e por ter como espelho os próprios pensamentos, fazia do silêncio seu reflexo invisível. andar de olhos baixos como quem procura seu relance em janela, certeza provisória de um enquanto onde tudo está bem até o próximo vidro espelhado em azul, em nós. calado confirmava algum tanto por ainda existir, confrontava a imagem que lhe era com o desenho que julgava à ele ser feita. por só saber reparar, aprendeu a presença do que não existe. tudo pela possibilidade do fantástico. era durante as semanas em que conversava e se fazia ser visto que deixava de existir, passando transparente aos retratos avessos que qualquer superfície não podia, pelo momento de sua extensão, inverter na fidelidade contrária do refletido. talvez por isso tenha sido o único numa vida intercalada entre a presença física e a impossibilidade de ser: era, ou literalmente não o podia.
nos momentos em que se ausentava de si, vivia quaisquer que fossem os outros numa fé cega de fim próximo. moldava-se à imagem de quem devotava, numa esperança inconsciente de se ver outro no vidro do carro que passa, que nos leva embora de quem somos, de quem, no caso dele, tornava próprio. de se ver outro por simplesmente se ver. não sei. seus pensamentos invisíveis tomavam posse em sinais sempre diferentes. a verdade é que esquecia das delicadezas que lhe davam de volta ao que era, e na falta do que comparar, acreditava na impossibilidade de evitar os caminhos destinados à transparência de se ser. uma boa memória seria como fórmulas de mãe, de resultados infalíveis aos banhos quentes seguidos de sereno, à falta de sabor que a pressa deixa ou pela comida ou pela boca. nunca soube. nem ele, nem eu.
por ser quem é às vezes torná-lo outro, comportava todas as opiniões, todas as maneiras de segurar a manga da camiseta comprida quando sobrepunha algum suéter, alguma camisa. era a infinidade de tudo que devotava por não saber ter reflexo, por precisar ser quando não se era no propósito simples da existência. como ser vitrine do outro. tinha a predisposição do alfaiate quando encontrava com alguém, e conseguia se fazer presente enquanto dedicava toda a atenção em olhos de fita métrica, mensurando largura de ombros, fissuras deixadas pelo riso. a ideia leve do sorriso sempre se desfazia quando notava as marcas fundas que a alegria talhava ao rosto. por fim, tinha as medidas na cabeça pra incorporar atitudes alheias como um traje feito sob medida, mãos de artista, dom hoje deixado pra trás pela facilidade em se enquadrar tudo em moldes prontos. ser o molde pronto de outras pessoas era tudo que podia, já que nem o fantástico conseguiu vestir sua transparência. ou que não tinha. também não sei.
"por assim ser" lhe ser definição impossível, fica por assim que não só aos espelhos se faz invisível, mas a todos que o percebem apenas quando é outra pessoa. à mim próprio não é dado o direito de dizer que o conheço, já que só o sou quando é ausente desses pensamentos que lhe tiram de mim, que lhe tiram dele próprio e que não me deixam vestígios, iguais apenas na capacidade de serem esquecidos assim que acordo. é como se eu fosse outro por não poder ser refletido em mim, e nesse instante de consciência fico imerso em seu próprio silêncio meu de imagem invertida. acabo por me ser apenas quando não posso mais por assim, quando os pensamentos ainda não tomam conta. por de repente parecer despertar em baixo d’água, caminha de olhos baixos refletindo a incapacidade de ser ele próprio, onde só posso ser quem sou quando ausentes de nós.
"mas às vezes ainda espero você chegar"
carlos posada - província
quarta-feira, 19 de junho de 2013
retrato
dona Sara caminha combinando sobretudo e guarda chuva em um
azul escuro. foge-me a tonalidade. sua filha passa por mim pouco antes, e
tem dificuldade em abrir sua sombrinha cor de rosa. mochila nas costas,
desprotegida de pingos desordenados. param ao meu lado na porta do bloco.
comentam que precisam de uma nova sombrinha. poucas palavras. nem se despedem.
poucas palavras são sinônimos de afinidade. todos os dias, pouco antes do meio
dia, a filha de dona Sara caminha trôpega do nosso bloco até à condução da
escola. todos os dias, desde os dias que consigo me lembrar. tem os olhos
perdidos assim como os de João que é Francisco. vive em seu mundo particular,
dividido em poucas afinidades com a solidão de dona Sara. filha dobra à
esquerda, mãe à direita. fico embaixo da marquise, de pé, encostado à porta, me
abrigando dos pingos que saem estilhaçados, desordenados que caem no chão, na
mala desabrigada da filha de dona Sara.
subo as escadas e volto pra casa. vinte e oito degraus. o
número de sorte de meu pai é vinte e sete. tudo pra ele é sempre perto, quase
lá. penso se, assim como é difícil andar na chuva, há alguma dificuldade no voo
dos pássaros. caminham de asas ainda assim, e voar ainda parece fácil, mesmo
sob as gotas que logo nos tomarão o corpo, encharcando calçados pra encharcar
meias.
abro a porta de casa e não tenho nenhuma conclusão. vai a
dona Sara à direita e sua filha à esquerda. caminham pra logo voltar, começar
tudo amanhã, pouco antes do meio dia. a chuva não muda muito as coisas. percebo
pelos pássaros, de galho em galho sacudindo as penas, que em dias de sol não
devem ser tão sacudidas assim. fico pensando qual é o número de sorte da dona
Sara. são quarenta nove degraus até seu último andar. todos os dias combinando
roupas, na desatenção da afinidade não notando os passos trôpegos de sua filha.
cada uma a outra. trocam sempre poucas palavras comigo. estar parado vendo-as
sair pouco antes do meio dia é detalhe na continuidade de seus dias, e por
afinidade e meus poucos olhares, sinto-me elas. cada eu elas, e cada elas uma a
outra, pontos da mesma linha.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
sete luas
acho que nunca fui de ter preferências. assumo em minhas
mãos e traços as marcas de meus vícios, de minhas manias. porém, controlo-as
sem maiores exigências de tempo ou espaço. creio ter herdado esse jeito de meu
pai. ao contrário dele, que satisfez seus desejos à mercê de uma vida que não
lhe teve como prioridade, percebo meus passos cômodos desorientados de qualquer
que seja a responsabilidade, e talvez por conta disso, ache em um sem fim de
gostos e fumaças a saciedade de uma sede incerta. é comum encontrar em armários
e gavetas algumas reminiscências minhas em formas diversas. cachimbos, cuias,
canetas, isqueiros, peças de quebra cabeça: um sem fim de objetos que um dia
foram destinados à ser parte franca do que sou. passaram. faço força por entre
as estradas de dias ensolarados, que tão bem conseguem ilustrar os caminhos de nossas
memórias, e me perco sem querer num fim de curvas que levam a qualquer que seja
minha saudade, exceto às intenções que um dia atribuí nessa minha miscelânea
fracassada. saio do banho e reparo um rosto marcado de expressões tão bem
ensaiadas, tão bem esquecidas. à medida que o espelho se desvencilha do vapor,
redescubro alguma tatuagem sem ter ao certo o significado das cores e das borboletas.
“você sempre vai poder contar uma
história diferente”. acho que quem disse foi o tatuador. as coisas só tem o
sentido que o tempo deixa por onde passa. paciência.
reparo que, há algumas semanas, tenho impregnado minhas
tardes de café. tudo meio acre. tanto o cheiro da casa como o gosto dos dentes.
faço minhas coisas tendo substituído minutos por xícaras, e mantenho assim meus
compromissos muito bem filtrados. o puro acaba nunca bastando. fervemos a água
e tiramos dela todo resquício de transparência. precisamos que seja um pouco
mais forte, um pouco mais quente. pensei que dessa vez daria certo, que me
tornaria um tomador inveterado de café. estava usando sempre a mesma caneca, já
acertava a quantidade de pó e o pouco de leite pra enganar o gosto, ganhar um
aspecto encorpado mesmo que não saiba ao certo o que isso significasse. só por
algumas semanas. devo ter cansado. hoje a caneca de meu pai não conseguiu
bastar. peguei a de meu irmão. raras são as coisas dele que não me deixam
completo. de ambos. homens de minha vida. bebo um gole e acho graça pensar que
sempre me chamam pelo nome dele ao telefone. justificam a sentença em uma
semelhança de voz. fico orgulhoso. sorrio e seguro sua caneca. sou meu irmão.
posso atender o telefone e confirmar que quem fala é ele, e que claro, no
horário combinado, tudo bem, pode deixar. o telefone não toca.
agora a noite tive vontade de fumar um cigarro. acabou. acendi
a luz da cozinha e procurei de mãos no bolso. achei chá. fazia tempo que não
tomava chá. pego a caixa, e com o fósforo quase incandescente ainda impregnando
desenhos e cheiros, vejo a proporção de um sachê pra 200 ml de água fervendo.
confirmo se a chaleira tem pelo menos o triplo da água que preciso. nunca sei
quanto dela evapora, e a ideia de deixar a xícara meio vazia por falta de água
me assusta. a casa toda está apagada, e depois de muitos anos, hoje faltou luz
praticamente o dia todo. consigo diferenciar os móveis da sala com certa
facilidade, mesmo que não seja noite de lua, e que as cortinas estejam bem
fechadas. olhos acostumados. hoje ouvi meus pais conversando enquanto faziam a
janta. sempre fazem isso, e eu nunca os tinha ouvido conversando ou muito menos
fazendo a janta. meu pai e minha mãe à sombra de uma vela, ao som de alguma
cebola ou alho grudando e cheirando a casa de infância. meu irmão dorme e não
sabe quanta falta faz. percebo minha coluna reta e o olhar fixo em um parágrafo
que não acontece, ainda que tente. fica no papel. acho que emprego toda minha
capacidade de abstração em moldar minha figura com a de meu irmão, tanto na
coluna, quanto em seus olhos fixos que nunca souberam abstrair. sinto falta
dele.
seria mais fácil se tivéssemos aquelas chaleiras que
assoviam. a nossa treme, e às vezes muito antes de começar a evaporar a
quantidade de água que pode fazer falta na minha garrafa de café. digo, em
minha xícara de chá. fico em dúvida, e é comum pegar uma faca e espiar pela
tampa duas ou três vezes se já posso apagar o fogo. preciso pegar uma faca por
que o puxador da tampa sumiu. de qualquer forma, espero e deixo as esperanças
do café pra trás. talvez o chá. uma xícara por noite. quem sabe durante um
filme. o tempo vai afinar o paladar. vou entender que a água precisa ser
aquecida, e não fervida. aromas e sabores elucidarão o entendimento inerente
necessário para a compreensão das cerimônias de chá orientais. isso. chá. fazia
tempo que não tomava chá. na casa da mãe de meu pai foi onde eu devo ter feito
meu último chá. ela tinha umas coisas engraçadas que eu provavelmente nunca
saberei o nome. eram casinhas ou corações de metal com um infinidade de furos,
e ela me ensinava a abri-los com a técnica que criança nenhuma pode aprender
por ser criança e desengonçada, e enchia de algum chá que por vezes eu gostava,
por vezes não. o chá dela não vinha naqueles pacotinhos de papel, e agora
percebo que parecia muito com o fumo de cachimbo que tentei tornar parte minha.
esse fumo deve estar por alguma gaveta. juro que a primeira aspirada que dou
depois de pensar onde diabos foi parar esse fumo é sempre carregada de seu
cheiro. já abri vários armários e achei outras tantas reminiscências, mas nunca
esse fumo. é como se estivesse em uma infinidade de lugares, inclusive dentro dessas
casas e corações de uma porção de furos que tinham um encaixe minúsculo que os cerrava
com o chá que lembra meu fumo, e assim que imersos, de dentro deles emanava uma
essência de cor sempre diferente, que apaixonava a água fervida e tornava o
antes puro em chá. é claro que eu não pensava assim. só colocava um pouco menos
de água do que a mãe de meu pai recomendava, e assim que tinha autorização, ia
dissolvendo, uma a uma, o máximo de pedras de gelo que conseguia. misturava e
misturava até que fosse possível virar tudo pela garganta, queixo e camisa sem
me queimar. hoje percebo toda a imbecilidade de criança, movida por impulso e
não pensamento, ainda que esses dois pareçam sinônimos.
tirando a aparência e a certeza na confusão que tenho por
entre as curvas de minha estrada, não vejo relação alguma entre os
chás da mãe de meu pai e do meu fumo perdido. fica pra trás um, perco outro, e
acredito ser essa a ordem das coisas.
tenho as mãos no bolso, e a tremedeira da chaleira ameaça o
sono da nossa casa que dorme. apago o fogo sem confirmar se a água estava fervendo.
tenho certeza que não. esperar mais uma ou duas xícaras de café seria o ideal. é mesmo,
parei com o café. preciso readequar meus padrões de tempo. na embalagem dizia
de três a cinco minutos, conforme o gosto. deveria ter a opção “quatro minutos se você tem um gosto
passível de qualquer satisfação”. eu queria um cigarro, mas acabou. decido
por quatro minutos: metade do tempo que eu normalmente levo pra fumar um bom
cigarro, mesmo que às vezes não seja tão bom assim. tem esses cigarros de menta,
cravo, e mais uma porção de essências que prometem e não conseguem adocicar
nada. prefiro cigarro sem sabor. prefiro chá mate. rio por parecer enxergar uma
ponta de preferência. era uma da manhã quando afoguei os dois saquinhos de
papel na xícara. quatro minutos. mexo pra dissolver o açúcar e penso em cubos
de gelo. imbecil. essa caneca de meu irmão tem a borda de metal. passo o dedo
por precaução. insuportavelmente quente. experimento. pareço fumar a ponta
acesa de um cigarro. nem um pouco prático, mas talvez comece a satisfazer mais
de uma vontade com apenas um gesto. preciso esperar. quem sabe um cigarro.
acabou. imbecil. abro o freezer, e a gaveta do gelo ainda é cheia de resquícios
esquecidos do último verão. olho os cubos rodarem e sumirem, o próximo sempre
mais devagar que o anterior. por sorte a água evaporou da chaleira e a caneca
de meu irmão não ficou tão cheia. já devo ter colocado umas quatro pedras e
visto-as sumir em sua dança circular. passo o dedo na borda da xícara de meu
irmão por pura precaução, e penso na mãe de meu pai. sinto falta dela, e pela
garganta e queixo e camisa, de maneira incrivelmente imbecil, viro tudo em um
gole só e apago a luz da cozinha. reconheço os móveis no escuro, e ando pela
sala sabendo que amanhã meus olhos não desviarão meus pés dos barulhos que
acordam essa casa que dorme. satisfeito, encontro minha cama. deixei o café de
lado. meu tempo agora é marcado por cubos de água congelados se dissolvendo, e
rindo, penso na mãe de meu pai e na minha imbecilidade como se fosse ontem.
digo, como se fosse há menos de uma forma de gelo atrás.
fup - jim dodge
fup - jim dodge
sábado, 25 de maio de 2013
árvores de outono
essa é a história de um homem. apenas uma história da vida de um homem que sempre é a vida de tantos outros homens, de tantas sempre outras histórias. conto-a pelos meus olhos. ainda não sei se por ser também minha, ou por ser grande parte daquilo que agora percebo.
“éramos os donas da rua”, e a fala excitada, os olhos já voltados às memórias difusas e recém desanuviadas da neblina do tempo, iam me cruzando pernas e braços, automaticamente alinhando postura e atenção, exercendo sobre o curioso a força que a sinceridade impõe. contava que acreditava ter cerca de onze anos, numa segurança temporal que tornava a história possível apenas nesse espaço de infância. deixou claro que havia uma certa inocência. diferente da que encontra em seus sobrinhos, da que vê na criança de mão dada à mãe por essas ruas sem movimento que dormem o Água Verde. eram todos donos de seus passos.
imagino cerca de vinte meninos, cada um com o mapa do bairro impresso na sola dos pés descalços. cada árvore escalada era responsável direta por tornar cada um mais corajoso. talvez houvesse futebol, qualquer outra brincadeira exclusiva à inocentes. acredito que não importa. sei que ele não soube me dizer quanto tempo duraram esses dias de meninice pura, muito menos fez questão de entrar em maiores detalhes. soube apenas me dizer que, de repente, houve uma ruptura. tentou explicar que a sensação daquela ingenuidade era como ouvir durante toda vida uma eterna música baixa, reparada só de quando em vez. ‘’a gente não sabia de que jeito éramos’’, e à criança nunca coube entender essa simplicidade. e ficou quieto e só pode me dizer que de um jeito extraordinário, pra cada um dos cerca de vinte meninos, o volume do que era detalhe foi levado ao máximo de uma só vez, e a vida passou a ser alta demais pra cerca de vinte pares de olhos que ainda não conseguiam entender o que era aquele som alto. como que por uma sincronia impossível, todos já bebiam demais, usavam drogas demais. porém, ainda crianças, ainda resplandecentes de uma infantilidade única. só lhe haviam aumentado o volume, e o som alto de tudo que era cinza na vida só podia incomodar o que ouvidos de criança não foram feitos pra entender.
cada rua era disputada com os meninos de onze anos do bairro vizinho. “a inocência é que era incrível”, e sinto que a partir de hoje, qualquer meio fio decorado de meninos sentados vai me lembrar essa rapaziada, descobrindo sensações, plenos e sinceros em panos com cola, em olhos e punhos machucados. não importava a ordem, não importava nada que não uma vida no ritmo dessa música que de repente ficou tão alta. eram crianças de onze anos, sem ser necessária maior precisão, rindo de um jeito que só a infância ensina, não entendendo de um jeito que só a infância embeleza.
acredito que durante toda essa infância acabou sendo verão. as ruas ficavam mais alaranjadas nos fins de tarde. talvez só nessa hora o volume baixasse, e cada um dobrava suas esquinas, entrava em casa e virava filho pra toda mãe que ainda reclama da roupa suja, que sente a casa inundada de uma inocência que sempre escorrega das mãos de mãe de um jeito inevitável. eram mães e filhos, e as coisas pareciam realmente certas demais.
não tinham dinheiro algum. nas mercearias, a inocência de seus onze anos era colocada em dúvida. tinham bolsos revistados, passos empurrados por olhares vigilantes. de qualquer forma, juntavam todas suas moedas ganhas de pais cansados, trocos esquecidos em bermudas do pão de todo fim de tarde alaranjado. talvez um ou dois dos cerca de vinte meninos já recebessem salários escassos, oriundos das primeiras vezes em que perdiam o tempo da brincadeira ensacolando compras, usando uniformes que deixam as crianças sempre tão iguais, inevitavelmente com a mesma cara de outono. ‘’cada um ajudava com o que podia’’, e chegava sexta-feira e iam até o centro somando moedas, desamassando notas embolotadas. o catalisador do fim de semana dependia da soma. foram raras as sextas e sábados e domingos de cocaína, de ritmo infinito, de mãos e corpos inquietos à procura de qualquer que fosse a coisa, como se sentissem o fim de qualquer tempo puro, como se fossem uma árvore à mercê do outono que sempre chega. na maior parte das vezes o dinheiro era pouco. usavam da criatividade, e recombinando remédios em copos de vinho, voltavam pra casa sempre de dentes tingidos, de inocência sempre alvejada do volume alto da vida.
penso na naturalidade com que tudo acontecia, de como foram inconscientes os passos que saíram puros de uma infância de onze anos e rumaram tortos à uma vida desmistificada, que nos faz sentir cada vez mais áspera a nossa árvore de memórias, cada vez com um punhado menor de lembranças puras penduradas em nossos galhos assimétricos. percebi a inconsciência do tempo para esses meninos como se fosse o verão de suas vidas, numa existência engessada em quatro estações, sempre ordenada em vida, morte, gestação e nascimento, ficando à cabo do acaso a responsabilidade de ter situado vinte meninos em uma mesma infância de verão eterno.
quando o outono chegou, não importava tanto o frio. o vazio era dos janeiros e fevereiros quentes que já não pareciam tão iluminados, tão de tardes alaranjadas, de raios de sol encaracolados. era tudo como se o sol tivesse olhos castanhos que ofuscassem numa leveza de carinho, marcando na retina um sorriso que fazia sorrir. faltava alguma coisa. os meios fios cada vez mais vazios, onde os corajosos que subiam as árvores mais altas da rua faziam tanta falta. quando o verão acabou, quando a sensação de ter onze anos já não era tão clara, veio um outono de drogas pesadas, com roubos que não deram certo, com uma sede de coragem nunca antes vista. os quase vinte já não eram mais tantos assim, e a covardia ficou parecendo necessária demais pra seguir o caminho de árvores secas, num outono rígido demais dentro do peito de cada um dos que sobravam vivos e covardes, livres e parados. por uma última vez todos os quase vinte meninos andaram juntos pela rua principal, dobrando esquinas aleatoriamente, tendo consciência que tiveram onze anos por tempo demais, e que chegar em casa já não transbordaria o peito da mãe da inocência de outrora, em um tempo onde as coisas eram certas demais pra não serem eternas.
e alguns foram presos, e outros morreram, e outros ainda usaram drogas demais e nunca conseguiram trazer de volta o olhar pra coisa alguma. eram os mais corajosos da lista antes organizada na destreza de subir em árvores. e os outros só podiam esquecer disso tudo, aprender enfim à entender todo esse som alto, à levantar dos meio fios e deixar os onze anos pra trás.
“não sei como fui virar professor”. sinto que ele poderia ter sido qualquer coisa. ele tem olhos de quem pode ser qualquer coisa. pode ser aquele a ser sempre o último a sair do bar. pode precisar ouvir o barulho das portas de aço, sentir cadeiras e mesas vazias pra finalmente se sentir em casa, sentir que o dia realmente valeu a pena. de fato, faz isso quase todas as noites. eu bato as portas, levanto cadeiras, e de mãos cheirando à chaves entro pela porta dos fundos sem precisar sequer levantar os olhos. meus ouvidos sempre dilatados no fim da noite. sei que o canto dele está sendo dele, que os olhos podem, mais do que nunca, ser qualquer coisa que quiserem. é como se de seu copo e garrafa emanasse uma mágica qualquer.
nessa noite sentei-me a sua mesa na vontade de dizer que o dia foi puxado, que ser garçom deve ter sido mais fácil em alguma outra época. sentei-me na esperança de ouvir qualquer coisa que não um pedido por um copo, por um cardápio, uma foto eternizando o vazio que cada um leva em forma de sorriso amarelo, cada um com sua árvore presa em um outono de pra sempre. sentei-me. tinha ainda as pernas descruzadas, braços apoiados atrás da minha cabeça sempre calma demais. a história dele ainda não era a minha, não era nada daquilo do que percebo. era como se, até aquele último suspiro cansado que soltei, eu ainda tivesse onze anos em um verão eterno de minha infância.
foi um sábado. diga-se de passagem que foi sábado, e diferente dos outros dias, ele havia chego cedo no bar. salão de festas fica no fundo, e naquele sábado, diga-se de passagem que era tudo diferente demais. conversas poucas dos primeiros que chegam, e eu organizava mesas e alinhava cadeiras achando o volume alto demais. parecia que a cerveja lá dentro durava mais tempo. que as risadas eram mais duras. que quaisquer que fossem as coisas. por mais sequenciais que obrigatoriamente fossem. paravam em pontos finais. de repente. eram sorrisos chagados, rostos marcados de alguma coisa pesada, que marcavam também os olhos dele, que sempre puderam ser qualquer coisa, e que ali existiam apenas estáticos, mudos como se ser qualquer coisa não tivesse nunca ter sido opção. e foi só depois disso que o dia acabou, que eu me senti cansado demais e cheio de cheiro de chave na mão. acho que, até ali, eu ainda tinha olhos de quem tem onze anos em um verão eterno.
e me contou, deixou as impressões de todo seu tempo. fez tudo sem me olhar, de copo na mão, de gestos estáticos. minhas pernas e braços já haviam sido cruzados pelo tom sincero. jogou os olhos nos meus, e eu tinha vontade de falar que eu ficava ali dentro à noite toda, e que meus tímpanos ficavam meio que abertos demais por um certo tempo. queria que ele falasse um pouco mais baixo, que esperasse eu me levantar e baixar um pouco esse volume que até agora tem me incomodado tanto, tanto. ‘’eu sou um cara bom’’, e realmente ele é um cara bom, e todas as pessoas que não estão mais no bar deveriam estar ali, compartilhando o volume extraordinário que as lembranças ganhavam na voz dele. e lhe sobra perceber e me contar que todo mundo que eu vi hoje, que me marcou os tímpanos naquela sensação pontual de chaga, de uma covardia compreendida, era quem sobrou dos cerca de vinte meninos que escondiam meios fios enquanto sentados e sorridentes. ‘’hoje foi um desses encontros de depois de muito tempo’’, e ele me diz de novo que se acha um cara bom, e que nunca entendeu por que diabos sempre teve tanta raiva dentro de si, por que não conseguia só entender que as coisas eram daquele jeito, que a revolta não sabia levar pra lugar nenhum. ‘’e tinha muita gente ali que tinha acabado de sair da cadeia, que cata lata pra poder continuar’’, e eu pensando que o outono doía mais por um dia já ter sido verão, e estar vivo não é motivo de tanto orgulho assim, já que nunca havia visto um salão de tantos olhares baixos, nunca havia visto um peito meu tão de verdade. e “a gente fazia muita merda”, ele me dizia, ”e hoje eu passei a tarde com toda essa galera que cresceu comigo, com toda essa galera que conseguiu ficar viva, por que a gente usava droga demais, e todo mundo que sobrou ali dentro sabe que é covarde, que pode ter acabado de sair da cadeia, como de fato aconteceu com dois ou três, mas que é covarde. quem escalava aquelas nossas árvores mais difíceis, quem sempre dividia a liderança da lista de coragem, esses sim já morreram, já não trazem atenção no olhar”. hoje eu senti que todo mundo ali sentia um pouco de vergonha de estar ali, que evitava comentar de quem tinha morrido por que não queria se ver como covarde, nessa vida que estar vivo não é mérito pra ninguém. “e sabe?, eu entendi uma coisa hoje”, e se eu que conseguir entender aquilo tudo era o cruzava mais meus braços, apertava mais minhas pernas. “eu sou um cara bom, e eu percebi que eu tenho uma coisa muito ruim aqui dentro, que acha o sistema uma bosta, que acredita que tá tudo errado, que o mundo tá errado. hoje eu entendi. é por causa deles, sabe? eu carrego aqui dentro todos esses caras que não tão mais com a gente, que me ensinaram a viver, que não foram covardes. hoje eu entendi” e ele chorou, e eu sorri de um riso que veio numa contração involuntária do meu rosto, e a gente se olhou, explorado e explorado, olho no olho, minha mão no ombro dele, e era carta demais em cima da mesa, era a vida dele não conseguindo mais não ser parte da minha, e a gente ficou mais puro, mais criança, mesmo tento desvendado essa magia toda que a gente vai colocando nos nossos dias cinzas.
e minhas pernas formigaram, e meus braços, pela primeira vez, despencaram do meu colo até o topo de minha cabeça que já não parecia ser assim desse jeito tão leve demais. a verdade é que tudo sempre esteve aqui. dá pra reconhecer as sensações. é como eu criança ganhando livros desde cedo, passando os olhos cedo demais pelas realidades que só conseguia sentir, ouvir num volume alto que não me dizia muita coisa. o meu herói acordava sempre de pijama cinza, escovava os dentes sem cor na pia que refletia o céu nublado pela única janela do apartamento. e eu não entendia que os livros de crônicas eram histórias separadas, e eu só podia acreditar sem entender que acordar num apartamento cinza era uma tarefa difícil, coisa de homem de coragem. toda criança quer ser seu herói.
e eu fui eternamente acordando e escovando os dentes e tomando café, de maneira inocente, de maneira infantil. meu cinza de criança sendo cimentado. eu em uma infância de onze anos em um verão que sempre foi cinza em minha árvore nunca antes percebida. até que o outono toma conta de toda a cabeça, seja a cabeça o solo onde todo homem tem sua árvore de lembranças plantadas. o frio na barriga agora faz sentido, longe de ser uma legião de borboletas que tão bem imitam anjos, longe de ser qualquer coisa que não uma árvore em um outono que parece ter começado justo na hora que meus braços despencaram até minha cabeça.
um dia, vem o estalo. não é a questão de ser o que um dia moldamos, essa continuidade organizada, caminho guiado por passos que desbravam corredores de ônibus logo pela manhã na busca de bancos livres, de assentos com vista preferencial para os pontos que cada dia vão ficando mais pra trás. é, de fato, se ver sendo o que nunca tínhamos percebido ser, e que de fato fomos, e que de fato agora explica todo esse conjunto de fatos que cruzou meus braços e pernas, que colidiu os olhos daquele que ainda agora pode ser qualquer coisa, com meus olhos que agora entendem o caminho de meus pés, entendem meu herói de crônicas cinzas.
levantei. lembrei de baixar os braços pra pegar a chave do carro, colocar a camisa. fazia frio. a porta dos fundos precisa ser aberta sempre com as duas mãos. empurra, gira a maçaneta. frio. o portão é de ferro e ferrugem, e deixa minha mão com cheiro de chave. meu último cigarro sempre tem cheiro de chave e fumaça. entro no carro. dou a partida e arranco. arranco de mim toda ideia de verão, toda ideia de ter onze anos. naquela noite, que de passagem acabou sendo sábado, olhei pra minha árvore com os olhos de um homem que me ensinou a ter olhos de quem pode ser qualquer coisa.
naquele sábado começou meu outono.
“éramos os donas da rua”, e a fala excitada, os olhos já voltados às memórias difusas e recém desanuviadas da neblina do tempo, iam me cruzando pernas e braços, automaticamente alinhando postura e atenção, exercendo sobre o curioso a força que a sinceridade impõe. contava que acreditava ter cerca de onze anos, numa segurança temporal que tornava a história possível apenas nesse espaço de infância. deixou claro que havia uma certa inocência. diferente da que encontra em seus sobrinhos, da que vê na criança de mão dada à mãe por essas ruas sem movimento que dormem o Água Verde. eram todos donos de seus passos.
imagino cerca de vinte meninos, cada um com o mapa do bairro impresso na sola dos pés descalços. cada árvore escalada era responsável direta por tornar cada um mais corajoso. talvez houvesse futebol, qualquer outra brincadeira exclusiva à inocentes. acredito que não importa. sei que ele não soube me dizer quanto tempo duraram esses dias de meninice pura, muito menos fez questão de entrar em maiores detalhes. soube apenas me dizer que, de repente, houve uma ruptura. tentou explicar que a sensação daquela ingenuidade era como ouvir durante toda vida uma eterna música baixa, reparada só de quando em vez. ‘’a gente não sabia de que jeito éramos’’, e à criança nunca coube entender essa simplicidade. e ficou quieto e só pode me dizer que de um jeito extraordinário, pra cada um dos cerca de vinte meninos, o volume do que era detalhe foi levado ao máximo de uma só vez, e a vida passou a ser alta demais pra cerca de vinte pares de olhos que ainda não conseguiam entender o que era aquele som alto. como que por uma sincronia impossível, todos já bebiam demais, usavam drogas demais. porém, ainda crianças, ainda resplandecentes de uma infantilidade única. só lhe haviam aumentado o volume, e o som alto de tudo que era cinza na vida só podia incomodar o que ouvidos de criança não foram feitos pra entender.
cada rua era disputada com os meninos de onze anos do bairro vizinho. “a inocência é que era incrível”, e sinto que a partir de hoje, qualquer meio fio decorado de meninos sentados vai me lembrar essa rapaziada, descobrindo sensações, plenos e sinceros em panos com cola, em olhos e punhos machucados. não importava a ordem, não importava nada que não uma vida no ritmo dessa música que de repente ficou tão alta. eram crianças de onze anos, sem ser necessária maior precisão, rindo de um jeito que só a infância ensina, não entendendo de um jeito que só a infância embeleza.
acredito que durante toda essa infância acabou sendo verão. as ruas ficavam mais alaranjadas nos fins de tarde. talvez só nessa hora o volume baixasse, e cada um dobrava suas esquinas, entrava em casa e virava filho pra toda mãe que ainda reclama da roupa suja, que sente a casa inundada de uma inocência que sempre escorrega das mãos de mãe de um jeito inevitável. eram mães e filhos, e as coisas pareciam realmente certas demais.
não tinham dinheiro algum. nas mercearias, a inocência de seus onze anos era colocada em dúvida. tinham bolsos revistados, passos empurrados por olhares vigilantes. de qualquer forma, juntavam todas suas moedas ganhas de pais cansados, trocos esquecidos em bermudas do pão de todo fim de tarde alaranjado. talvez um ou dois dos cerca de vinte meninos já recebessem salários escassos, oriundos das primeiras vezes em que perdiam o tempo da brincadeira ensacolando compras, usando uniformes que deixam as crianças sempre tão iguais, inevitavelmente com a mesma cara de outono. ‘’cada um ajudava com o que podia’’, e chegava sexta-feira e iam até o centro somando moedas, desamassando notas embolotadas. o catalisador do fim de semana dependia da soma. foram raras as sextas e sábados e domingos de cocaína, de ritmo infinito, de mãos e corpos inquietos à procura de qualquer que fosse a coisa, como se sentissem o fim de qualquer tempo puro, como se fossem uma árvore à mercê do outono que sempre chega. na maior parte das vezes o dinheiro era pouco. usavam da criatividade, e recombinando remédios em copos de vinho, voltavam pra casa sempre de dentes tingidos, de inocência sempre alvejada do volume alto da vida.
penso na naturalidade com que tudo acontecia, de como foram inconscientes os passos que saíram puros de uma infância de onze anos e rumaram tortos à uma vida desmistificada, que nos faz sentir cada vez mais áspera a nossa árvore de memórias, cada vez com um punhado menor de lembranças puras penduradas em nossos galhos assimétricos. percebi a inconsciência do tempo para esses meninos como se fosse o verão de suas vidas, numa existência engessada em quatro estações, sempre ordenada em vida, morte, gestação e nascimento, ficando à cabo do acaso a responsabilidade de ter situado vinte meninos em uma mesma infância de verão eterno.
quando o outono chegou, não importava tanto o frio. o vazio era dos janeiros e fevereiros quentes que já não pareciam tão iluminados, tão de tardes alaranjadas, de raios de sol encaracolados. era tudo como se o sol tivesse olhos castanhos que ofuscassem numa leveza de carinho, marcando na retina um sorriso que fazia sorrir. faltava alguma coisa. os meios fios cada vez mais vazios, onde os corajosos que subiam as árvores mais altas da rua faziam tanta falta. quando o verão acabou, quando a sensação de ter onze anos já não era tão clara, veio um outono de drogas pesadas, com roubos que não deram certo, com uma sede de coragem nunca antes vista. os quase vinte já não eram mais tantos assim, e a covardia ficou parecendo necessária demais pra seguir o caminho de árvores secas, num outono rígido demais dentro do peito de cada um dos que sobravam vivos e covardes, livres e parados. por uma última vez todos os quase vinte meninos andaram juntos pela rua principal, dobrando esquinas aleatoriamente, tendo consciência que tiveram onze anos por tempo demais, e que chegar em casa já não transbordaria o peito da mãe da inocência de outrora, em um tempo onde as coisas eram certas demais pra não serem eternas.
e alguns foram presos, e outros morreram, e outros ainda usaram drogas demais e nunca conseguiram trazer de volta o olhar pra coisa alguma. eram os mais corajosos da lista antes organizada na destreza de subir em árvores. e os outros só podiam esquecer disso tudo, aprender enfim à entender todo esse som alto, à levantar dos meio fios e deixar os onze anos pra trás.
“não sei como fui virar professor”. sinto que ele poderia ter sido qualquer coisa. ele tem olhos de quem pode ser qualquer coisa. pode ser aquele a ser sempre o último a sair do bar. pode precisar ouvir o barulho das portas de aço, sentir cadeiras e mesas vazias pra finalmente se sentir em casa, sentir que o dia realmente valeu a pena. de fato, faz isso quase todas as noites. eu bato as portas, levanto cadeiras, e de mãos cheirando à chaves entro pela porta dos fundos sem precisar sequer levantar os olhos. meus ouvidos sempre dilatados no fim da noite. sei que o canto dele está sendo dele, que os olhos podem, mais do que nunca, ser qualquer coisa que quiserem. é como se de seu copo e garrafa emanasse uma mágica qualquer.
nessa noite sentei-me a sua mesa na vontade de dizer que o dia foi puxado, que ser garçom deve ter sido mais fácil em alguma outra época. sentei-me na esperança de ouvir qualquer coisa que não um pedido por um copo, por um cardápio, uma foto eternizando o vazio que cada um leva em forma de sorriso amarelo, cada um com sua árvore presa em um outono de pra sempre. sentei-me. tinha ainda as pernas descruzadas, braços apoiados atrás da minha cabeça sempre calma demais. a história dele ainda não era a minha, não era nada daquilo do que percebo. era como se, até aquele último suspiro cansado que soltei, eu ainda tivesse onze anos em um verão eterno de minha infância.
foi um sábado. diga-se de passagem que foi sábado, e diferente dos outros dias, ele havia chego cedo no bar. salão de festas fica no fundo, e naquele sábado, diga-se de passagem que era tudo diferente demais. conversas poucas dos primeiros que chegam, e eu organizava mesas e alinhava cadeiras achando o volume alto demais. parecia que a cerveja lá dentro durava mais tempo. que as risadas eram mais duras. que quaisquer que fossem as coisas. por mais sequenciais que obrigatoriamente fossem. paravam em pontos finais. de repente. eram sorrisos chagados, rostos marcados de alguma coisa pesada, que marcavam também os olhos dele, que sempre puderam ser qualquer coisa, e que ali existiam apenas estáticos, mudos como se ser qualquer coisa não tivesse nunca ter sido opção. e foi só depois disso que o dia acabou, que eu me senti cansado demais e cheio de cheiro de chave na mão. acho que, até ali, eu ainda tinha olhos de quem tem onze anos em um verão eterno.
e me contou, deixou as impressões de todo seu tempo. fez tudo sem me olhar, de copo na mão, de gestos estáticos. minhas pernas e braços já haviam sido cruzados pelo tom sincero. jogou os olhos nos meus, e eu tinha vontade de falar que eu ficava ali dentro à noite toda, e que meus tímpanos ficavam meio que abertos demais por um certo tempo. queria que ele falasse um pouco mais baixo, que esperasse eu me levantar e baixar um pouco esse volume que até agora tem me incomodado tanto, tanto. ‘’eu sou um cara bom’’, e realmente ele é um cara bom, e todas as pessoas que não estão mais no bar deveriam estar ali, compartilhando o volume extraordinário que as lembranças ganhavam na voz dele. e lhe sobra perceber e me contar que todo mundo que eu vi hoje, que me marcou os tímpanos naquela sensação pontual de chaga, de uma covardia compreendida, era quem sobrou dos cerca de vinte meninos que escondiam meios fios enquanto sentados e sorridentes. ‘’hoje foi um desses encontros de depois de muito tempo’’, e ele me diz de novo que se acha um cara bom, e que nunca entendeu por que diabos sempre teve tanta raiva dentro de si, por que não conseguia só entender que as coisas eram daquele jeito, que a revolta não sabia levar pra lugar nenhum. ‘’e tinha muita gente ali que tinha acabado de sair da cadeia, que cata lata pra poder continuar’’, e eu pensando que o outono doía mais por um dia já ter sido verão, e estar vivo não é motivo de tanto orgulho assim, já que nunca havia visto um salão de tantos olhares baixos, nunca havia visto um peito meu tão de verdade. e “a gente fazia muita merda”, ele me dizia, ”e hoje eu passei a tarde com toda essa galera que cresceu comigo, com toda essa galera que conseguiu ficar viva, por que a gente usava droga demais, e todo mundo que sobrou ali dentro sabe que é covarde, que pode ter acabado de sair da cadeia, como de fato aconteceu com dois ou três, mas que é covarde. quem escalava aquelas nossas árvores mais difíceis, quem sempre dividia a liderança da lista de coragem, esses sim já morreram, já não trazem atenção no olhar”. hoje eu senti que todo mundo ali sentia um pouco de vergonha de estar ali, que evitava comentar de quem tinha morrido por que não queria se ver como covarde, nessa vida que estar vivo não é mérito pra ninguém. “e sabe?, eu entendi uma coisa hoje”, e se eu que conseguir entender aquilo tudo era o cruzava mais meus braços, apertava mais minhas pernas. “eu sou um cara bom, e eu percebi que eu tenho uma coisa muito ruim aqui dentro, que acha o sistema uma bosta, que acredita que tá tudo errado, que o mundo tá errado. hoje eu entendi. é por causa deles, sabe? eu carrego aqui dentro todos esses caras que não tão mais com a gente, que me ensinaram a viver, que não foram covardes. hoje eu entendi” e ele chorou, e eu sorri de um riso que veio numa contração involuntária do meu rosto, e a gente se olhou, explorado e explorado, olho no olho, minha mão no ombro dele, e era carta demais em cima da mesa, era a vida dele não conseguindo mais não ser parte da minha, e a gente ficou mais puro, mais criança, mesmo tento desvendado essa magia toda que a gente vai colocando nos nossos dias cinzas.
e minhas pernas formigaram, e meus braços, pela primeira vez, despencaram do meu colo até o topo de minha cabeça que já não parecia ser assim desse jeito tão leve demais. a verdade é que tudo sempre esteve aqui. dá pra reconhecer as sensações. é como eu criança ganhando livros desde cedo, passando os olhos cedo demais pelas realidades que só conseguia sentir, ouvir num volume alto que não me dizia muita coisa. o meu herói acordava sempre de pijama cinza, escovava os dentes sem cor na pia que refletia o céu nublado pela única janela do apartamento. e eu não entendia que os livros de crônicas eram histórias separadas, e eu só podia acreditar sem entender que acordar num apartamento cinza era uma tarefa difícil, coisa de homem de coragem. toda criança quer ser seu herói.
e eu fui eternamente acordando e escovando os dentes e tomando café, de maneira inocente, de maneira infantil. meu cinza de criança sendo cimentado. eu em uma infância de onze anos em um verão que sempre foi cinza em minha árvore nunca antes percebida. até que o outono toma conta de toda a cabeça, seja a cabeça o solo onde todo homem tem sua árvore de lembranças plantadas. o frio na barriga agora faz sentido, longe de ser uma legião de borboletas que tão bem imitam anjos, longe de ser qualquer coisa que não uma árvore em um outono que parece ter começado justo na hora que meus braços despencaram até minha cabeça.
um dia, vem o estalo. não é a questão de ser o que um dia moldamos, essa continuidade organizada, caminho guiado por passos que desbravam corredores de ônibus logo pela manhã na busca de bancos livres, de assentos com vista preferencial para os pontos que cada dia vão ficando mais pra trás. é, de fato, se ver sendo o que nunca tínhamos percebido ser, e que de fato fomos, e que de fato agora explica todo esse conjunto de fatos que cruzou meus braços e pernas, que colidiu os olhos daquele que ainda agora pode ser qualquer coisa, com meus olhos que agora entendem o caminho de meus pés, entendem meu herói de crônicas cinzas.
levantei. lembrei de baixar os braços pra pegar a chave do carro, colocar a camisa. fazia frio. a porta dos fundos precisa ser aberta sempre com as duas mãos. empurra, gira a maçaneta. frio. o portão é de ferro e ferrugem, e deixa minha mão com cheiro de chave. meu último cigarro sempre tem cheiro de chave e fumaça. entro no carro. dou a partida e arranco. arranco de mim toda ideia de verão, toda ideia de ter onze anos. naquela noite, que de passagem acabou sendo sábado, olhei pra minha árvore com os olhos de um homem que me ensinou a ter olhos de quem pode ser qualquer coisa.
naquele sábado começou meu outono.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
vamos nos jogar onde já caímos
só te agradeço, meu irmão. fica na boa.
paulinho moska - tudo novo de novo
paulinho moska - tudo novo de novo
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
A casa de nossa Vó
Na casa de nossa vó tudo foi
feito aqui, na cidade mesmo. Telhas, tijolos, grama, mangueira. De fora, talvez
só a poeira e algumas outras saudades. Saudades nossas, não dela. Vendo bem,
até as saudades que tenho dela, inventadas lá longe, ao sul de minha infância,
acabam sendo daqui. Uma casa original, dela e da cidade, sem saber qual
pertence a quem primeiro. Talvez por vó ser daquelas que termina a vida indo de
um jeito que fica pra sempre. Por conta disso é, e não foi. Ainda lava
sua roupa, frita ovos, esquece nomes junto das chaves, caixas e cartas que um
dia devem ter sido tão esperadas. A dor da morte deixou com a gente, de esperta
e inocente que sempre foi, dessa traquinagem que ainda leva no olhar.
Falo dela como quem entra em um
quarto depois de muito tempo, ou sente só o rabo de algum cheiro que foi
guardado apenas como cheiro, sem imagem ou som ou qualquer outro sentido em
forma de memória. Vou lidando com
estranhamentos, aceitando essas sensações esquisitas que as coisas já
esquecidas dão bem no meio da nossa cabeça. Talvez seja a incompetência que me
leva os ouvidos, pega meus olhos desatentos que toda alma tem e assim me abre o
peito pro universo de coisas que pode ser fantasiada. Sinto os sinos da igreja
da Rua 5, vultos por entre portas encostadas, e tudo parece verdade. Nunca fui
bom em nada, e de vez em quando as coisas me convencem disso mesmo: só comum e desinteressado.
Sempre incompleto demais, tendo de encarar tudo de ordinário que vai e não sai
de minhas mãos e unhas e intenções de meio de estrada. Almejo sempre pouco, e
ainda assim acaba não dando. Não por nada
não, como dizem as pessoas daqui, mas por simplesmente não poder dar.
Deve ser por isso gosto tanto dessas
ruas. O cigarro serve só pra passar o tempo, o sol pra secar as roupas sempre
tão lavadas e as vontades que acabam ficando sempre pela sombra numa cidade
iluminada de sol e calor e toda essa coisa que aperta bem o meio da minha
cabeça. A vida aqui passa, numa redoma onde a constância predomina, sem poder
ser eterna, sem poder ser percebida ou medida ou qualquer coisa que não seja
passar num ritmo sempre engraçado. A cada hora o tempo parece roubar cinco
minutos, como se o encarregado da passagem não gostasse dos badalos quem
anunciam o fim eterno de uma hora e o começo promissor de outra, e por conta
disso avançasse sempre o ponteiro do relógio cinco minutos, evitando o soar dos
sinos e distorcendo as horas que há muito tempo devem ser sobrepostas.
Meu vínculo com essa terra de
vales vem de minha mãe, que sabe de tudo isso desde sempre. Percebeu numa
sabedoria surpreendente, calada. Sonho comigo que quando encontrar seus olhos
de esperança de novo, antes mesmo de desfazer minha mala e lhe entregar todos
os abraços endereçados a ela, a gente vai se entender numa cumplicidade própria
daqui, que ninguém nunca vai poder entender, que vai ser só nosso. Aos outros
um simples jeito de quem é de fora, a nós os traços de quem não pode ser de
outro lugar. Na sala da casa de minha mãe, por entre seus anjos e cristais e
todos os artefatos que materializaram suas saudades, tem um canto de cômodo,
com sua mesa de canto de cômodo, com sua foto de minha mãe cheia desse mesmo
olhar que descobri só aqui. Moça, forte, sorridente, assim como ainda é hoje.
Um pouco chagada da vida, do peso dos filhos e da vida que já foi tantas. Foi
minha tia que sempre me desvendou essa mulher do retrato, que me contou seus
sonhos, seus passos retos de tropeços que abriram meu caminho ao que somos
hoje, eu e meu irmão, iguais no silêncio assim como são todos os irmãos, assim
como minha tia também é a foto de minha mãe,moças, fortes e sorridentes,
chagadas e iguais em seus sorrisos de cerveja.
Aqui o sol queima, o ritmo cala,
e tem essa alguma coisa que mexe no olhar da gente, que muda nosso jeito pra
sempre assim que pegamos nossa passagem de volta no guichê da rodoviária. A
atendente percebe, e não diz nada não por não querer, mas por acreditar que
essa cratera no olhar é coisa que todo mundo sabe, entendimento popular, tipo
um prato típico, um significado de sonho. Vó sabe, tia sabe, meu primo tenta
até explicar, mas não sei. Talvez o olhar de minha mãe responda, clareie, faça
tudo simples como as brincadeiras da menina da casa do lado, casa séria de
menina feliz, grades altas que viram brinquedos nessa menina que olha rápido e
some de repente, sem respeitar nenhuma ordem dessa casa séria que deve ter um
punhado de horários.
Nossa vó pendura umas roupas no
varal, olha de canto e some pra dentro de casa. Acho que me conta que o centro
da cidade é chamado de “rua”. Até tem seu próprio trânsito, suas buzinas, seu
ritmo de meio tarde, seus ônibus de fim de expediente de portas de lojas pequenas
sendo trancadas e não conferidas. Nunca vi ninguém conferir nada por aqui.
Ainda assim, os rostos são os mesmos, a cadência por pouco é vista lenta e com
um pra sempre engraçado, e os ônibus
são tão pontuais como o sol indo embora, trazendo cadeiras de praia e senhoras
e senhores e crianças de banho tomado, sentadas em suas calçadas mornas,
transpirando o suor do asfalto que é pra sempre tão quente demais, refugiado
nas sombras dos postes, por de baixo das calçadas meladas de flores e de
senhoras e senhores e crianças que já precisam entrar pra tomar outro
banho.
A água daqui esquenta no copo, as
lagartixas correm de sombra em sombra, e todos só me riem e dizem que hoje ainda tá ventando e que tem dia que
tudo fica tão quente que não dá nem pra perceber o tempo e fica até parecendo
que esse moço que cuida pros dias irem e voltarem fica meio preguiçoso e então
a gente fuma pro tempo passar e joga uma água no asfalto e ele evapora de um
jeito engraçado assim que fica até parecendo que ele fuma também e fica amigo
da gente e quando a gente vê parece mesmo que a noite chegou mais depressa. E
penso que hoje ainda tá ventando, e já não sei mais se sou eu ou eles ou a
mesma mistura.
Parece que as pessoas daqui não
existem. Todas as vezes que vim pra cá era fim de ano, de escolas fechadas e
praias e casas de parentes de outras cidades abarrotadas. Acho que só eu venho
pra cá nesses dias engraçados. Vejo uma cidade, sinto outra, e ouço ainda uma
que não se encaixa muito bem entre as outras duas. Acabo fazendo da terra da
casa de nossa vó uma cidade que é impossível de existir, por ter sido feita
muito pouco do que vejo de meus olhos de adulto, e sim da miscelânea maluca e
sem sentido da cidade que só sabe existir quando não estou por aqui, e que meu
primo afirma ser diferente dessa que vem das lembranças quando sinto o cheiro
de flores nos raros dias de calor lá do sul, quando entro em algum ônibus que
entra estrada afora, quando embarco em aviões que me deixam apavorado demais e
com tempo de menos pra pensar que aqui talvez não exista mesmo, e os sinos que
tocam da igreja da Rua 5, de hora em hora, devem ser meu despertador da vida
real, ao lado de minha cama de solteiro do quarto que ainda divido com meu
irmão e que meu irmão divide comigo e com o amor de minha vida. Por fim, a dor
no meio de minha cabeça chega mansa e fuscas estacionam por sobre as calçadas
pra não estreitar as ruas já meio estreitas.
Poucos parecem se arriscar até a
rua entre qualquer hora do dia que não seja uma das horas da noite. Talvez na rua seja diferente, mas aqui, no bairro
de minha vó, são realmente poucos os mulatos sem camisa que passam pelo asfalto
de pele quente, descrentes do alívio efêmero nas poucas sombras de árvores que
blindam o sol contra minha pele virgem. Devem ter deixado de se queixar disso
tudo há muito tempo, e agora calam e alguns trabalham e a maior parte fica
dentro de suas casas de janelas lindas e sempre abertas na esperança de que
haja uma brisa que carregue o tempo amorfo, que traga de quebra a noite que
revigora e que é carnaval e catarse toda santa noite de cadeiras de praia e
espera até que chegue a hora da novela que começou na semana passada e que já
conquistou toda a rua e os vizinhos das ruas de cima e das ruas de baixo.
Nos bares a cerveja é mais barata
que no sul, e talvez seja isso pela ausência da alegria das cervejas daqui
durante o processo de fermentação e mistura dos demais ingredientes. Por aqui
não se fica bêbado de cerveja. Parece mesmo que só a cachaça salva, a melosa que dá fluidez nessa vida estancada.
Não é possível beber devagar e muito menos sozinho, já que a garrafa esquenta
rápido demais e a cerveja meio gelada é enlaçada na dança dos copos mornos que
encontram as mãos dos mulatos sem camisa. Rodadas e mais rodadas de garrafas
que enchem sempre um copo de vários, infiéis e fadadas a várias sedes
insaciáveis que nunca serão saciadas, já que o dono do bar Onze fica com calor demais, baixa suas portas e vai pra sua casa
que fica logo nos fundos com as janelas encostadas. Fuma vendo um pouco menos
da metade da novela, até que chega a hora de ir dormir, que nunca chega cedo ou
fresca, e no caminho que é marcado pelo levantar do sofá, o dedo no botão da
televisão e a caminhada pelo curto corredor que liga a sala ao quarto, se
arrepende e decide levantar as portas do bar, e os mulatos sem camisa guardam suas
cadeiras de praia em casa, e quase inconscientemente formam grupos de quatro
pessoas, pegam seus copos sempre os mesmos e tomam mais alguns primeiros copos
de outras várias garrafas infiéis.
Nesse montar de imagens, sinto
falta de alguns punhados de grama nos quintais das casas que por aqui sempre
tem quintais. Havia pés de carambola e minha sina de nunca ter gostado de
carambolas, apenas dos mosquitinhos pretos que viviam entre folhas e frutas e
que chamávamos de leopoldos, dóceis
de serem pegos nos dedos, admirados, pousados sempre em todo meu corpo e no
corpo de meu primo, onde o vencedor tinha sempre um ou dois bichinhos a mais
pousados em braços e pernas. Hoje penso que nunca percebemos os leopoldos emaranhados em nossos cabelos,
que até pouco tempo atrás me davam comichões na cabeça enquanto se desprendiam
de minhas lembranças e voltavam voando para o pé de carambola que já não
existia mais. Quem de nós dois realmente ganhava nossa disputa por leopoldos? Sem saber ando olhando o
topo de qualquer árvore pra ver se encontro qual delas virou o pé de carambola
da casa de nossa vó.
Acho que naqueles tempos via tudo
melhor, as coisas como realmente eram, sem fantasia, sentindo mesmo a água da
torneira mais gelada que agora. Havia menos formigas, grandes e vermelhas e
pretas e pequenas que hoje não me incomodam tanto assim. Talvez por conta do
meu esforço de criança, armado de dedos e chinelos e pés descalços atrás de
qualquer ponto meio imóvel, tardes e tardes de guerras intermináveis,
armisticiadas apenas nos dias de futebol na rua. Hoje elas me sobem, me coçam,
e desconfio até que algumas poucas me mordam, enquanto passivo, assim como
criança que desejou ser sempre criança, vejo tudo de um jeito infantil, percebo
esse raro começo de tarde nublado e sei que não vai chover por que só sei inventar
e assim brinco que o sol escondido logo vai evaporar todas essas nuvens que são
resquícios de outro raro dia nublado e assim as nuvens acabam se tornando outras
nuvens que já foram muitas outras tantas vezes. Talvez agora sejam apenas
algodão ou tufos de qualquer outra coisa branca e intocável, ignoradas por que
o amarelo do sol deixa o céu sempre azul demais e machuca os olhos dos senhores
e senhoras e meninas lentas e graciosas que já há muito não levantam os olhos,
há muito não buscam os pedaços de alma flutuantes que não tem muita utilidade e
que não se sabe se é a terra que gira ou elas que caminham do jeito devagar que
se caminha por aqui.
Hoje choveu, e o cheiro que as
coisas soltam pra saudar a chuva provavelmente vai impregnar tudo por tempo
demais, tanto na rua como aqui dentro de minhas lembranças. É engraçado ver
tudo molhado, meio impossível, meio fantástico. Tudo ganha outro aspecto, outro
jeito de parecer. As pessoas já não são as mesmas, e a tensão de que tudo volte
ao normal parece eminente, parece certa demais pra qualquer idéia vaga de
esperança, de que tudo seja do jeito que não deva ser. Acho que os sonhos secos
de antes se manifestam nessas horas, todos ao mesmo tempo e extremamente claros
aos olhos das pessoas, que se enxergam e não entendem que diabos há no olhar de
todas essas pessoas paradas, olhando pra cima, redescobrindo o céu,
redescobrindo todos os jeitos e formas que já foram e ficaram deixadas há tempo
demais, idéias que chegam com aquela dor bem no meio da cabeça que é comum pra
todo mundo, que não precisa ser explicada e é passível apenas da junção da
surpresa com o incerto do fim da chuva, do frescor do asfalto e dos corrimões e
dos capôs dos carros fechados que mantém por dentro o calor amorfo em saudades
e maneiras, ainda que o lado de fora pareça úmido e gracioso e diferente. Os
carros daqui são exatamente como as pessoas.
Sempre acreditei que se caso
encontrasse meus chinelos, batesse o cadeado no portão que precisa sempre de um
empurrão um pouco firme – na verdade não chega a ser firme, e assim é quase uma
forma sutil de força -, e fosse subindo a rua até quase a esquina, chegaria à
casa de azulejos azul escuro, eternizados pelos primeiros desenhos de nossas
brincadeiras quase inocentes de tão leves que pareciam ser. Agora pareço
perceber que essa lembrança é uma daquelas desprovidas de sentido. Não pode ser
vista, nem ouvida, não tem cheiro de perfume doce e nem textura de pele no
verão. Chego a duvidar até que existiu, de tão transparente e inodora e não
fria e nem quente que é. Talvez seja um estímulo de sorriso, a eclosão da
primeira borboleta dos milhares de borboletas que de vez em quando inundam
nossos estômagos. Não sei. Algo que realmente não exista e que esteja longe de
qualquer conceito de realidade e decência, algo dividido que seja apenas de um,
injustamente indivisível nessa metade, dignamente do peito e do meio da cabeça
de quem acredita que o que não tem forma possa realmente ter existido. Dessa
forma, ou de qualquer outro jeito que possa ser explicado, dentro de corpo e
mente incompletas de quase homem que sou, sinto o pique esconde, a nossa
fidelidade de baixo da rampa da tua casa, silêncio que se preciso seria eterno,
guardiões que fomos da nossa fortaleza cúmplice, da nossa certeza um no outro
de que sairíamos dali apenas na hora certa, na disparada de criança que aprende
a disparar por razões inatas, e assim seria por que assim precisava ser, não
havia jeito, nem fuga, nem nada que pudéssemos fazer para que todos aqueles
pares de segundos não fossem eternos nessa cidade que não comporta eternidade e
só sabe ser passageiramente pra sempre na vida de quem volta em busca de
concretizar resquícios, de cimentar a fluidez das sensações, de construir algo tão
daqui como todas as casas, erguendo muros de segurança em nosso peito tão
repleto de certezas não tão boas quanto os olhos que julgo serem os seus, que
obrigo a serem os seus antes mesmo de te ver descendo a rua todas as noites,
nessa espera ancorada no banco de madeira de nossa vó, de garrafas de cerveja
de apenas um copo que acabam sendo só minhas, minhas e de mais ninguém, assim
como você me é sem mesmo saber, sem mesmo que eu saiba se foi você, se tudo
isso foi com você ou com a antiga dona dessa casa de azulejos azuis que acabou
confundindo a cabeça de todos os senhores e senhoras e crianças que não sabem
quando precisarão tomar outro banho. Tudo pode ter mudado há tempo demais e
ainda assim ter sido ontem, incerto e de qualquer forma de uma verdade
acreditada.
Hoje, no ponto de ônibus, senti de novo o peso dos seus olhos outra vez, e como quem acende a luz do quarto em noite sem lua, você brilhou.
Hoje, no ponto de ônibus, senti de novo o peso dos seus olhos outra vez, e como quem acende a luz do quarto em noite sem lua, você brilhou.
Não sei de ninguém. A gente
sempre precisa correr pra longe se quer chegar até nosso deus, que parece tanto
com essa sombra da gente no asfalto. Creio que grande parte daquelas pessoas já
tenha ido embora, e nesse meio alguns resolveram mesmo morrer de vez, sem jeito
ou chance, assim certeiros. Pra mim é mais esquisito lidar com os novos
telhados dos vizinhos, com a insegurança que substitui a confiança nos rostos e
sorrisos antes tão amigos. Alguns poucos me abraçam e se enchem os olhos de
lágrimas que não sei há quanto tempo estavam ali guardadas, por saudade de
antes, por lapso de consciência que faz a mesmice daqui parecer mesmo
diferente, meio incerta. Será que faz
tanto tempo assim?, percebo por de trás de minhas máscaras, e não grito e
só escrevo que já faz tempo demais mesmo e que o telhado novo da casa do lado
não combina com o telhado antigo dessa redoma que é a Rua 2 de dentro de mim.
Uma tristeza, daquelas bem azuis,
pega a gente pelo pé desde a hora que a gente acorda. Ajuda a arrumar o
travesseiro e esticar a colcha nessa terra de sem cobertas. As formigas são
parte de tudo, e qualquer que seja o pensamento bonito que passe correndo bem
no meio da nossa cabeça, um punhado de borboletas começa a aparecer pelo
quintal. Sempre amarelinhas e com a borda das asas pretas, borda essa tão fina
que lembro dos teus olhos maquiados, castanhas envoltas da borda dessas
borboletas do pensamento bonito. Logo a tristeza volta, do céu nublado dessas
nuvens que talvez não saibam que já foram e serão apenas outras nuvens, destino
esse tão parecido com o nosso. Diferente talvez só as formigas, de por tudo, de
pelo cimento da casa de nossa vó e toda a terra vermelha e nossas roupas e
paredes. São mesmo tão presentes como essa tristeza de por todo lugar, que não
quer fazer nada a ninguém, mas é de um azul tão triste que vai deixando a gente
triste, até que já não se sabe mais quem começou com todo esse silêncio
primeiro.
Creio que a cidade me expulsa.
Nada de maldade, longe disso. É como se não desse mais tempo, e pronto. Talvez
pelo ciúme que essas ruas têm das ruas que ficaram imunes ao tempo, guardadas
em mim e que, agora, parecem tão intactas, até mais impossíveis do que antes,
como se recordar não fosse uma opção. Tem chovido tanto nesses últimos dias, e
as formigas parecem mais zangadas, inquietas. O sol acha brechas nas nuvens e
denuncia o trabalho das aranhas, antes imóveis, impressionadas com o vento que
nunca não soprava e que agora derruba roupas dos varais no chão molhado. Talvez
seja essa a cidade de meu primo, onde as lagartixas me dão as costas e ficam
paradas longe das sombras, sempre às vistas, sonhando com borboletas que tanto
voam por aqui, procurando os traços de minhas marcas de saudades, agora tão certas
que poderiam até ser invisíveis e indeléveis, sem meio termo. Aqui se vê que as
coisas todas já aconteceram há tempo demais, e.
Alguns poucos ainda descem de
suas motos, param de frente ao portão de nossa vó pra me dar, sem perceber,
talvez suas maiores riquezas, talvez a maior sinceridade em alegria e
cumprimento, polegar em riste, dentes em sorriso, sem que eu perceba que já até respondi, achando graça em ainda não ser nem sexta-feira,
amor, não ser nem dia de simpatia. Quem sabe aqui seja sempre sexta-feira,
dia de bloco na rua, carnaval de
cidade pequena, tristeza de gente grande. Parece que já me despedi das pessoas,
da cidade que é essas pessoas, e posso até antecipar minha passagem de daqui
uns dias, sair na hora da novela, passarinho recolhidos, e tá tudo certo. Ainda tem uns dias, fala minha tia,
brinca meu primo, olha nossa vó. Parece ser saudade de casa, saudade do amor de
minha vida, mas é essa coisa da moça do guichê da rodoviária. Preciso dos olhos
de minha mãe, da fotografia do móvel de canto de cômodo, da minha tia que até
fora da foto é tanto minha mãe. Vou esperar, ir pra casa sabendo que meu
lugar é aqui, que minha volta já tava certa antes do dia que fiquei bêbado e lembrei da menina que dividiu meu primeiro amor comigo, do susto dessas
lembranças não terem mais forma, nem gosto ou cheiro, e serem só essa vontade de sentar na mesa
de mármore do quintal de nossa vó, silenciar, cumprimentar a rua recortada no
portão enferrujado. Volto pra casa ficando aqui, levando esse olhar de cratera,
essa saudade, esses alguns leopoldos emaranhados em minha barba emaranhada. Minto. Volto pro sul. Minha casa é aqui. Minha vida é Cachoeiro.
Cícero e Sérgio Sampaio, graças às suas músicas com som de sonho.
Para Edna, Sandra e Pablo: minhas mães e irmão. E nossa Vó.
Cícero e Sérgio Sampaio, graças às suas músicas com som de sonho.
Para Edna, Sandra e Pablo: minhas mães e irmão. E nossa Vó.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Francisco, o Homem
gostava de contar histórias, mas nem por isso falava demais. foi tão discreto enquanto foi que não se sabe se sempre foi ou por mania recente tomou gosto em passar despercebido. usava sempre as mesmas roupas. tantas vezes usou sempre as mesmas roupas que era difícil saber o que era roupa e o que era Francisco. não sabia mesmo era ouvir as histórias dos outros. só ele sabia que, na verdade, não gostava de ouvir as histórias dos outros. outros estes que, ainda assim, confiavam à Francisco os raros dias vividos em suas vidas de dias passados, de recalques e conformismos, não importando a ordem que tomassem recalques e conformismos nas histórias de seus dias vividos. vidas de dias tão raros entre seus vários dias apenas passados. talvez fosse por conta do olhar de Francisco, sempre tão cheio de suas mesmas roupas de sempre. o sempre passa confiança, assegura a intenção. contam que foi por conta disso que Francisco sempre sentiu muita saudade de tudo que fosse passível de sentir saudade. jogou fora suas fotos por não gostar da saudade que tinha de sua inocência do passado, da inocência que todo passado sempre tem quando comparado com as coisas que estão sempre por passar e não passam. dizem que gostava mesmo era de contar histórias.
quando era mais jovem aprendeu tudo que precisava. o destino lhe afastou das pessoas que trazem consigo os segredos da vida e do tempo, e não tomando conta da dimensão que as coisas tem por de trás dos muros, entendeu o mundo inteiro e todas as partes desse seu mundo inteiro ainda jovem. as pessoas, sendo elas mundo e parte do mundo ao mesmo tempo, foram também ficando iguais para Francisco mais ou menos nessa mesma época. estes foram dias em que Francisco ainda era um jovem um pouco mais velho, e para as pessoas que conheceram as pessoas que conheciam a história de Francisco, foram nessas manhãs tardes e noites que sua vida transparente foi mais radiante.
contam que foi quase um conformado, quase um paciente. antes realmente gostava de ouvir as histórias dos outros e dos outros tantos que acontecem por aí afora nesse mundo. sentava e levantava e andava, e da forma que lhe parecesse melhor, ouvia tudo que poderia ser ouvido. depois que as pessoas e as coisas começaram a se mostrar iguais, e até hoje não se sabe ao certo quando foi que isso aconteceu, Francisco entendeu que apenas contando todas as histórias que conhecia poderia encontrar qual história era diferente das demais, qual história não era uma e todas as outras ao mesmo tempo; história que fosse, por fim, tão discreta e despercebida quanto Francisco, digno de passar em branco frente a um espelho que tudo sempre mostra.
percebeu a intenção das vozes com facilidade, e julgou desconhecer apenas as coisas que lhe travavam a garganta de borboletas: era uma espécie de presságio, uma coisa incrível como joaninha no braço que torna um dia comum em um raro dia comum de joaninha no braço. a voz se dissipava por conta das alvoroçadas asas entre a laringe e a epiglote de Francisco. quem testemunhava sua reação de descoberta em uma vida há tempo o bastante entendida, lembrava logo da criança da família que toda família tem, que vê sentido em tudo que parece sem sentido na vida criança de descobertas. contam que quem tudo isso via e ouvia passava a acreditar que Francisco, da mesma forma como contavam algumas pessoas desacreditadas por já terem visto o impossível gaguejar de borboletas, ficava quieto de repente; tão de repente que todas as coisas pareciam ter sempre estado no mesmo lugar de sempre, como se o lugar de sempre fosse o único lugar que pudessem ter estado por todo o tempo. por fim, Francisco sempre parecia longe demais para voltar a tempo de terminar a história, e de olhos serenos e rosto distante, não percebia a movimentação de chapéis postos e passos rumados de todos que ouviam os fatos de suas próprias vidas metamorfoseados na vida dos outros. assim, compreensivos de que o moço se calara por que assim precisava ser aquela história, iam embora em uma plenitude cruel e passageira. contam que o espanto vinha quatro noites e três tardes depois, onde a volta do entendimento pleno à realidade causava as mais estranhas reações nos que testemunhavam o que não podia ser verdade.
os cínicos de olhar explicavam, frente aos depoimentos atropelados dos loucos e santos, que esse gaguejar de Francisco era apenas o choro de homem bom, decorrente da pedra, que entre todas as pedras que engolimos, é sempre a única que consegue entrar na fenda sincera das lágrimas, sempre por uma essa pedra de transbordar o copo cheio de nossas almas. Francisco, porém, nunca chorou. dizem que certa vez admitiu não lembrar de ter chorado. como não sabia qual o peso de uma lágrima, confundiam seus olhos curiosos frente à quem chorava, com olhos de caridade e compaixão, e sem querer, pela primeira vez, não percebeu que durante a vida foi para os outros tudo que na verdade não foi, assim como de fato acaba acontecendo com todas as outras pessoas. acreditam, porém, que não foi dali que percebeu a vida já vivida muito antes do pé ser posto pra fora de casa, de histórias dos outros resultantes de um simples apanhado da vida de outros desconhecidos, unidos pela obrigação de serem a mesma pessoa, sempre tão diferentes uns dos outros, sempre tão iguais frente aos olhos de Francisco.
se aprender era contar histórias, contava e contava na esperança de se encontrar, despercebido e discreto como sempre foi na vida das outras pessoas, tão pessoas como ele e todos os marcelos, henriques, luizes, cristianos e fernandos, sempre tão a mesma pessoa. dizem que nessa época Francisco ainda não tinha a plena certeza que se tem da morte e da repetição de que todas as histórias são as mesmas histórias, e talvez por isso desfrutava a emoção das borboletas na garganta como se encontrasse arco íris nos céus das cidades de chuva e sol.
Francisco ignorava o fato de ser tudo que era por nunca ter quisto ser nada. conformou-se com a obrigação da existência e da efemeridade, e nunca culpou seus pais, os pais de seus pais, as doenças, os acasos, as cascas maduras das frutas verdes, as joaninhas desinteressadas, os carros, os sinais vermelhos, os sonhos quase esquecidos, as comidas estragadas, a chuva, o relento, o cansaço, o caco de vidro, o pé descalço, a barba, o fim sem aviso. tudo era por assim ser, e como novo usuário das regras, se acostumou desde quase sempre a ir conforme as coisas pedem. acreditam que isso aconteceu justo naqueles tempos de vida em que a juventude traça rasas linhas de saudade em tudo que se vê, tão suaves a ponto de não marcarem a próxima página, branca do alvo da alma, do grafite dos dias cimentados de passado, concretos que são na falta que nos fazem. pode ser que Francisco tenha sido jovem por mais tempo que o comumente se é.
contam que Francisco de verdade só houve um. os demais foram e serão franciscos por adjetivo. certo João foi um tipo de gente vítima da logística universal. acabou nascendo sem a atenção, característica inata do corpo humano controlada de dentro dos olhos por recém nascidos ainda não nascidos. sem rebentos oculares, paridos antes da hora por erro dos céus, João olhava sempre para a mesma direção. não importava pra qual lado lhe virassem a cabeça, sempre parecia procurar alguma coisa que não podia ser achada. não falava, não respondia. poucos sabiam como aparecia sentado em sua varanda e em que horas desaparecia na sua casa sem janelas. mesmo que os mais cínicos de outrora o achassem vazio, como de fato realmente era, a fé daqueles que acordam cedo todo o dia falava mais alto, tornando João, de ser vazio à persistente na incansável busca da atenção perdida de seus olhos. conta a história que quem conta essa história, exatamente nessa hora, olha para o nada e pensa nos olhos de João, lindos de tal jeito que ser joão passou a ser sinônimo da beleza que toda menina morena tem de cabelo preso no topo da cabeça.
certo dia um rapaz, daqueles que acredita que o tempo só passa para os outros, viu nos olhos de João com a cara dos olhos de Francisco - personagem conhecido na época por todo o centro da cidade como "aquele um de Deus que já não é mais jovem e ouve os aflitos sem voz". de curiosidade atenta e assustada frente ao olhar perdido de João, o rapaz, não se sabe se do susto ou da curiosidade que extrapola, sentenciou-o de risada temerosa e dedo em riste: "francisco!", da mesma forma que alguém chama outro alguém de qualquer coisa que lhe defina. o "francisco!", dito com o timbre de voz daqueles rapazes que tem todo o tempo do mundo pra não pensar na morte, realmente era de verdade. dizem que aquele rapaz viu, pela primeira vez, como João era francisco de olhos, sempre eternos e presentes, calmos e portuários. esse mesmo rapaz acabou nunca sabendo que João não o percebeu naquela hora e nem em hora nenhuma das outras horas de sua vida, assim como acabou nunca percebendo nada nem ninguém por conta dos seus olhos órfãos de recém nascidos não nascidos. a falta da atenção dos olhos de João o tornou um espectador da vida, sempre sentado em sua cadeira desde cedo até tarde, sendo sempre vazio para os cínicos e lindo para os de fé. foi daqui que perpetuou-se o erro de que João era Francisco de nascença ao invés de ser simples francisco de olhar. os que ouviram o rapaz sentenciar João de "francisco!" apenas de olhos, acabaram achando que João era Francisco de nome. as pessoas talvez também aceitassem a vida como um conjunto imutável de fatos imutáveis, e por conta disso, mesmo os que sabiam que João não era Francisco, acabaram aceitando a ordem das coisas e passaram a chamá-lo de Francisco de nome e não de olhos. João foi o único, contam até que por indenização divina pela falta de atenção no olhar, a ter os olhos mais joão que se teve notícia, e ser o único Francisco de nome mesmo que de fato não o fosse.
João passou assim todos os seus dias, sem ninguém nunca ter tido certeza se de fato percebia alguma coisa. contam que os mais diversos bichos, e até algumas crianças imunes da maldade do tempo, gostavam de chegar perto de João, sentado sempre em sua cadeira eterna que lhe confortou a vida. passou seus dias de ombros tomados de pássaros e pernas ancoradas de cachorros, sempre tão dóceis e completos à volta do olhar vazio de João. contam que sempre foi assim, e o espanto pelo fantástico foi tomado pela aceitação de que as coisas são assim.
Francisco, o de verdade, nunca teve nada. foi, mas no máximo imagina-se tudo que talvez tenha sido. provavelmente todos os Franciscos que foi na vida não eram nem de perto agradáveis para seus desejos de homem humano. porém, aceitava o ritmo e seguia. dizem os mais velhos que o pai de Francisco não gostava de cerveja gelada. nunca se soube se chegava em casa no fim da tarde ou no começo da noite, carregando na alma o cansaço do dia e o peso do cheiro do óleo, da graxa, do suor e da certeza do amanhã sempre igual. trazia consigo suas cervejas e as tomava em frente à casa, sentado no torto banco de madeira feito por ele e por Francisco na época em que os dias da semana ainda eram diferentes uns dos outros, e que Francisco ainda era tão cedo que demoraria a tornar-se um jovem. aqueles mesmos cínicos de vida que viam o vazio em João, diriam que o pai de Francisco simplesmente gostava de cerveja quente. acontece que o próprio Francisco, no fim da época em que ouvia histórias por ainda desconhecer algumas, acabou ouvindo de alguém a história do pai de alguém que bebia cerveja quente não por prazer, mas por já ter esquecido de viver há muitos anos atrás. dizem que foi nessa hora que, mais do que perceber o destino de seu pai e de todos os pais de todos os filhos, Francisco se viu preso por entre tantos caminhos diferentes que, de forma ou outra, acabam sendo o mesmo caminho para o mesmo pai triste de cerveja quente que todo filho tem e será. nesse dia, contam que Francisco ouviu, se levantou, e andando entendeu que o vazio de todo pai apenas tarda.
por fim, Francisco passou. ainda tinha um resquício de juventude no jeito de fazer as coisas que sempre fez. tudo aconteceu de maneira discreta. quando aqueles que ouviram as histórias dos que ouviam as histórias de Francisco ficaram sabendo, Francisco já havia quase sido esquecido. as histórias que contava pra aprender o pouco que ainda precisava aprender acabaram se misturando com todas as outras histórias que ele acabou por não conhecer. contam que nunca chegou a saber que não havia mais nada que não soubesse ou conhecesse ou entendesse da sempre diferente e mesma repetição, e por isso presumem que tenha sido o homem mais completo de que se tem vestígios em lembranças.
certo dia encontraram Francisco sentado em uma cadeira, muitos anos depois de sua ida ter sido esquecida. tinha um olhar lindo, e não era possível saber se buscava ou deixava sair alguma coisa por aquelas janelas de casa sem janelas. os que passavam por ele olhavam com a vista turva do esquecimento. "ele não parece com alguém?", perguntavam alguns homens que um dia foram jovens com tempo demais pra pensar na morte. contam que, certo dia, uma senhora parou ao seu lado, e percebendo Francisco por entre pássaros, cachorros e crianças inocentes do tempo, juntou algumas histórias na cabeça e contou sua vida ao homem de olhar perdido. chorou, não pelas dúvidas e certezas do fim, mas pela passividade daqueles olhos lindos que tão bem pareciam ouvir àqueles aflitos sem voz.
dos que ainda lembram dos que sabiam da história de Francisco, alguns realmente acreditam que ele gostava de contar histórias, e os olhos que tinha, lindos como menina morena de cabelo preso no topo da cabeça, não poderiam nunca negar. os outros, que ficaram sabendo do fim discreto de Francisco pelo seu pai de cervejas quentes, não acreditam que seja possível ser o Francisco sentando na varanda de uma casa sem janelas, tomado de animais e com um olhar que parece eternamente buscar. por fim, acabou-se acreditando que, independente quem fosse ou quantas vezes fosse, Francisco, o de verdade, gostava mesmo era de ouvir histórias
Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez
quando era mais jovem aprendeu tudo que precisava. o destino lhe afastou das pessoas que trazem consigo os segredos da vida e do tempo, e não tomando conta da dimensão que as coisas tem por de trás dos muros, entendeu o mundo inteiro e todas as partes desse seu mundo inteiro ainda jovem. as pessoas, sendo elas mundo e parte do mundo ao mesmo tempo, foram também ficando iguais para Francisco mais ou menos nessa mesma época. estes foram dias em que Francisco ainda era um jovem um pouco mais velho, e para as pessoas que conheceram as pessoas que conheciam a história de Francisco, foram nessas manhãs tardes e noites que sua vida transparente foi mais radiante.
contam que foi quase um conformado, quase um paciente. antes realmente gostava de ouvir as histórias dos outros e dos outros tantos que acontecem por aí afora nesse mundo. sentava e levantava e andava, e da forma que lhe parecesse melhor, ouvia tudo que poderia ser ouvido. depois que as pessoas e as coisas começaram a se mostrar iguais, e até hoje não se sabe ao certo quando foi que isso aconteceu, Francisco entendeu que apenas contando todas as histórias que conhecia poderia encontrar qual história era diferente das demais, qual história não era uma e todas as outras ao mesmo tempo; história que fosse, por fim, tão discreta e despercebida quanto Francisco, digno de passar em branco frente a um espelho que tudo sempre mostra.
percebeu a intenção das vozes com facilidade, e julgou desconhecer apenas as coisas que lhe travavam a garganta de borboletas: era uma espécie de presságio, uma coisa incrível como joaninha no braço que torna um dia comum em um raro dia comum de joaninha no braço. a voz se dissipava por conta das alvoroçadas asas entre a laringe e a epiglote de Francisco. quem testemunhava sua reação de descoberta em uma vida há tempo o bastante entendida, lembrava logo da criança da família que toda família tem, que vê sentido em tudo que parece sem sentido na vida criança de descobertas. contam que quem tudo isso via e ouvia passava a acreditar que Francisco, da mesma forma como contavam algumas pessoas desacreditadas por já terem visto o impossível gaguejar de borboletas, ficava quieto de repente; tão de repente que todas as coisas pareciam ter sempre estado no mesmo lugar de sempre, como se o lugar de sempre fosse o único lugar que pudessem ter estado por todo o tempo. por fim, Francisco sempre parecia longe demais para voltar a tempo de terminar a história, e de olhos serenos e rosto distante, não percebia a movimentação de chapéis postos e passos rumados de todos que ouviam os fatos de suas próprias vidas metamorfoseados na vida dos outros. assim, compreensivos de que o moço se calara por que assim precisava ser aquela história, iam embora em uma plenitude cruel e passageira. contam que o espanto vinha quatro noites e três tardes depois, onde a volta do entendimento pleno à realidade causava as mais estranhas reações nos que testemunhavam o que não podia ser verdade.
os cínicos de olhar explicavam, frente aos depoimentos atropelados dos loucos e santos, que esse gaguejar de Francisco era apenas o choro de homem bom, decorrente da pedra, que entre todas as pedras que engolimos, é sempre a única que consegue entrar na fenda sincera das lágrimas, sempre por uma essa pedra de transbordar o copo cheio de nossas almas. Francisco, porém, nunca chorou. dizem que certa vez admitiu não lembrar de ter chorado. como não sabia qual o peso de uma lágrima, confundiam seus olhos curiosos frente à quem chorava, com olhos de caridade e compaixão, e sem querer, pela primeira vez, não percebeu que durante a vida foi para os outros tudo que na verdade não foi, assim como de fato acaba acontecendo com todas as outras pessoas. acreditam, porém, que não foi dali que percebeu a vida já vivida muito antes do pé ser posto pra fora de casa, de histórias dos outros resultantes de um simples apanhado da vida de outros desconhecidos, unidos pela obrigação de serem a mesma pessoa, sempre tão diferentes uns dos outros, sempre tão iguais frente aos olhos de Francisco.
se aprender era contar histórias, contava e contava na esperança de se encontrar, despercebido e discreto como sempre foi na vida das outras pessoas, tão pessoas como ele e todos os marcelos, henriques, luizes, cristianos e fernandos, sempre tão a mesma pessoa. dizem que nessa época Francisco ainda não tinha a plena certeza que se tem da morte e da repetição de que todas as histórias são as mesmas histórias, e talvez por isso desfrutava a emoção das borboletas na garganta como se encontrasse arco íris nos céus das cidades de chuva e sol.
Francisco ignorava o fato de ser tudo que era por nunca ter quisto ser nada. conformou-se com a obrigação da existência e da efemeridade, e nunca culpou seus pais, os pais de seus pais, as doenças, os acasos, as cascas maduras das frutas verdes, as joaninhas desinteressadas, os carros, os sinais vermelhos, os sonhos quase esquecidos, as comidas estragadas, a chuva, o relento, o cansaço, o caco de vidro, o pé descalço, a barba, o fim sem aviso. tudo era por assim ser, e como novo usuário das regras, se acostumou desde quase sempre a ir conforme as coisas pedem. acreditam que isso aconteceu justo naqueles tempos de vida em que a juventude traça rasas linhas de saudade em tudo que se vê, tão suaves a ponto de não marcarem a próxima página, branca do alvo da alma, do grafite dos dias cimentados de passado, concretos que são na falta que nos fazem. pode ser que Francisco tenha sido jovem por mais tempo que o comumente se é.
contam que Francisco de verdade só houve um. os demais foram e serão franciscos por adjetivo. certo João foi um tipo de gente vítima da logística universal. acabou nascendo sem a atenção, característica inata do corpo humano controlada de dentro dos olhos por recém nascidos ainda não nascidos. sem rebentos oculares, paridos antes da hora por erro dos céus, João olhava sempre para a mesma direção. não importava pra qual lado lhe virassem a cabeça, sempre parecia procurar alguma coisa que não podia ser achada. não falava, não respondia. poucos sabiam como aparecia sentado em sua varanda e em que horas desaparecia na sua casa sem janelas. mesmo que os mais cínicos de outrora o achassem vazio, como de fato realmente era, a fé daqueles que acordam cedo todo o dia falava mais alto, tornando João, de ser vazio à persistente na incansável busca da atenção perdida de seus olhos. conta a história que quem conta essa história, exatamente nessa hora, olha para o nada e pensa nos olhos de João, lindos de tal jeito que ser joão passou a ser sinônimo da beleza que toda menina morena tem de cabelo preso no topo da cabeça.
certo dia um rapaz, daqueles que acredita que o tempo só passa para os outros, viu nos olhos de João com a cara dos olhos de Francisco - personagem conhecido na época por todo o centro da cidade como "aquele um de Deus que já não é mais jovem e ouve os aflitos sem voz". de curiosidade atenta e assustada frente ao olhar perdido de João, o rapaz, não se sabe se do susto ou da curiosidade que extrapola, sentenciou-o de risada temerosa e dedo em riste: "francisco!", da mesma forma que alguém chama outro alguém de qualquer coisa que lhe defina. o "francisco!", dito com o timbre de voz daqueles rapazes que tem todo o tempo do mundo pra não pensar na morte, realmente era de verdade. dizem que aquele rapaz viu, pela primeira vez, como João era francisco de olhos, sempre eternos e presentes, calmos e portuários. esse mesmo rapaz acabou nunca sabendo que João não o percebeu naquela hora e nem em hora nenhuma das outras horas de sua vida, assim como acabou nunca percebendo nada nem ninguém por conta dos seus olhos órfãos de recém nascidos não nascidos. a falta da atenção dos olhos de João o tornou um espectador da vida, sempre sentado em sua cadeira desde cedo até tarde, sendo sempre vazio para os cínicos e lindo para os de fé. foi daqui que perpetuou-se o erro de que João era Francisco de nascença ao invés de ser simples francisco de olhar. os que ouviram o rapaz sentenciar João de "francisco!" apenas de olhos, acabaram achando que João era Francisco de nome. as pessoas talvez também aceitassem a vida como um conjunto imutável de fatos imutáveis, e por conta disso, mesmo os que sabiam que João não era Francisco, acabaram aceitando a ordem das coisas e passaram a chamá-lo de Francisco de nome e não de olhos. João foi o único, contam até que por indenização divina pela falta de atenção no olhar, a ter os olhos mais joão que se teve notícia, e ser o único Francisco de nome mesmo que de fato não o fosse.
João passou assim todos os seus dias, sem ninguém nunca ter tido certeza se de fato percebia alguma coisa. contam que os mais diversos bichos, e até algumas crianças imunes da maldade do tempo, gostavam de chegar perto de João, sentado sempre em sua cadeira eterna que lhe confortou a vida. passou seus dias de ombros tomados de pássaros e pernas ancoradas de cachorros, sempre tão dóceis e completos à volta do olhar vazio de João. contam que sempre foi assim, e o espanto pelo fantástico foi tomado pela aceitação de que as coisas são assim.
Francisco, o de verdade, nunca teve nada. foi, mas no máximo imagina-se tudo que talvez tenha sido. provavelmente todos os Franciscos que foi na vida não eram nem de perto agradáveis para seus desejos de homem humano. porém, aceitava o ritmo e seguia. dizem os mais velhos que o pai de Francisco não gostava de cerveja gelada. nunca se soube se chegava em casa no fim da tarde ou no começo da noite, carregando na alma o cansaço do dia e o peso do cheiro do óleo, da graxa, do suor e da certeza do amanhã sempre igual. trazia consigo suas cervejas e as tomava em frente à casa, sentado no torto banco de madeira feito por ele e por Francisco na época em que os dias da semana ainda eram diferentes uns dos outros, e que Francisco ainda era tão cedo que demoraria a tornar-se um jovem. aqueles mesmos cínicos de vida que viam o vazio em João, diriam que o pai de Francisco simplesmente gostava de cerveja quente. acontece que o próprio Francisco, no fim da época em que ouvia histórias por ainda desconhecer algumas, acabou ouvindo de alguém a história do pai de alguém que bebia cerveja quente não por prazer, mas por já ter esquecido de viver há muitos anos atrás. dizem que foi nessa hora que, mais do que perceber o destino de seu pai e de todos os pais de todos os filhos, Francisco se viu preso por entre tantos caminhos diferentes que, de forma ou outra, acabam sendo o mesmo caminho para o mesmo pai triste de cerveja quente que todo filho tem e será. nesse dia, contam que Francisco ouviu, se levantou, e andando entendeu que o vazio de todo pai apenas tarda.
por fim, Francisco passou. ainda tinha um resquício de juventude no jeito de fazer as coisas que sempre fez. tudo aconteceu de maneira discreta. quando aqueles que ouviram as histórias dos que ouviam as histórias de Francisco ficaram sabendo, Francisco já havia quase sido esquecido. as histórias que contava pra aprender o pouco que ainda precisava aprender acabaram se misturando com todas as outras histórias que ele acabou por não conhecer. contam que nunca chegou a saber que não havia mais nada que não soubesse ou conhecesse ou entendesse da sempre diferente e mesma repetição, e por isso presumem que tenha sido o homem mais completo de que se tem vestígios em lembranças.
certo dia encontraram Francisco sentado em uma cadeira, muitos anos depois de sua ida ter sido esquecida. tinha um olhar lindo, e não era possível saber se buscava ou deixava sair alguma coisa por aquelas janelas de casa sem janelas. os que passavam por ele olhavam com a vista turva do esquecimento. "ele não parece com alguém?", perguntavam alguns homens que um dia foram jovens com tempo demais pra pensar na morte. contam que, certo dia, uma senhora parou ao seu lado, e percebendo Francisco por entre pássaros, cachorros e crianças inocentes do tempo, juntou algumas histórias na cabeça e contou sua vida ao homem de olhar perdido. chorou, não pelas dúvidas e certezas do fim, mas pela passividade daqueles olhos lindos que tão bem pareciam ouvir àqueles aflitos sem voz.
dos que ainda lembram dos que sabiam da história de Francisco, alguns realmente acreditam que ele gostava de contar histórias, e os olhos que tinha, lindos como menina morena de cabelo preso no topo da cabeça, não poderiam nunca negar. os outros, que ficaram sabendo do fim discreto de Francisco pelo seu pai de cervejas quentes, não acreditam que seja possível ser o Francisco sentando na varanda de uma casa sem janelas, tomado de animais e com um olhar que parece eternamente buscar. por fim, acabou-se acreditando que, independente quem fosse ou quantas vezes fosse, Francisco, o de verdade, gostava mesmo era de ouvir histórias
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