, ignorado ao canto, largado sob os próprios pés, próprios e meus que por tanto vão e nunca me chegam.

Há três dias não durmo. Tenho estado suspenso, mergulhado em uma dimensão de silêncio. Relógios e seus ponteiros moleques. Passo cada noite nesse ritmo eterno, onde minha vida de temporalidades não se encaixa com nada: acabo inútil e solto e pra sempre. Não há possibilidade de me deixar pra outra hora, agarrado a mim já preso sempre a tudo. Arrumo o tapete com os pés: corrente, trinco, e nessas horas o que fica da porta pra lá é tão a mesma coisa que não faz sentido apertar ferrolhos, torcer chaves. Minha casa acaba extensão de qualquer corredor. Em fuga desço as escadas e contorno o prédio. Suas luzes apagadas seguem meus passos, decifro lampejos de salas e quartos como espio de criança que finge dormir. As coisas ganham esse caráter infantil e duro, possíveis somente nesses enquantos. Pelas calçadas disformes chego e estaco em frente de minha janela, farol do jardim que hoje é noite sem sereno, muro sem gatos relegados apenas às lixeiras daqueles que dormem. Olho pra cima e a sala acesa beira uma sensação de agrado. Parece mesmo que as coisas ali dentro são boas, que a música toca baixo e dois ou três vão buscando alguma justificativa pra continuar logo mais pelo amanhecer. Sinto que posso, e até diria que corro se mudasse alguma relação no tempo daqui que é infinito e de pedra. Tão logo me trago de volta. A maçaneta tranca às costas, apago a luz pra claridade desse sossego sem paz e sem nada. Meu prédio volta a dormir sem mim.

Ainda falta pra hora do banho, da roupa certa, dos dentes cada vez mais amarelos. Mesmo não vendo cores daqui, sinto esse amarelo como indicador do tempo: às roupas, aos dedos, ao jeito das saudades. As coisas só ficam claras de um repente só, independentes das vontades minhas e de mim. Desperto. Saio de baixo da água sem aquele trago de desespero. Me pego mesmo pela mão e o café já foi tomado, a poltrona do canto parece e não me lembra. Chega um sorriso de carinho e o elevador de duas crianças sonolentas e pai responsável já desce cheio de mim. Talvez as crianças me entendam. Pergunto ao garoto mais velho como são seus sonhos, mas a porta já desce fechada e fica só o cheiro de quem recém acorda. Por um momento estou entre o térreo e a garagem, imerso em concreto. Lembro bem, mas não consigo entender quanto falta pra que me esqueça de mim, pra que durma desse espelho às minhas costas que me reflete de sua poltrona tão minha.

"quem sabe a luz de um cigarro que desaba do vigésimo andar"
Vitor Ramil - Não é Céu

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

transparências

assim como sou parte de minhas convicções, veleidades concretadas à relação com nada que não acasos sem sincronia, faço hoje, de meu pai, um exímio fumante que haveria de ter sido. ideia essa me passa em dedos e lábios desde há certo tempo, desmistificada em uma caixa de fósforos que, assim como as outras, parece surgir somente em dias de vento, em dias em que o fogo volta às mãos divinas e nos encaramos reféns de nossa existência de preces e fé. como somos imagens, ou como acredito que assim sejamos imagens, fiz a de meu pai num misto do que de fato é em barba, pele e cheiro. naquilo que me faz falta, entendo um vazio nas grandezas que de fato vejo e sinto, a ele invisíveis nos raros luxos em que se reflete em pensamentos. uma vida por completar e que, no entanto, há outros tantos já é plena, numa perfeição transparente aos olhos, cruel à percepção torpe que nos temos: esse sem fim da nossa procura. não me coloco à parte dessa incompreensão, e por isso, numa piedade humana que excede laços ou afinidades, faço de minha imagem a imagem que meu pai não pode enxergar, o reflexo que completa num paradoxo o que já é perfeito, que assim já é pai. uma relação de sacrifícios, onde o mestre abdica a vida aos passos do aprendiz, que deixa de se ser à compreensão da grandeza que sua fonte desconhece. sou eu filho, que por assim ser sorrio como meu pai, que não sabe até que ponto meu irmão lhe é reflexo ou não, que não sei até que ponto os homens de minha vida são pai e filho entre si.

por muito me vi minha mãe, e não somente no sorriso, não somente no coração capixaba repetia seus gestos, perpetuava o caráter sereno e impassível daquele povo ensolarado. desde há outro certo tempo tomei consciência do que trás o companheirismo, dessa troca de formas que o convívio opera no silêncio do tempo. tenho, então, uma mãe que é meu pai à proporção que imprime seu caráter sereno e impassível aos sorrisos que por nada lhe escapam. é impossível imaginar a quantidade de risadas que guarda dentro de si, em seu coração empedrado de alegrias já cinzas. achar a fonte do que são é ver fim no jogo de espelhos do elevador, retratos que se multiplicam conforme o esforço dos olhos. pela falta de insistência que tenho de um dos dois, assumo minha imagem como a de minha mãe que é a de seu companheiro, meu pai. ser um é ser o outro que já não acha começo, e o companheirismo dos dois nunca me pareceu tão único e intenso.

a graça fica por conta do reconhecimento que julgo também impossível. como a quem quer que seja, foge às minhas mãos alguma sombra que desenhe o que de fato sou. talvez por isso eu pareça ao meu pai algo completo numa busca desnecessária, e assim faz dos gestos da sua vida entregue o que falta à minha compreensão. fica meu pai sendo pra mim o que não posso enxergar, ao passo que sou reflexo das transparências de meu mestre: um sendo impossível ao outro, retratos do que de fato não existe e que, ainda assim, tanto nos é. fica a cumplicidade do olhar e das coisas que também sabemos não nos dizer.

ao meu irmão, cada uma das imensidões de seus dedos que não vê, que reduzo geometricamente e aplico aos meus sapatos, ao meu barco sempre por lançar. sinto como os pés na areia, água que molha o joelho que o vento já secou. acabo sendo também maré, e fico estático frente ao meu irmão que oscila, sempre sentado na sua correnteza de silêncio e eficácia, em seu barco inalcançável de proporções perfeitas. como se a calmaria não nos tivesse sido opção, e o silêncio de fora acaba escondendo a infinidade de explosões que cada bolha sussurra ao grão de areia em lança, que mata e absorve e devolve o mar pra sua imensidão nunca suficiente. sinto sua falta quando bocejo de boca fechada e meus ouvidos mergulham seu mar de saudade. creio que baste os cobertores silenciarem pra que nossa respiração grite o oceano que agora esvai, apodrecendo os pés das camas, enferrujando nossas janelas que nunca tiveram cotovelos de companhia. velejamos camas iguais aos sonhos dele que desconheço, e acabo sendo dúvida em suas certezas silenciosas.

de quando meu irmão fumava, acredito que, apesar de há época ele ser mais novo do que sou agora, também tinha a intenção secreta e inconsciente de ser o que meu pai era e não sabia. nada mais faço do que repetir os passos que afastam meus dois espelhos, tão distantes entre si que me fazem distante em essência. não apenas como relação temporária, como nada que não seja distante simplesmente na forma que deles torno minha.

tomo a caixa de fósforos à mão achando graça da forma que arrumo os palitos, segregando queimados e por queimar, pontas voltadas cada uma pra seu lado definido na caixa de quatro pontas e duas castas. se me pedissem um motivo, diria que faço o que ele faria caso fumasse. contaria da importância dos palitos válidos e desvalidos ser a mesma, responsáveis e cúmplices pelo cotovelo que meu pai apoiaria no balcão do bar, cigarro entre os dedos mágicos de graxa, pulso ancorado ao rosto entre queixo e orelha, esta que é direita, esta que é sempre direita e testemunha da infinidade de tragadas que não daria, que acabou nunca dando.

há alguns dias não fumo, interstício que faço pelos mesmos motivos sempre invisíveis ao dono do reflexo. acabo me desconhecendo numa espécie de ingenuidade concreta. meus passos sempre aos outros, existências que findam e se revelam aquele que fui. talvez agora seja filho, assim como meu irmão através de seus cigarros já quis ser pai. derretida a fumaça, esvai-se a consciência presente: o certo como certeza efêmera, clarão pleno que ilumina pra dimensionar o vazio sempre mais infinito. como se fosse apenas no instante que ainda sou pra deixar de ser, e largo os cigarros há alguns dias como alguém que não se conhece, que nunca fumou, que não pode ver em que imita o pai, em que tenta ser o irmão. fica o fim como responsável de mostrar a quem ouve o que foi que houve, o que às vezes nunca houve há alguns dias demais.

considero esse o começo, como se já não tivesse nunca fumado, como se já não tivesse nunca sido meu pai. a roupa da outra noite parecesse não ser minha, esse cheiro emprestado de alguém por fim passado. acabo presente apenas no enquanto que não me sei, e fica tudo suspenso como são suspensas as coisas quase aqui.  

The Kings Of Convenience - Homesick

sexta-feira, 26 de julho de 2013

rodapé

e por ter como espelho os próprios pensamentos, fazia do silêncio seu reflexo invisível. andar de olhos baixos como quem procura seu relance em janela, certeza provisória de um enquanto onde tudo está bem até o próximo vidro espelhado em azul, em nós. calado confirmava algum tanto por ainda existir, confrontava a imagem que lhe era com o desenho que julgava à ele ser feita. por só saber reparar, aprendeu a presença do que não existe. tudo pela possibilidade do fantástico. era durante as semanas em que conversava e se fazia ser visto que deixava de existir, passando transparente aos retratos avessos que qualquer superfície não podia, pelo momento de sua extensão, inverter na fidelidade contrária do refletido. talvez por isso tenha sido o único numa vida intercalada entre a presença física e a impossibilidade de ser: era, ou literalmente não o podia.

nos momentos em que se ausentava de si, vivia quaisquer que fossem os outros numa fé cega de fim próximo. moldava-se à imagem de quem devotava, numa esperança inconsciente de se ver outro no vidro do carro que passa, que nos leva embora de quem somos, de quem, no caso dele, tornava próprio. de se ver outro por simplesmente se ver. não sei. seus pensamentos invisíveis tomavam posse em sinais sempre diferentes. a verdade é que esquecia das delicadezas que lhe davam de volta ao que era, e na falta do que comparar, acreditava na impossibilidade de evitar os caminhos destinados à transparência de se ser. uma boa memória seria como fórmulas de mãe, de resultados infalíveis aos banhos quentes seguidos de sereno, à falta de sabor que a pressa deixa ou pela comida ou pela boca. nunca soube. nem ele, nem eu.

por ser quem é às vezes torná-lo outro, comportava todas as opiniões, todas as maneiras de segurar a manga da camiseta comprida quando sobrepunha algum suéter, alguma camisa. era a infinidade de tudo que devotava por não saber ter reflexo, por precisar ser quando não se era no propósito simples da existência. como ser vitrine do outro. tinha a predisposição do alfaiate quando encontrava com alguém, e conseguia se fazer presente enquanto dedicava toda a atenção em olhos de fita métrica, mensurando largura de ombros, fissuras deixadas pelo riso. a ideia leve do sorriso sempre se desfazia quando notava as marcas fundas que a alegria talhava ao rosto. por fim, tinha as medidas na cabeça pra incorporar atitudes alheias como um traje feito sob medida, mãos de artista, dom hoje deixado pra trás pela facilidade em se enquadrar tudo em moldes prontos. ser o molde pronto de outras pessoas era tudo que podia, já que nem o fantástico conseguiu vestir sua transparência. ou que não tinha. também não sei.

"por assim ser" lhe ser definição impossível, fica por assim que não só aos espelhos se faz invisível, mas a todos que o percebem apenas quando é outra pessoa. à mim próprio não é dado o direito de dizer que o conheço, já que só o sou quando é ausente desses pensamentos que lhe tiram de mim, que lhe tiram dele próprio e que não me deixam vestígios, iguais apenas na capacidade de serem esquecidos assim que acordo. é como se eu fosse outro por não poder ser refletido em mim, e nesse instante de consciência fico imerso em seu próprio silêncio meu de imagem invertida. acabo por me ser apenas quando não posso mais por assim, quando os pensamentos ainda não tomam conta. por de repente parecer despertar em baixo d’água, caminha de olhos baixos refletindo a incapacidade de ser ele próprio, onde só posso ser quem sou quando ausentes de nós.

"mas às vezes ainda espero você chegar"
carlos posada - província

quarta-feira, 19 de junho de 2013

retrato

dona Sara caminha combinando sobretudo e guarda chuva em um azul escuro. foge-me a tonalidade. sua filha passa por mim pouco antes, e tem dificuldade em abrir sua sombrinha cor de rosa. mochila nas costas, desprotegida de pingos desordenados. param ao meu lado na porta do bloco. comentam que precisam de uma nova sombrinha. poucas palavras. nem se despedem. poucas palavras são sinônimos de afinidade. todos os dias, pouco antes do meio dia, a filha de dona Sara caminha trôpega do nosso bloco até à condução da escola. todos os dias, desde os dias que consigo me lembrar. tem os olhos perdidos assim como os de João que é Francisco. vive em seu mundo particular, dividido em poucas afinidades com a solidão de dona Sara. filha dobra à esquerda, mãe à direita. fico embaixo da marquise, de pé, encostado à porta, me abrigando dos pingos que saem estilhaçados, desordenados que caem no chão, na mala desabrigada da filha de dona Sara.

subo as escadas e volto pra casa. vinte e oito degraus. o número de sorte de meu pai é vinte e sete. tudo pra ele é sempre perto, quase lá. penso se, assim como é difícil andar na chuva, há alguma dificuldade no voo dos pássaros. caminham de asas ainda assim, e voar ainda parece fácil, mesmo sob as gotas que logo nos tomarão o corpo, encharcando calçados pra encharcar meias.

abro a porta de casa e não tenho nenhuma conclusão. vai a dona Sara à direita e sua filha à esquerda. caminham pra logo voltar, começar tudo amanhã, pouco antes do meio dia. a chuva não muda muito as coisas. percebo pelos pássaros, de galho em galho sacudindo as penas, que em dias de sol não devem ser tão sacudidas assim. fico pensando qual é o número de sorte da dona Sara. são quarenta nove degraus até seu último andar. todos os dias combinando roupas, na desatenção da afinidade não notando os passos trôpegos de sua filha. cada uma a outra. trocam sempre poucas palavras comigo. estar parado vendo-as sair pouco antes do meio dia é detalhe na continuidade de seus dias, e por afinidade e meus poucos olhares, sinto-me elas. cada eu elas, e cada elas uma a outra, pontos da mesma linha.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

sete luas

acho que nunca fui de ter preferências. assumo em minhas mãos e traços as marcas de meus vícios, de minhas manias. porém, controlo-as sem maiores exigências de tempo ou espaço. creio ter herdado esse jeito de meu pai. ao contrário dele, que satisfez seus desejos à mercê de uma vida que não lhe teve como prioridade, percebo meus passos cômodos desorientados de qualquer que seja a responsabilidade, e talvez por conta disso, ache em um sem fim de gostos e fumaças a saciedade de uma sede incerta. é comum encontrar em armários e gavetas algumas reminiscências minhas em formas diversas. cachimbos, cuias, canetas, isqueiros, peças de quebra cabeça: um sem fim de objetos que um dia foram destinados à ser parte franca do que sou. passaram. faço força por entre as estradas de dias ensolarados, que tão bem conseguem ilustrar os caminhos de nossas memórias, e me perco sem querer num fim de curvas que levam a qualquer que seja minha saudade, exceto às intenções que um dia atribuí nessa minha miscelânea fracassada. saio do banho e reparo um rosto marcado de expressões tão bem ensaiadas, tão bem esquecidas. à medida que o espelho se desvencilha do vapor, redescubro alguma tatuagem sem ter ao certo o significado das cores e das borboletas. “você sempre vai poder contar uma história diferente”. acho que quem disse foi o tatuador. as coisas só tem o sentido que o tempo deixa por onde passa. paciência.

reparo que, há algumas semanas, tenho impregnado minhas tardes de café. tudo meio acre. tanto o cheiro da casa como o gosto dos dentes. faço minhas coisas tendo substituído minutos por xícaras, e mantenho assim meus compromissos muito bem filtrados. o puro acaba nunca bastando. fervemos a água e tiramos dela todo resquício de transparência. precisamos que seja um pouco mais forte, um pouco mais quente. pensei que dessa vez daria certo, que me tornaria um tomador inveterado de café. estava usando sempre a mesma caneca, já acertava a quantidade de pó e o pouco de leite pra enganar o gosto, ganhar um aspecto encorpado mesmo que não saiba ao certo o que isso significasse. só por algumas semanas. devo ter cansado. hoje a caneca de meu pai não conseguiu bastar. peguei a de meu irmão. raras são as coisas dele que não me deixam completo. de ambos. homens de minha vida. bebo um gole e acho graça pensar que sempre me chamam pelo nome dele ao telefone. justificam a sentença em uma semelhança de voz. fico orgulhoso. sorrio e seguro sua caneca. sou meu irmão. posso atender o telefone e confirmar que quem fala é ele, e que claro, no horário combinado, tudo bem, pode deixar. o telefone não toca.

agora a noite tive vontade de fumar um cigarro. acabou. acendi a luz da cozinha e procurei de mãos no bolso. achei chá. fazia tempo que não tomava chá. pego a caixa, e com o fósforo quase incandescente ainda impregnando desenhos e cheiros, vejo a proporção de um sachê pra 200 ml de água fervendo. confirmo se a chaleira tem pelo menos o triplo da água que preciso. nunca sei quanto dela evapora, e a ideia de deixar a xícara meio vazia por falta de água me assusta. a casa toda está apagada, e depois de muitos anos, hoje faltou luz praticamente o dia todo. consigo diferenciar os móveis da sala com certa facilidade, mesmo que não seja noite de lua, e que as cortinas estejam bem fechadas. olhos acostumados. hoje ouvi meus pais conversando enquanto faziam a janta. sempre fazem isso, e eu nunca os tinha ouvido conversando ou muito menos fazendo a janta. meu pai e minha mãe à sombra de uma vela, ao som de alguma cebola ou alho grudando e cheirando a casa de infância. meu irmão dorme e não sabe quanta falta faz. percebo minha coluna reta e o olhar fixo em um parágrafo que não acontece, ainda que tente. fica no papel. acho que emprego toda minha capacidade de abstração em moldar minha figura com a de meu irmão, tanto na coluna, quanto em seus olhos fixos que nunca souberam abstrair. sinto falta dele.
   
seria mais fácil se tivéssemos aquelas chaleiras que assoviam. a nossa treme, e às vezes muito antes de começar a evaporar a quantidade de água que pode fazer falta na minha garrafa de café. digo, em minha xícara de chá. fico em dúvida, e é comum pegar uma faca e espiar pela tampa duas ou três vezes se já posso apagar o fogo. preciso pegar uma faca por que o puxador da tampa sumiu. de qualquer forma, espero e deixo as esperanças do café pra trás. talvez o chá. uma xícara por noite. quem sabe durante um filme. o tempo vai afinar o paladar. vou entender que a água precisa ser aquecida, e não fervida. aromas e sabores elucidarão o entendimento inerente necessário para a compreensão das cerimônias de chá orientais. isso. chá. fazia tempo que não tomava chá. na casa da mãe de meu pai foi onde eu devo ter feito meu último chá. ela tinha umas coisas engraçadas que eu provavelmente nunca saberei o nome. eram casinhas ou corações de metal com um infinidade de furos, e ela me ensinava a abri-los com a técnica que criança nenhuma pode aprender por ser criança e desengonçada, e enchia de algum chá que por vezes eu gostava, por vezes não. o chá dela não vinha naqueles pacotinhos de papel, e agora percebo que parecia muito com o fumo de cachimbo que tentei tornar parte minha. esse fumo deve estar por alguma gaveta. juro que a primeira aspirada que dou depois de pensar onde diabos foi parar esse fumo é sempre carregada de seu cheiro. já abri vários armários e achei outras tantas reminiscências, mas nunca esse fumo. é como se estivesse em uma infinidade de lugares, inclusive dentro dessas casas e corações de uma porção de furos que tinham um encaixe minúsculo que os cerrava com o chá que lembra meu fumo, e assim que imersos, de dentro deles emanava uma essência de cor sempre diferente, que apaixonava a água fervida e tornava o antes puro em chá. é claro que eu não pensava assim. só colocava um pouco menos de água do que a mãe de meu pai recomendava, e assim que tinha autorização, ia dissolvendo, uma a uma, o máximo de pedras de gelo que conseguia. misturava e misturava até que fosse possível virar tudo pela garganta, queixo e camisa sem me queimar. hoje percebo toda a imbecilidade de criança, movida por impulso e não pensamento, ainda que esses dois pareçam sinônimos.

tirando a aparência e a certeza na confusão que tenho por entre as curvas de minha estrada, não vejo relação alguma entre os chás da mãe de meu pai e do meu fumo perdido. fica pra trás um, perco outro, e acredito ser essa a ordem das coisas.

tenho as mãos no bolso, e a tremedeira da chaleira ameaça o sono da nossa casa que dorme. apago o fogo sem confirmar se a água estava fervendo. tenho certeza que não. esperar mais uma ou duas xícaras de café seria o ideal. é mesmo, parei com o café. preciso readequar meus padrões de tempo. na embalagem dizia de três a cinco minutos, conforme o gosto. deveria ter a opção “quatro minutos se você tem um gosto passível de qualquer satisfação”. eu queria um cigarro, mas acabou. decido por quatro minutos: metade do tempo que eu normalmente levo pra fumar um bom cigarro, mesmo que às vezes não seja tão bom assim. tem esses cigarros de menta, cravo, e mais uma porção de essências que prometem e não conseguem adocicar nada. prefiro cigarro sem sabor. prefiro chá mate. rio por parecer enxergar uma ponta de preferência. era uma da manhã quando afoguei os dois saquinhos de papel na xícara. quatro minutos. mexo pra dissolver o açúcar e penso em cubos de gelo. imbecil. essa caneca de meu irmão tem a borda de metal. passo o dedo por precaução. insuportavelmente quente. experimento. pareço fumar a ponta acesa de um cigarro. nem um pouco prático, mas talvez comece a satisfazer mais de uma vontade com apenas um gesto. preciso esperar. quem sabe um cigarro. acabou. imbecil. abro o freezer, e a gaveta do gelo ainda é cheia de resquícios esquecidos do último verão. olho os cubos rodarem e sumirem, o próximo sempre mais devagar que o anterior. por sorte a água evaporou da chaleira e a caneca de meu irmão não ficou tão cheia. já devo ter colocado umas quatro pedras e visto-as sumir em sua dança circular. passo o dedo na borda da xícara de meu irmão por pura precaução, e penso na mãe de meu pai. sinto falta dela, e pela garganta e queixo e camisa, de maneira incrivelmente imbecil, viro tudo em um gole só e apago a luz da cozinha. reconheço os móveis no escuro, e ando pela sala sabendo que amanhã meus olhos não desviarão meus pés dos barulhos que acordam essa casa que dorme. satisfeito, encontro minha cama. deixei o café de lado. meu tempo agora é marcado por cubos de água congelados se dissolvendo, e rindo, penso na mãe de meu pai e na minha imbecilidade como se fosse ontem. digo, como se fosse há menos de uma forma de gelo atrás.

fup - jim dodge

sábado, 25 de maio de 2013

árvores de outono

essa é a história de um homem. apenas uma história da vida de um homem que sempre é a vida de tantos outros homens, de tantas sempre outras histórias. conto-a pelos meus olhos. ainda não sei se por ser também minha, ou por ser grande parte daquilo que agora percebo.

“éramos os donas da rua”, e a fala excitada, os olhos já voltados às memórias difusas e recém desanuviadas da neblina do tempo, iam me cruzando pernas e braços, automaticamente alinhando postura e atenção, exercendo sobre o curioso a força que a sinceridade impõe. contava que acreditava ter cerca de onze anos, numa segurança temporal que tornava a história possível apenas nesse espaço de infância. deixou claro que havia uma certa inocência. diferente da que encontra em seus sobrinhos, da que vê na criança de mão dada à mãe por essas ruas sem movimento que dormem o Água Verde. eram todos donos de seus passos.

imagino cerca de vinte meninos, cada um com o mapa do bairro impresso na sola dos pés descalços. cada árvore escalada era responsável direta por tornar cada um mais corajoso. talvez houvesse futebol, qualquer outra brincadeira exclusiva à inocentes. acredito que não importa. sei que ele não soube me dizer quanto tempo duraram esses dias de meninice pura, muito menos fez questão de entrar em maiores detalhes. soube apenas me dizer que, de repente, houve uma ruptura. tentou explicar que a sensação daquela ingenuidade era como ouvir durante toda vida uma eterna música baixa, reparada só de quando em vez. ‘’a gente não sabia de que jeito éramos’’, e à criança nunca coube entender essa simplicidade. e ficou quieto e só pode me dizer que de um jeito extraordinário, pra cada um dos cerca de vinte meninos, o volume do que era detalhe foi levado ao máximo de uma só vez, e a vida passou a ser alta demais pra cerca de vinte pares de olhos que ainda não conseguiam entender o que era aquele som alto. como que por uma sincronia impossível, todos já bebiam demais, usavam drogas demais. porém, ainda crianças, ainda resplandecentes de uma infantilidade única. só lhe haviam aumentado o volume, e o som alto de tudo que era cinza na vida só podia incomodar o que ouvidos de criança não foram feitos pra entender.

cada rua era disputada com os meninos de onze anos do bairro vizinho. “a inocência é que era incrível”, e sinto que a partir de hoje, qualquer meio fio decorado de meninos sentados vai me lembrar essa rapaziada, descobrindo sensações, plenos e sinceros em panos com cola, em olhos e punhos machucados. não importava a ordem, não importava nada que não uma vida no ritmo dessa música que de repente ficou tão alta. eram crianças de onze anos, sem ser necessária maior precisão, rindo de um jeito que só a infância ensina, não entendendo de um jeito que só a infância embeleza.

acredito que durante toda essa infância acabou sendo verão. as ruas ficavam mais alaranjadas nos fins de tarde. talvez só nessa hora o volume baixasse, e cada um dobrava suas esquinas, entrava em casa e virava filho pra toda mãe que ainda reclama da roupa suja, que sente a casa inundada de uma inocência que sempre escorrega das mãos de mãe de um jeito inevitável. eram mães e filhos, e as coisas pareciam realmente certas demais.

não tinham dinheiro algum. nas mercearias, a inocência de seus onze anos era colocada em dúvida. tinham bolsos revistados, passos empurrados por olhares vigilantes. de qualquer forma, juntavam todas suas moedas ganhas de pais cansados, trocos esquecidos em bermudas do pão de todo fim de tarde alaranjado. talvez um ou dois dos cerca de vinte meninos já recebessem salários escassos, oriundos das primeiras vezes em que perdiam o tempo da brincadeira ensacolando compras, usando uniformes que deixam as crianças sempre tão iguais, inevitavelmente com a mesma cara de outono. ‘’cada um ajudava com o que podia’’, e chegava sexta-feira e iam até o centro somando moedas, desamassando notas embolotadas. o catalisador do fim de semana dependia da soma. foram raras as sextas e sábados e domingos de cocaína, de ritmo infinito, de mãos e corpos inquietos à procura de qualquer que fosse a coisa, como se sentissem o fim de qualquer tempo puro, como se fossem uma árvore à mercê do outono que sempre chega. na maior parte das vezes o dinheiro era pouco. usavam da criatividade, e recombinando remédios em copos de vinho, voltavam pra casa sempre de dentes tingidos, de inocência sempre alvejada do volume alto da vida.

penso na naturalidade com que tudo acontecia, de como foram inconscientes os passos que saíram puros de uma infância de onze anos e rumaram tortos à uma vida desmistificada, que nos faz sentir cada vez mais áspera a nossa árvore de memórias, cada vez com um punhado menor de lembranças puras penduradas em nossos galhos assimétricos. percebi a inconsciência do tempo para esses meninos como se fosse o verão de suas vidas, numa existência engessada em quatro estações, sempre ordenada em vida, morte, gestação e nascimento, ficando à cabo do acaso a responsabilidade de ter situado vinte meninos em uma mesma infância de verão eterno.

quando o outono chegou, não importava tanto o frio. o vazio era dos janeiros e fevereiros quentes que já não pareciam tão iluminados, tão de tardes alaranjadas, de raios de sol encaracolados. era tudo como se o sol tivesse olhos castanhos que ofuscassem numa leveza de carinho, marcando na retina um sorriso que fazia sorrir. faltava alguma coisa. os meios fios cada vez mais vazios, onde os corajosos que subiam as árvores mais altas da rua faziam tanta falta. quando o verão acabou, quando a sensação de ter onze anos já não era tão clara, veio um outono de drogas pesadas, com roubos que não deram certo, com uma sede de coragem nunca antes vista. os quase vinte já não eram mais tantos assim, e a covardia ficou parecendo necessária demais pra seguir o caminho de árvores secas, num outono rígido demais dentro do peito de cada um dos que sobravam vivos e covardes, livres e parados. por uma última vez todos os quase vinte meninos andaram juntos pela rua principal, dobrando esquinas aleatoriamente, tendo consciência que tiveram onze anos por tempo demais, e que chegar em casa já não transbordaria o peito da mãe da inocência de outrora, em um tempo onde as coisas eram certas demais pra não serem eternas.

e alguns foram presos, e outros morreram, e outros ainda usaram drogas demais e nunca conseguiram trazer de volta o olhar pra coisa alguma. eram os mais corajosos da lista antes organizada na destreza de subir em árvores. e os outros só podiam esquecer disso tudo, aprender enfim à entender todo esse som alto, à levantar dos meio fios e deixar os onze anos pra trás.

“não sei como fui virar professor”. sinto que ele poderia ter sido qualquer coisa. ele tem olhos de quem pode ser qualquer coisa. pode ser aquele a ser sempre o último a sair do bar. pode precisar ouvir o barulho das portas de aço, sentir cadeiras e mesas vazias pra finalmente se sentir em casa, sentir que o dia realmente valeu a pena. de fato, faz isso quase todas as noites. eu bato as portas, levanto cadeiras, e de mãos cheirando à chaves entro pela porta dos fundos sem precisar sequer levantar os olhos. meus ouvidos sempre dilatados no fim da noite. sei que o canto dele está sendo dele, que os olhos podem, mais do que nunca, ser qualquer coisa que quiserem. é como se de seu copo e garrafa emanasse uma mágica qualquer.

nessa noite sentei-me a sua mesa na vontade de dizer que o dia foi puxado, que ser garçom deve ter sido mais fácil em alguma outra época. sentei-me na esperança de ouvir qualquer coisa que não um pedido por um copo, por um cardápio, uma foto eternizando o vazio que cada um leva em forma de sorriso amarelo, cada um com sua árvore presa em um outono de pra sempre. sentei-me. tinha ainda as pernas descruzadas, braços apoiados atrás da minha cabeça sempre calma demais. a história dele ainda não era a minha, não era nada daquilo do que percebo. era como se, até aquele último suspiro cansado que soltei, eu ainda tivesse onze anos em um verão eterno de minha infância.

foi um sábado. diga-se de passagem que foi sábado, e diferente dos outros dias, ele havia chego cedo no bar. salão de festas fica no fundo, e naquele sábado, diga-se de passagem que era tudo diferente demais. conversas poucas dos primeiros que chegam, e eu organizava mesas e alinhava cadeiras achando o volume alto demais. parecia que a cerveja lá dentro durava mais tempo. que as risadas eram mais duras. que quaisquer que fossem as coisas. por mais sequenciais que obrigatoriamente fossem. paravam em pontos finais. de repente. eram sorrisos chagados, rostos marcados de alguma coisa pesada, que marcavam também os olhos dele, que sempre puderam ser qualquer coisa, e que ali existiam apenas estáticos, mudos como se ser qualquer coisa não tivesse nunca ter sido opção. e foi só depois disso que o dia acabou, que eu me senti cansado demais e cheio de cheiro de chave na mão. acho que, até ali, eu ainda tinha olhos de quem tem onze anos em um verão eterno.

e me contou, deixou as impressões de todo seu tempo. fez tudo sem me olhar, de copo na mão, de gestos estáticos. minhas pernas e braços já haviam sido cruzados pelo tom sincero. jogou os olhos nos meus, e eu tinha vontade de falar que eu ficava ali dentro à noite toda, e que meus tímpanos ficavam meio que abertos demais por um certo tempo. queria que ele falasse um pouco mais baixo, que esperasse eu me levantar e baixar um pouco esse volume que até agora tem me incomodado tanto, tanto. ‘’eu sou um cara bom’’, e realmente ele é um cara bom, e todas as pessoas que não estão mais no bar deveriam estar ali, compartilhando o volume extraordinário que as lembranças ganhavam na voz dele. e lhe sobra perceber e me contar que todo mundo que eu vi hoje, que me marcou os tímpanos naquela sensação pontual de chaga, de uma covardia compreendida, era quem sobrou dos cerca de vinte meninos que escondiam meios fios enquanto sentados e sorridentes. ‘’hoje foi um desses encontros de depois de muito tempo’’, e ele me diz de novo que se acha um cara bom, e que nunca entendeu por que diabos sempre teve tanta raiva dentro de si, por que não conseguia só entender que as coisas eram daquele jeito, que a revolta não sabia levar pra lugar nenhum. ‘’e tinha muita gente ali que tinha acabado de sair da cadeia, que cata lata pra poder continuar’’, e eu pensando que o outono doía mais por um dia já ter sido verão, e estar vivo não é motivo de tanto orgulho assim, já que nunca havia visto um salão de tantos olhares baixos, nunca havia visto um peito meu tão de verdade. e “a gente fazia muita merda”, ele me dizia, ”e hoje eu passei a tarde com toda essa galera que cresceu comigo, com toda essa galera que conseguiu ficar viva, por que a gente usava droga demais, e todo mundo que sobrou ali dentro sabe que é covarde, que pode ter acabado de sair da cadeia, como de fato aconteceu com dois ou três, mas que é covarde. quem escalava aquelas nossas árvores mais difíceis, quem sempre dividia a liderança da lista de coragem, esses sim já morreram, já não trazem atenção no olhar”. hoje eu senti que todo mundo ali sentia um pouco de vergonha de estar ali, que evitava comentar de quem tinha morrido por que não queria se ver como covarde, nessa vida que estar vivo não é mérito pra ninguém. “e sabe?, eu entendi uma coisa hoje”, e se eu que conseguir entender aquilo tudo era o cruzava mais meus braços, apertava mais minhas pernas. “eu sou um cara bom, e eu percebi que eu tenho uma coisa muito ruim aqui dentro, que acha o sistema uma bosta, que acredita que tá tudo errado, que o mundo tá errado. hoje eu entendi. é por causa deles, sabe? eu carrego aqui dentro todos esses caras que não tão mais com a gente, que me ensinaram a viver, que não foram covardes. hoje eu entendi” e ele chorou, e eu sorri de um riso que veio numa contração involuntária do meu rosto, e a gente se olhou, explorado e explorado, olho no olho, minha mão no ombro dele, e era carta demais em cima da mesa, era a vida dele não conseguindo mais não ser parte da minha, e a gente ficou mais puro, mais criança, mesmo tento desvendado essa magia toda que a gente vai colocando nos nossos dias cinzas.

e minhas pernas formigaram, e meus braços, pela primeira vez, despencaram do meu colo até o topo de minha cabeça que já não parecia ser assim desse jeito tão leve demais. a verdade é que tudo sempre esteve aqui. dá pra reconhecer as sensações. é como eu criança ganhando livros desde cedo, passando os olhos cedo demais pelas realidades que só conseguia sentir, ouvir num volume alto que não me dizia muita coisa. o meu herói acordava sempre de pijama cinza, escovava os dentes sem cor na pia que refletia o céu nublado pela única janela do apartamento. e eu não entendia que os livros de crônicas eram histórias separadas, e eu só podia acreditar sem entender que acordar num apartamento cinza era uma tarefa difícil, coisa de homem de coragem. toda criança quer ser seu herói.

e eu fui eternamente acordando e escovando os dentes e tomando café, de maneira inocente, de maneira infantil. meu cinza de criança sendo cimentado. eu em uma infância de onze anos em um verão que sempre foi cinza em minha árvore nunca antes percebida. até que o outono toma conta de toda a cabeça, seja a cabeça o solo onde todo homem tem sua árvore de lembranças plantadas. o frio na barriga agora faz sentido, longe de ser uma legião de borboletas que tão bem imitam anjos, longe de ser qualquer coisa que não uma árvore em um outono que parece ter começado justo na hora que meus braços despencaram até minha cabeça.

um dia, vem o estalo. não é a questão de ser o que um dia moldamos, essa continuidade organizada, caminho guiado por passos que desbravam corredores de ônibus logo pela manhã na busca de bancos livres, de assentos com vista preferencial para os pontos que cada dia vão ficando mais pra trás. é, de fato, se ver sendo o que nunca tínhamos percebido ser, e que de fato fomos, e que de fato agora explica todo esse conjunto de fatos que cruzou meus braços e pernas, que colidiu os olhos daquele que ainda agora pode ser qualquer coisa, com meus olhos que agora entendem o caminho de meus pés, entendem meu herói de crônicas cinzas.

levantei. lembrei de baixar os braços pra pegar a chave do carro, colocar a camisa. fazia frio. a porta dos fundos precisa ser aberta sempre com as duas mãos. empurra, gira a maçaneta. frio. o portão é de ferro e ferrugem, e deixa minha mão com cheiro de chave. meu último cigarro sempre tem cheiro de chave e fumaça. entro no carro. dou a partida e arranco. arranco de mim toda ideia de verão, toda ideia de ter onze anos. naquela noite, que de passagem acabou sendo sábado, olhei pra minha árvore com os olhos de um homem que me ensinou a ter olhos de quem pode ser qualquer coisa.

naquele sábado começou meu outono.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

vamos nos jogar onde já caímos

só te agradeço, meu irmão. fica na boa.

paulinho moska - tudo novo de novo