segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

vamos nos jogar onde já caímos

só te agradeço, meu irmão. fica na boa.

paulinho moska - tudo novo de novo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A casa de nossa Vó

Na casa de nossa vó tudo foi feito aqui, na cidade mesmo. Telhas, tijolos, grama, mangueira. De fora, talvez só a poeira e algumas outras saudades. Saudades nossas, não dela. Vendo bem, até as saudades que tenho dela, inventadas lá longe, ao sul de minha infância, acabam sendo daqui. Uma casa original, dela e da cidade, sem saber qual pertence a quem primeiro. Talvez por vó ser daquelas que termina a vida indo de um jeito que fica pra sempre. Por conta disso é, e não foi. Ainda lava sua roupa, frita ovos, esquece nomes junto das chaves, caixas e cartas que um dia devem ter sido tão esperadas. A dor da morte deixou com a gente, de esperta e inocente que sempre foi, dessa traquinagem que ainda leva no olhar.
Falo dela como quem entra em um quarto depois de muito tempo, ou sente só o rabo de algum cheiro que foi guardado apenas como cheiro, sem imagem ou som ou qualquer outro sentido em forma de memória.  Vou lidando com estranhamentos, aceitando essas sensações esquisitas que as coisas já esquecidas dão bem no meio da nossa cabeça. Talvez seja a incompetência que me leva os ouvidos, pega meus olhos desatentos que toda alma tem e assim me abre o peito pro universo de coisas que pode ser fantasiada. Sinto os sinos da igreja da Rua 5, vultos por entre portas encostadas, e tudo parece verdade. Nunca fui bom em nada, e de vez em quando as coisas me convencem disso mesmo: só comum e desinteressado. Sempre incompleto demais, tendo de encarar tudo de ordinário que vai e não sai de minhas mãos e unhas e intenções de meio de estrada. Almejo sempre pouco, e ainda assim acaba não dando. Não por nada não, como dizem as pessoas daqui, mas por simplesmente não poder dar.
Deve ser por isso gosto tanto dessas ruas. O cigarro serve só pra passar o tempo, o sol pra secar as roupas sempre tão lavadas e as vontades que acabam ficando sempre pela sombra numa cidade iluminada de sol e calor e toda essa coisa que aperta bem o meio da minha cabeça. A vida aqui passa, numa redoma onde a constância predomina, sem poder ser eterna, sem poder ser percebida ou medida ou qualquer coisa que não seja passar num ritmo sempre engraçado. A cada hora o tempo parece roubar cinco minutos, como se o encarregado da passagem não gostasse dos badalos quem anunciam o fim eterno de uma hora e o começo promissor de outra, e por conta disso avançasse sempre o ponteiro do relógio cinco minutos, evitando o soar dos sinos e distorcendo as horas que há muito tempo devem ser sobrepostas.
Meu vínculo com essa terra de vales vem de minha mãe, que sabe de tudo isso desde sempre. Percebeu numa sabedoria surpreendente, calada. Sonho comigo que quando encontrar seus olhos de esperança de novo, antes mesmo de desfazer minha mala e lhe entregar todos os abraços endereçados a ela, a gente vai se entender numa cumplicidade própria daqui, que ninguém nunca vai poder entender, que vai ser só nosso. Aos outros um simples jeito de quem é de fora, a nós os traços de quem não pode ser de outro lugar. Na sala da casa de minha mãe, por entre seus anjos e cristais e todos os artefatos que materializaram suas saudades, tem um canto de cômodo, com sua mesa de canto de cômodo, com sua foto de minha mãe cheia desse mesmo olhar que descobri só aqui. Moça, forte, sorridente, assim como ainda é hoje. Um pouco chagada da vida, do peso dos filhos e da vida que já foi tantas. Foi minha tia que sempre me desvendou essa mulher do retrato, que me contou seus sonhos, seus passos retos de tropeços que abriram meu caminho ao que somos hoje, eu e meu irmão, iguais no silêncio assim como são todos os irmãos, assim como minha tia também é a foto de minha mãe,moças, fortes e sorridentes, chagadas e iguais em seus sorrisos de cerveja.
Aqui o sol queima, o ritmo cala, e tem essa alguma coisa que mexe no olhar da gente, que muda nosso jeito pra sempre assim que pegamos nossa passagem de volta no guichê da rodoviária. A atendente percebe, e não diz nada não por não querer, mas por acreditar que essa cratera no olhar é coisa que todo mundo sabe, entendimento popular, tipo um prato típico, um significado de sonho. Vó sabe, tia sabe, meu primo tenta até explicar, mas não sei. Talvez o olhar de minha mãe responda, clareie, faça tudo simples como as brincadeiras da menina da casa do lado, casa séria de menina feliz, grades altas que viram brinquedos nessa menina que olha rápido e some de repente, sem respeitar nenhuma ordem dessa casa séria que deve ter um punhado de horários.
Nossa vó pendura umas roupas no varal, olha de canto e some pra dentro de casa. Acho que me conta que o centro da cidade é chamado de “rua”. Até tem seu próprio trânsito, suas buzinas, seu ritmo de meio tarde, seus ônibus de fim de expediente de portas de lojas pequenas sendo trancadas e não conferidas. Nunca vi ninguém conferir nada por aqui. Ainda assim, os rostos são os mesmos, a cadência por pouco é vista lenta e com um pra sempre engraçado, e os ônibus são tão pontuais como o sol indo embora, trazendo cadeiras de praia e senhoras e senhores e crianças de banho tomado, sentadas em suas calçadas mornas, transpirando o suor do asfalto que é pra sempre tão quente demais, refugiado nas sombras dos postes, por de baixo das calçadas meladas de flores e de senhoras e senhores e crianças que já precisam entrar pra tomar outro banho. 
A água daqui esquenta no copo, as lagartixas correm de sombra em sombra, e todos só me riem e dizem que hoje ainda tá ventando e que tem dia que tudo fica tão quente que não dá nem pra perceber o tempo e fica até parecendo que esse moço que cuida pros dias irem e voltarem fica meio preguiçoso e então a gente fuma pro tempo passar e joga uma água no asfalto e ele evapora de um jeito engraçado assim que fica até parecendo que ele fuma também e fica amigo da gente e quando a gente vê parece mesmo que a noite chegou mais depressa. E penso que hoje ainda tá ventando, e já não sei mais se sou eu ou eles ou a mesma mistura.
Parece que as pessoas daqui não existem. Todas as vezes que vim pra cá era fim de ano, de escolas fechadas e praias e casas de parentes de outras cidades abarrotadas. Acho que só eu venho pra cá nesses dias engraçados. Vejo uma cidade, sinto outra, e ouço ainda uma que não se encaixa muito bem entre as outras duas. Acabo fazendo da terra da casa de nossa vó uma cidade que é impossível de existir, por ter sido feita muito pouco do que vejo de meus olhos de adulto, e sim da miscelânea maluca e sem sentido da cidade que só sabe existir quando não estou por aqui, e que meu primo afirma ser diferente dessa que vem das lembranças quando sinto o cheiro de flores nos raros dias de calor lá do sul, quando entro em algum ônibus que entra estrada afora, quando embarco em aviões que me deixam apavorado demais e com tempo de menos pra pensar que aqui talvez não exista mesmo, e os sinos que tocam da igreja da Rua 5, de hora em hora, devem ser meu despertador da vida real, ao lado de minha cama de solteiro do quarto que ainda divido com meu irmão e que meu irmão divide comigo e com o amor de minha vida. Por fim, a dor no meio de minha cabeça chega mansa e fuscas estacionam por sobre as calçadas pra não estreitar as ruas já meio estreitas.
Poucos parecem se arriscar até a rua entre qualquer hora do dia que não seja uma das horas da noite. Talvez na rua seja diferente, mas aqui, no bairro de minha vó, são realmente poucos os mulatos sem camisa que passam pelo asfalto de pele quente, descrentes do alívio efêmero nas poucas sombras de árvores que blindam o sol contra minha pele virgem. Devem ter deixado de se queixar disso tudo há muito tempo, e agora calam e alguns trabalham e a maior parte fica dentro de suas casas de janelas lindas e sempre abertas na esperança de que haja uma brisa que carregue o tempo amorfo, que traga de quebra a noite que revigora e que é carnaval e catarse toda santa noite de cadeiras de praia e espera até que chegue a hora da novela que começou na semana passada e que já conquistou toda a rua e os vizinhos das ruas de cima e das ruas de baixo.
Nos bares a cerveja é mais barata que no sul, e talvez seja isso pela ausência da alegria das cervejas daqui durante o processo de fermentação e mistura dos demais ingredientes. Por aqui não se fica bêbado de cerveja. Parece mesmo que só a cachaça salva, a melosa que dá fluidez nessa vida estancada. Não é possível beber devagar e muito menos sozinho, já que a garrafa esquenta rápido demais e a cerveja meio gelada é enlaçada na dança dos copos mornos que encontram as mãos dos mulatos sem camisa. Rodadas e mais rodadas de garrafas que enchem sempre um copo de vários, infiéis e fadadas a várias sedes insaciáveis que nunca serão saciadas, já que o dono do bar Onze fica com calor demais, baixa suas portas e vai pra sua casa que fica logo nos fundos com as janelas encostadas. Fuma vendo um pouco menos da metade da novela, até que chega a hora de ir dormir, que nunca chega cedo ou fresca, e no caminho que é marcado pelo levantar do sofá, o dedo no botão da televisão e a caminhada pelo curto corredor que liga a sala ao quarto, se arrepende e decide levantar as portas do bar, e os mulatos sem camisa guardam suas cadeiras de praia em casa, e quase inconscientemente formam grupos de quatro pessoas, pegam seus copos sempre os mesmos e tomam mais alguns primeiros copos de outras várias garrafas infiéis.
Nesse montar de imagens, sinto falta de alguns punhados de grama nos quintais das casas que por aqui sempre tem quintais. Havia pés de carambola e minha sina de nunca ter gostado de carambolas, apenas dos mosquitinhos pretos que viviam entre folhas e frutas e que chamávamos de leopoldos, dóceis de serem pegos nos dedos, admirados, pousados sempre em todo meu corpo e no corpo de meu primo, onde o vencedor tinha sempre um ou dois bichinhos a mais pousados em braços e pernas. Hoje penso que nunca percebemos os leopoldos emaranhados em nossos cabelos, que até pouco tempo atrás me davam comichões na cabeça enquanto se desprendiam de minhas lembranças e voltavam voando para o pé de carambola que já não existia mais. Quem de nós dois realmente ganhava nossa disputa por leopoldos? Sem saber ando olhando o topo de qualquer árvore pra ver se encontro qual delas virou o pé de carambola da casa de nossa vó.
Acho que naqueles tempos via tudo melhor, as coisas como realmente eram, sem fantasia, sentindo mesmo a água da torneira mais gelada que agora. Havia menos formigas, grandes e vermelhas e pretas e pequenas que hoje não me incomodam tanto assim. Talvez por conta do meu esforço de criança, armado de dedos e chinelos e pés descalços atrás de qualquer ponto meio imóvel, tardes e tardes de guerras intermináveis, armisticiadas apenas nos dias de futebol na rua. Hoje elas me sobem, me coçam, e desconfio até que algumas poucas me mordam, enquanto passivo, assim como criança que desejou ser sempre criança, vejo tudo de um jeito infantil, percebo esse raro começo de tarde nublado e sei que não vai chover por que só sei inventar e assim brinco que o sol escondido logo vai evaporar todas essas nuvens que são resquícios de outro raro dia nublado e assim as nuvens acabam se tornando outras nuvens que já foram muitas outras tantas vezes. Talvez agora sejam apenas algodão ou tufos de qualquer outra coisa branca e intocável, ignoradas por que o amarelo do sol deixa o céu sempre azul demais e machuca os olhos dos senhores e senhoras e meninas lentas e graciosas que já há muito não levantam os olhos, há muito não buscam os pedaços de alma flutuantes que não tem muita utilidade e que não se sabe se é a terra que gira ou elas que caminham do jeito devagar que se caminha por aqui.
Hoje choveu, e o cheiro que as coisas soltam pra saudar a chuva provavelmente vai impregnar tudo por tempo demais, tanto na rua como aqui dentro de minhas lembranças. É engraçado ver tudo molhado, meio impossível, meio fantástico. Tudo ganha outro aspecto, outro jeito de parecer. As pessoas já não são as mesmas, e a tensão de que tudo volte ao normal parece eminente, parece certa demais pra qualquer idéia vaga de esperança, de que tudo seja do jeito que não deva ser. Acho que os sonhos secos de antes se manifestam nessas horas, todos ao mesmo tempo e extremamente claros aos olhos das pessoas, que se enxergam e não entendem que diabos há no olhar de todas essas pessoas paradas, olhando pra cima, redescobrindo o céu, redescobrindo todos os jeitos e formas que já foram e ficaram deixadas há tempo demais, idéias que chegam com aquela dor bem no meio da cabeça que é comum pra todo mundo, que não precisa ser explicada e é passível apenas da junção da surpresa com o incerto do fim da chuva, do frescor do asfalto e dos corrimões e dos capôs dos carros fechados que mantém por dentro o calor amorfo em saudades e maneiras, ainda que o lado de fora pareça úmido e gracioso e diferente. Os carros daqui são exatamente como as pessoas.
Sempre acreditei que se caso encontrasse meus chinelos, batesse o cadeado no portão que precisa sempre de um empurrão um pouco firme – na verdade não chega a ser firme, e assim é quase uma forma sutil de força -, e fosse subindo a rua até quase a esquina, chegaria à casa de azulejos azul escuro, eternizados pelos primeiros desenhos de nossas brincadeiras quase inocentes de tão leves que pareciam ser. Agora pareço perceber que essa lembrança é uma daquelas desprovidas de sentido. Não pode ser vista, nem ouvida, não tem cheiro de perfume doce e nem textura de pele no verão. Chego a duvidar até que existiu, de tão transparente e inodora e não fria e nem quente que é. Talvez seja um estímulo de sorriso, a eclosão da primeira borboleta dos milhares de borboletas que de vez em quando inundam nossos estômagos. Não sei. Algo que realmente não exista e que esteja longe de qualquer conceito de realidade e decência, algo dividido que seja apenas de um, injustamente indivisível nessa metade, dignamente do peito e do meio da cabeça de quem acredita que o que não tem forma possa realmente ter existido. Dessa forma, ou de qualquer outro jeito que possa ser explicado, dentro de corpo e mente incompletas de quase homem que sou, sinto o pique esconde, a nossa fidelidade de baixo da rampa da tua casa, silêncio que se preciso seria eterno, guardiões que fomos da nossa fortaleza cúmplice, da nossa certeza um no outro de que sairíamos dali apenas na hora certa, na disparada de criança que aprende a disparar por razões inatas, e assim seria por que assim precisava ser, não havia jeito, nem fuga, nem nada que pudéssemos fazer para que todos aqueles pares de segundos não fossem eternos nessa cidade que não comporta eternidade e só sabe ser passageiramente pra sempre na vida de quem volta em busca de concretizar resquícios, de cimentar a fluidez das sensações, de construir algo tão daqui como todas as casas, erguendo muros de segurança em nosso peito tão repleto de certezas não tão boas quanto os olhos que julgo serem os seus, que obrigo a serem os seus antes mesmo de te ver descendo a rua todas as noites, nessa espera ancorada no banco de madeira de nossa vó, de garrafas de cerveja de apenas um copo que acabam sendo só minhas, minhas e de mais ninguém, assim como você me é sem mesmo saber, sem mesmo que eu saiba se foi você, se tudo isso foi com você ou com a antiga dona dessa casa de azulejos azuis que acabou confundindo a cabeça de todos os senhores e senhoras e crianças que não sabem quando precisarão tomar outro banho. Tudo pode ter mudado há tempo demais e ainda assim ter sido ontem, incerto e de qualquer forma de uma verdade acreditada.
Hoje, no ponto de ônibus, senti de novo o peso dos seus olhos outra vez, e como quem acende a luz do quarto em noite sem lua, você brilhou.
Não sei de ninguém. A gente sempre precisa correr pra longe se quer chegar até nosso deus, que parece tanto com essa sombra da gente no asfalto. Creio que grande parte daquelas pessoas já tenha ido embora, e nesse meio alguns resolveram mesmo morrer de vez, sem jeito ou chance, assim certeiros. Pra mim é mais esquisito lidar com os novos telhados dos vizinhos, com a insegurança que substitui a confiança nos rostos e sorrisos antes tão amigos. Alguns poucos me abraçam e se enchem os olhos de lágrimas que não sei há quanto tempo estavam ali guardadas, por saudade de antes, por lapso de consciência que faz a mesmice daqui parecer mesmo diferente, meio incerta. Será que faz tanto tempo assim?, percebo por de trás de minhas máscaras, e não grito e só escrevo que já faz tempo demais mesmo e que o telhado novo da casa do lado não combina com o telhado antigo dessa redoma que é a Rua 2 de dentro de mim.
Uma tristeza, daquelas bem azuis, pega a gente pelo pé desde a hora que a gente acorda. Ajuda a arrumar o travesseiro e esticar a colcha nessa terra de sem cobertas. As formigas são parte de tudo, e qualquer que seja o pensamento bonito que passe correndo bem no meio da nossa cabeça, um punhado de borboletas começa a aparecer pelo quintal. Sempre amarelinhas e com a borda das asas pretas, borda essa tão fina que lembro dos teus olhos maquiados, castanhas envoltas da borda dessas borboletas do pensamento bonito. Logo a tristeza volta, do céu nublado dessas nuvens que talvez não saibam que já foram e serão apenas outras nuvens, destino esse tão parecido com o nosso. Diferente talvez só as formigas, de por tudo, de pelo cimento da casa de nossa vó e toda a terra vermelha e nossas roupas e paredes. São mesmo tão presentes como essa tristeza de por todo lugar, que não quer fazer nada a ninguém, mas é de um azul tão triste que vai deixando a gente triste, até que já não se sabe mais quem começou com todo esse silêncio primeiro.
Creio que a cidade me expulsa. Nada de maldade, longe disso. É como se não desse mais tempo, e pronto. Talvez pelo ciúme que essas ruas têm das ruas que ficaram imunes ao tempo, guardadas em mim e que, agora, parecem tão intactas, até mais impossíveis do que antes, como se recordar não fosse uma opção. Tem chovido tanto nesses últimos dias, e as formigas parecem mais zangadas, inquietas. O sol acha brechas nas nuvens e denuncia o trabalho das aranhas, antes imóveis, impressionadas com o vento que nunca não soprava e que agora derruba roupas dos varais no chão molhado. Talvez seja essa a cidade de meu primo, onde as lagartixas me dão as costas e ficam paradas longe das sombras, sempre às vistas, sonhando com borboletas que tanto voam por aqui, procurando os traços de minhas marcas de saudades, agora tão certas que poderiam até ser invisíveis e indeléveis, sem meio termo. Aqui se vê que as coisas todas já aconteceram há tempo demais, e.
Alguns poucos ainda descem de suas motos, param de frente ao portão de nossa vó pra me dar, sem perceber, talvez suas maiores riquezas, talvez a maior sinceridade em alegria e cumprimento, polegar em riste, dentes em sorriso, sem que eu perceba que já até respondi, achando graça em ainda não ser nem sexta-feira, amor, não ser nem dia de simpatia. Quem sabe aqui seja sempre sexta-feira, dia de bloco na rua, carnaval de cidade pequena, tristeza de gente grande. Parece que já me despedi das pessoas, da cidade que é essas pessoas, e posso até antecipar minha passagem de daqui uns dias, sair na hora da novela, passarinho recolhidos, e tá tudo certo. Ainda tem uns dias, fala minha tia, brinca meu primo, olha nossa vó. Parece ser saudade de casa, saudade do amor de minha vida, mas é essa coisa da moça do guichê da rodoviária. Preciso dos olhos de minha mãe, da fotografia do móvel de canto de cômodo, da minha tia que até fora da foto é tanto minha mãe. Vou esperar, ir pra casa sabendo que meu lugar é aqui, que minha volta já tava certa antes do dia que fiquei bêbado e lembrei da menina que dividiu meu primeiro amor comigo, do susto dessas lembranças não terem mais forma, nem gosto ou cheiro, e serem só essa vontade de sentar na mesa de mármore do quintal de nossa vó, silenciar, cumprimentar a rua recortada no portão enferrujado. Volto pra casa ficando aqui, levando esse olhar de cratera, essa saudade, esses alguns leopoldos emaranhados em minha barba emaranhada. Minto. Volto pro sul. Minha casa é aqui. Minha vida é Cachoeiro.


Cícero e Sérgio Sampaio, graças às suas músicas com som de sonho.
Para Edna, Sandra e Pablo: minhas mães e irmão. E nossa Vó.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Francisco, o Homem

gostava de contar histórias, mas nem por isso falava demais. foi tão discreto enquanto foi que não se sabe se sempre foi ou por mania recente tomou gosto em passar despercebido. usava sempre as mesmas roupas. tantas vezes usou sempre as mesmas roupas que era difícil saber o que era roupa e o que era Francisco. não sabia mesmo era ouvir as histórias dos outros. só ele sabia que, na verdade, não gostava de ouvir as histórias dos outros. outros estes que, ainda assim, confiavam à Francisco os raros dias vividos em suas vidas de dias passados, de recalques e conformismos, não importando a ordem que tomassem recalques e conformismos nas histórias de seus dias vividos. vidas de dias tão raros entre seus vários dias apenas passados. talvez fosse por conta do olhar de Francisco, sempre tão cheio de suas mesmas roupas de sempre. o sempre passa confiança, assegura a intenção. contam que foi por conta disso que Francisco sempre sentiu muita saudade de tudo que fosse passível de sentir saudade. jogou fora suas fotos por não gostar da saudade que tinha de sua inocência do passado, da inocência que todo passado sempre tem quando comparado com as coisas que estão sempre por passar e não passam. dizem que gostava mesmo era de contar histórias.

quando era mais jovem aprendeu tudo que precisava. o destino lhe afastou das pessoas que trazem consigo os segredos da vida e do tempo, e não tomando conta da dimensão que as coisas tem por de trás dos muros, entendeu o mundo inteiro e todas as partes desse seu mundo inteiro ainda jovem. as pessoas, sendo elas mundo e parte do mundo ao mesmo tempo, foram também ficando iguais para Francisco mais ou menos nessa mesma época. estes foram dias em que Francisco ainda era um jovem um pouco mais velho, e para as pessoas que conheceram as pessoas que conheciam a história de Francisco, foram nessas manhãs tardes e noites que sua vida transparente foi mais radiante.

contam que foi quase um conformado, quase um paciente. antes realmente gostava de ouvir as histórias dos outros e dos outros tantos que acontecem por aí afora nesse mundo. sentava e levantava e andava, e da forma que lhe parecesse melhor, ouvia tudo que poderia ser ouvido. depois que as pessoas e as coisas começaram a se mostrar iguais, e até hoje não se sabe ao certo quando foi que isso aconteceu, Francisco entendeu que apenas contando todas as histórias que conhecia poderia encontrar qual história era diferente das demais, qual história não era uma e todas as outras ao mesmo tempo; história que fosse, por fim, tão discreta e despercebida quanto Francisco, digno de passar em branco frente a um espelho que tudo sempre mostra.

percebeu a intenção das vozes com facilidade, e julgou desconhecer apenas as coisas que lhe travavam a garganta de borboletas: era uma espécie de presságio, uma coisa incrível como joaninha no braço que torna um dia comum em um raro dia comum de joaninha no braço. a voz se dissipava por conta das alvoroçadas asas entre a laringe e a epiglote de Francisco. quem testemunhava sua reação de descoberta em uma vida há tempo o bastante entendida, lembrava logo da criança da família que toda família tem, que vê sentido em tudo que parece sem sentido na vida criança de descobertas. contam que quem tudo isso via e ouvia passava a acreditar que Francisco, da mesma forma como contavam algumas pessoas desacreditadas por já terem visto o impossível gaguejar de borboletas, ficava quieto de repente; tão de repente que todas as coisas pareciam ter sempre estado no mesmo lugar de sempre, como se o lugar de sempre fosse o único lugar que pudessem ter estado por todo o tempo. por fim, Francisco sempre parecia longe demais para voltar a tempo de terminar a história, e de olhos serenos e rosto distante, não percebia a movimentação de chapéis postos e passos rumados de todos que ouviam os fatos de suas próprias vidas metamorfoseados na vida dos outros. assim, compreensivos de que o moço se calara por que assim precisava ser aquela história, iam embora em uma plenitude cruel e passageira. contam que o espanto vinha quatro noites e três tardes depois, onde a volta do entendimento pleno à realidade causava as mais estranhas reações nos que testemunhavam o que não podia ser verdade.

os cínicos de olhar explicavam, frente aos depoimentos atropelados dos loucos e santos, que esse gaguejar de Francisco era apenas o choro de homem bom, decorrente da pedra, que entre todas as pedras que engolimos, é sempre a única que consegue entrar na fenda sincera das lágrimas, sempre por uma essa pedra de transbordar o copo cheio de nossas almas. Francisco, porém, nunca chorou. dizem que certa vez admitiu não lembrar de ter chorado. como não sabia qual o peso de uma lágrima, confundiam seus olhos curiosos frente à quem chorava, com olhos de caridade e compaixão, e sem querer, pela primeira vez, não percebeu que durante a vida foi para os outros tudo que na verdade não foi, assim como de fato acaba acontecendo com todas as outras pessoas. acreditam, porém, que não foi dali que percebeu a vida já vivida muito antes do pé ser posto pra fora de casa, de histórias dos outros resultantes de um simples apanhado da vida de outros desconhecidos, unidos pela obrigação de serem a mesma pessoa, sempre tão diferentes uns dos outros, sempre tão iguais frente aos olhos de Francisco.

se aprender era contar histórias, contava e contava na esperança de se encontrar, despercebido e discreto como sempre foi na vida das outras pessoas, tão pessoas como ele e todos os marcelos, henriques, luizes, cristianos e fernandos, sempre tão a mesma pessoa. dizem que nessa época Francisco ainda não tinha a plena certeza que se tem da morte e da repetição de que todas as histórias são as mesmas histórias, e talvez por isso desfrutava a emoção das borboletas na garganta como se encontrasse arco íris nos céus das cidades de chuva e sol.

Francisco ignorava o fato de ser tudo que era por nunca ter quisto ser nada. conformou-se com a obrigação da existência e da efemeridade, e nunca culpou seus pais, os pais de seus pais, as doenças, os acasos, as cascas maduras das frutas verdes, as joaninhas desinteressadas, os carros, os sinais vermelhos, os sonhos quase esquecidos, as comidas estragadas, a chuva, o relento, o cansaço, o caco de vidro, o pé descalço, a barba, o fim sem aviso. tudo era por assim ser, e como novo usuário das regras, se acostumou desde quase sempre a ir conforme as coisas pedem. acreditam que isso aconteceu justo naqueles tempos de vida em que a juventude traça rasas linhas de saudade em tudo que se vê, tão suaves a ponto de não marcarem a próxima página, branca do alvo da alma, do grafite dos dias cimentados de passado, concretos que são na falta que nos fazem. pode ser que Francisco tenha sido jovem por mais tempo que o comumente se é.

contam que Francisco de verdade só houve um. os demais foram e serão franciscos por adjetivo. certo João foi um tipo de gente vítima da logística universal. acabou nascendo sem a atenção, característica inata do corpo humano controlada de dentro dos olhos por recém nascidos ainda não nascidos. sem rebentos oculares, paridos antes da hora por erro dos céus, João olhava sempre para a mesma direção. não importava pra qual lado lhe virassem a cabeça, sempre parecia procurar alguma coisa que não podia ser achada. não falava, não respondia. poucos sabiam como aparecia sentado em sua varanda e em que horas desaparecia na sua casa sem janelas. mesmo que os mais cínicos de outrora o achassem vazio, como de fato realmente era, a fé daqueles que acordam cedo todo o dia falava mais alto, tornando João, de ser vazio à persistente na incansável busca da atenção perdida de seus olhos. conta a história que quem conta essa história, exatamente nessa hora, olha para o nada e pensa nos olhos de João, lindos de tal jeito que ser joão passou a ser sinônimo da beleza que toda menina morena tem de cabelo preso no topo da cabeça.

certo dia um rapaz, daqueles que acredita que o tempo só passa para os outros, viu nos olhos de João com a cara dos olhos de Francisco - personagem conhecido na época por todo o centro da cidade como "aquele um de Deus que já não é mais jovem e ouve os aflitos sem voz". de curiosidade atenta e assustada frente ao olhar perdido de João, o rapaz, não se sabe se do susto ou da curiosidade que extrapola, sentenciou-o de risada temerosa e dedo em riste: "francisco!", da mesma forma que alguém chama outro alguém de qualquer coisa que lhe defina. o "francisco!", dito com o timbre de voz daqueles rapazes que tem todo o tempo do mundo pra não pensar na morte, realmente era de verdade. dizem que aquele rapaz viu, pela primeira vez, como João era francisco de olhos, sempre eternos e presentes, calmos e portuários. esse mesmo rapaz acabou nunca sabendo que João não o percebeu naquela hora e nem em hora nenhuma das outras horas de sua vida, assim como acabou nunca percebendo nada nem ninguém por conta dos seus olhos órfãos de recém nascidos não nascidos. a falta da atenção dos olhos de João o tornou um espectador da vida, sempre sentado em sua cadeira desde cedo até tarde, sendo sempre vazio para os cínicos e lindo para os de fé. foi daqui que perpetuou-se o erro de que João era Francisco de nascença ao invés de ser simples francisco de olhar. os que ouviram o rapaz sentenciar João de "francisco!" apenas de olhos, acabaram achando que João era Francisco de nome. as pessoas talvez também aceitassem a vida como um conjunto imutável de fatos imutáveis, e por conta disso, mesmo os que sabiam que João não era Francisco, acabaram aceitando a ordem das coisas e passaram a chamá-lo de Francisco de nome e não de olhos. João foi o único, contam até que por indenização divina pela falta de atenção no olhar, a ter os olhos mais joão que se teve notícia, e ser o único Francisco de nome mesmo que de fato não o fosse.

João passou assim todos os seus dias, sem ninguém nunca ter tido certeza se de fato percebia alguma coisa. contam que os mais diversos bichos, e até algumas crianças imunes da maldade do tempo, gostavam de chegar perto de João, sentado sempre em sua cadeira eterna que lhe confortou a vida. passou seus dias de ombros tomados de pássaros e pernas ancoradas de cachorros, sempre tão dóceis e completos à volta do olhar vazio de João. contam que sempre foi assim, e o espanto pelo fantástico foi tomado pela aceitação de que as coisas são assim.

Francisco, o de verdade, nunca teve nada. foi, mas no máximo imagina-se tudo que talvez tenha sido. provavelmente todos os Franciscos que foi na vida não eram nem de perto agradáveis para seus desejos de homem humano. porém, aceitava o ritmo e seguia. dizem os mais velhos que o pai de Francisco não gostava de cerveja gelada. nunca se soube se chegava em casa no fim da tarde ou no começo da noite, carregando na alma o cansaço do dia e o peso do cheiro do óleo, da graxa, do suor e da certeza do amanhã sempre igual. trazia consigo suas cervejas e as tomava em frente à casa, sentado no torto banco de madeira feito por ele e por Francisco na época em que os dias da semana ainda eram diferentes uns dos outros, e que Francisco ainda era tão cedo que demoraria a tornar-se um jovem. aqueles mesmos cínicos de vida que viam o vazio em João, diriam que o pai de Francisco simplesmente gostava de cerveja quente. acontece que o próprio Francisco, no fim da época em que ouvia histórias por ainda desconhecer algumas, acabou ouvindo de alguém a história do pai de alguém que bebia cerveja quente não por prazer, mas por já ter esquecido de viver há muitos anos atrás. dizem que foi nessa hora que, mais do que perceber o destino de seu pai e de todos os pais de todos os filhos, Francisco se viu preso por entre tantos caminhos diferentes que, de forma ou outra, acabam sendo o mesmo caminho para o mesmo pai triste de cerveja quente que todo filho tem e será. nesse dia, contam que Francisco ouviu, se levantou, e andando entendeu que o vazio de todo pai apenas tarda.

por fim, Francisco passou. ainda tinha um resquício de juventude no jeito de fazer as coisas que sempre fez. tudo aconteceu de maneira discreta. quando aqueles que ouviram as histórias dos que ouviam as histórias de Francisco ficaram sabendo, Francisco já havia quase sido esquecido. as histórias que contava pra aprender o pouco que ainda precisava aprender acabaram se misturando com todas as outras histórias que ele acabou por não conhecer. contam que nunca chegou a saber que não havia mais nada que não soubesse ou conhecesse ou entendesse da sempre diferente e mesma repetição, e por isso presumem que tenha sido o homem mais completo de que se tem vestígios em lembranças.

certo dia encontraram Francisco sentado em uma cadeira, muitos anos depois de sua ida ter sido esquecida. tinha um olhar lindo, e não era possível saber se buscava ou deixava sair alguma coisa por aquelas janelas de casa sem janelas. os que passavam por ele olhavam com a vista turva do esquecimento. "ele não parece com alguém?", perguntavam alguns homens que um dia foram jovens com tempo demais pra pensar na morte. contam que, certo dia, uma senhora parou ao seu lado, e percebendo Francisco por entre pássaros, cachorros e crianças inocentes do tempo, juntou algumas histórias na cabeça e contou sua vida ao homem de olhar perdido. chorou, não pelas dúvidas e certezas do fim, mas pela passividade daqueles olhos lindos que tão bem pareciam ouvir àqueles aflitos sem voz.

dos que ainda lembram dos que sabiam da história de Francisco, alguns realmente acreditam que ele gostava de contar histórias, e os olhos que tinha, lindos como menina morena de cabelo preso no topo da cabeça, não poderiam nunca negar. os outros, que ficaram sabendo do fim discreto de Francisco pelo seu pai de cervejas quentes, não acreditam que seja possível ser o Francisco sentando na varanda de uma casa sem janelas, tomado de animais e com um olhar que parece eternamente buscar. por fim, acabou-se acreditando que, independente quem fosse ou quantas vezes fosse, Francisco, o de verdade, gostava mesmo era de ouvir histórias

Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Nada incomum

fazia tempo, não fazia? acho que há uns meses parei perto do seu carro. tinha o adesivo do seu curso colado atrás. mas não foi nem por isso que lembrei de você. é que o carro tinha bem a sua cara. tô falando sério! sim, eu sei que podia ser outro carro igual, mas sei lá, é que eu também vi tanto sorriso igual por aí, até alguns outros olhos enormes como esses dois aí na sua cara, e hora nenhuma pensei serem os seus. sempre vinham como lembrança, mesmo que fossem de verdade. talvez até tenha te visto qualquer hora dessas, em um daqueles dias que a gente não consegue nem ser quem a gente é. talvez por isso acabei passando direto. parece até meio esquisito, parece não? estranha é você.

você tá igual cara. meu santo Deus, como é que alguém consegue ficar tanto tempo sendo assim, exatamente igual? parece até que você deixou de lado toda a vida pra viver pra sempre a imagem que consegui guardar, dentre todas as coisas que a gente vai nublando das lembranças, que o tempo vai apagando como bom amigo que é. só o seu sorriso que mudou um pouco. parece um pouco mais apressado. da correria do dia ou da insegurança que o fim do assunto vai trazendo. não sei. linda. insegura, apressadamente linda. 

eu? sim, sim, formado. bom, diplomado talvez seja a palavra. sério mesmo, aquela coisa de não ter muita certeza aparentemente era certa. foi bom, mas acho que acabou por aqui. e você, firme e forte? perdão, antes disso: vai fazer alguma coisa agora? sim, é pra lá mesmo. sei lá por que. só acho que as coisas de lá ainda estão lá, meio flutuandinho. não é esquisitice, cara. essas coisas todo mundo pensa, só não dão muito nome, ou acham engraçado e deixam pra lá. tá bom, vou parar de falar.

acabei não voltando tantas vezes como antes achava que voltaria. dificilmente cumpro as promessas do coração. na verdade é injusto cumprir as promessas dos meus eus de outros dias. eles que fiquem pra lá, revivendo eternamente as lembranças que bem quiserem. é muito cômodo deixar a vida pra mim, e gozarem das plenitudes caretas de outrora. acho sim que ela tem mesmo razão. essa coisa de ver as coisas do jeito que elas fingem não ser, fantasticamente extraordinárias, vai te deixando meio maluco, meio ausente. de qualquer forma, não preciso nem apertar os olhos pra ver de longe. sei que tudo vai estar igual. os insetos já recomeçam a coreografia da escalada de mãos e sapatilhas, as borboletas escolhem de longe os fios do teu cabelo pra apresentarem os novos passos desses tecidos acrobáticos maravilhosos do teu couro cabeludo. acho engraçado aquela tarde ter sido tão sincera como foi.

não foram muitas vezes. só naqueles dias que o ônibus para ali na lanchonete, um ponto pra trás. acho que naquela tarde alguém resolveu se arriscar naqueles sanduíches esquisitos, e ficou uma coisa de eternidade aquele dia. o ônibus arranca, e antes da segunda marcha já passei pelas duas curvas, apertei a campainha, dei boa tarde pro cobrador e encostei as costas e a alma na árvore de casca dura, de pele áspera como se fosse a das mãos de meu pai. gosto de terminar uns livros aqui também. não pela gente. mais pelo sossego mesmo. tanto que nesses dias quase não tem borboleta nem... tudo bem, vou parar de viajar. e você?

caralho. podia jurar que não passou nenhum dia desde aquela quinta-feira. é tudo igual. mais carros vermelhos do que pretos, o sol, a claridade do dia, teu cheiro, teu silêncio, teus dentes, a sua camisa amassada no ombro, seus três pulinhos e sorrisos que escondiam a calcinha branca na calça jeans apertada. você aí falando, segurando meu rosto apenas por alguns segundos antes de entregar esses olhos enormes nos prédios não tão enormes assim do outro lado da rua. se eu ainda tivesse aquela forma doida que te mostrei um dia, lembra?, de se desligar e só viver, seria tudo exatamente do mesmo jeito. acharia estranha a sensação de antecipar meu braço machucando seu pescoço, ter visto antes de você o bocejo do outro lado da rua que te faria bocejar cheia dessa tua meiguisse eterna. ignoraria tudo isso e daria os mesmos passos meus dados outrora por mim.

qui é isso, eu tô cansado também. levanta, vou contigo até seu carro. é que essa semana foi puxada, acabei ficando até mais tarde no bar. ah é!, esqueci de falar. faço uns bicos em um bar. umas vezes por semana só. vá lá qualquer dia. devo ser um garçom engraçado. leva ele junto. qual o nome dele mesmo? é um lugarzinho legal, volti meia pintam uns casais esquisitos. o que?, é verdade. vão uns caras esquisitos lá também, tem tudo a ver. tá legal, tá legal, ele deve ser gente boa. ele desceu aqui na frente um dia. deve ter estranhado eu ficar olhando. parece ser um cara legal. me diga uma coisa: como você alcança os pedais? ei, pare com essa história de tapa. apanhei a tarde toda já. brincadeira.

de vez em quando, bem de vez em quando, eu passava ali na sua rua. chegava na esquina e voltava. nem olhava pra sua casa. provavelmente fazia o caminho todo olhando pro chão, pra, se por acaso cruzasse com essa imensidão em olhos, não te desse o trabalho de conversar, botar qualquer conversa em dia, como hoje.

fique bem, então. sim, eu falo com o Cris. acho que no próximo fim de semana todo mundo tá livre. não, não tem problema. uma hora todo mundo se ajeita. sempre foi assim, é sempre assim. vai com calma, que eu quero entender nesse teu ir devagar como é que tudo isso funciona, que eu não confio muito nessas suas pernas curtas. tchau, e fique bem.

amie - damien rice

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

passado, presente


lembro do incômodo no nariz. te falava, te fazia questão  nos seus olhos que pareciam achar saber qual é que era o mistério de meu planeta, tão nosso que acabava sendo só e meu. lembro do meu bolso ficando vazio de minha mão, da lua que fica em volta da lua nas noites de lua cheia estampada logo no canto de seu dente cor de alma quase pura. deve ser por conta desse ar que vai ficando mais seco, desse ritmo que vai deixando a gente à cada chuva mais seco, mais só, mais cheio da gente e ponto. essas coisas de corpo mágico, infinito, porém sensível à qualquer coceira no nariz, ainda que coce justo frente à sua frente que tem cara de alívio, como aquele comichão que dá nas costas logo na beirada da porta quando o braço não chega, quando o outro braço não chega nem pelo outro lado. talvez seja como se o incômodo fosse mesmo pra sempre ser, até que de tanto ser estranho se tornasse parte, de repente, de susto mesmo, com a mesma realidade do teu rosto sobreposto ao meu em cada espelho que resolve nos mostrar-nos só pra mim, que também já é nós sabe-se lá desde quando, desde que dia que passei a sermos mais que apenas ser só.

é que tem tanta coisa por aí afora, nem que seja mesmo pra serem deixadas por aí, do lado da sua cabeceira despregada, naquele espaço entre o criado mudo e o guarda roupa onde ficam largados teus sapatos, que dá vontade mesmo de deixar tudo pra trás. tirar esse peso das responsabilidades das coisas que tão bem nos fazem, acabar indo de vez pra tudo que fica do lado de fora, que tão bem ficam jogadas meio ao lado de seus sapatos. é como se tivesse me esquecido, e agora, quando a saudade grita por qualquer pedaço de lembrança, não sei se pela insensibilidade dos olhos ou destreza do coração, vejo sem sentir o que antes chegava sem que perceber fosse preciso. confuso, mas até certo ponto ordenado. até acerto o jeito, mas não tem santo no pescoço que dê a hora, e assim acabo correndo de você pra chegar logo de vez em mim, mistura ímpar que nem nesse nosso passado inventado sabe me vir aos olhos fechados.

novos baianos - mistério do planeta

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ei! morena, veja só


Achei até que chegaria atrasado. Tinha me planejado, considerado os atrasos no trânsito e a elegância na falta de pontualidade que sempre me foi difícil manejar. Nunca soube esperar por nada ou por quem quer que fosse, e assim me dediquei desde cedo a aprender cada umas das horas do dia sem precisar ler os ponteiros, sem precisar de nada a não ser sempre saber tudo isso que aprendi. Sentia ser uma hora, percebia ter passado das três, enquanto das dez tinha apenas a saudade das tuas histórias, que assim chegava e me deitava à cama quase como um carinho de pai cansado. Por isso tentei tornar suportáveis todos os atrasos que enfrentei durante minha vida. De mãos nos bolsos ou de pernas cruzadas, esperava sem saber esperar. Sentia inútil todo o tempo que perdia me perguntando por que diabos eu não ia embora de uma vez. Podia muito bem deixar recado com o garçom, que de olhos congelados e flanela na mão limparia a mesa que a pouco foi de um homem que saiu deixando gorjeta, dizendo que um compromisso não o deixara esperar, e que sim, ligaria mais tarde para remarcar aquelas histórias da viagem. Esperei. Sempre esperei.

Pra espera também nunca achei remédio. Com o cardápio sob a mão direita, olho o relógio que comprei por parecer um daqueles herdados de pais que herdaram de pais. Lembro dos cafés e dos triângulos de guardanapo que tentaram me distrair, que tentavam me fazer, por um desses instantes atrevidos, não perceber os tons que as paredes ganhariam quando as portas atrás de mim você desbravasse, tirando os óculos na certeza de que aquele de costas era eu, sentado assim por não precisar dos olhos, não precisar sequer olhar de canto pra saber a força do teu sorriso na minha nuca de semblante sério, tão preocupada por te sentir os passos mais rápidos do que normalmente imaginava. Volto. Sempre volto e tento saber quanto tempo duram esses devaneios perdidos e destinados, e percebo a vida como troca eterna de olhares perdidos, de assim lançados ao acaso como palavras que se jogam atrás de ouvidos bem dispostos. Acabo. Suspiro. Espero.

Faço força pra lembrar de algum sonho. Esse costume sempre me pega os olhos emprestados. Tudo para que algumas poucas e estranhas histórias possam ser revistas por quem na verdade de nada lembra, e que acha que sente saber só a curiosidade que fica sempre um pouco mais menina quando a história perde o sentido e o final, interrompida de olhos abertos e com alguma coisa por ser vista. De qualquer que seja a forma, lá está você!, de cabelo quase curto, de óculos quase perfeitos, com esse sorriso quase tão familiar. Sensação de que tudo fora combinado. Dia e lugar. Roupa e caminho. É verdade que se tivesse sido feito pelo menos o rascunho desses teus olhos extraordinários, sempre tão extraordinários que por um pouco não perdem a graça, de alguma forma acredito que não iriam me parecer tanto assim. São essas coisas que a surpresa da primeira vez sempre aumenta. Depois seria só mais um olhar extraordinário, entre os tantos que por aí agraciam as coisas com um simples segundo de atenção, e que depois não servem pra mais nada que não existirem pra sempre pra quem fecha os olhos.

Volto. De nada serve. Olho o relógio mesmo por hábito, sabendo que não é possível ter ao certo quanto tempo passei longe dos meus olhos,  sonhando com tudo que imagino serem teus olhos que tanto tem pra me contar. Acabo indo sem saber que tão bem te sei esperar, que tão bem soube chegar até aqui. Abro a porta. O silêncio deixa de ser som e fica mudo já mesmo na calçada. Ir e esperar. Acabo mesmo por ir ficando assim.

sábado, 3 de setembro de 2011

Despertar

Sonho com os rios das águas mais calmas, dos mares mais doces que abrirão meus olhos pra luz que vier de lá de dentro. Sigo nas asas mais do que leves, mais do que essenciais que me levaram sempre ao topo do meu castelo infinito e estrelado. Ser pleno é deixar pra trás quem fui, é se deixar pra trás mesmo cheio do medo que trago no peito. O caminho é um, o passo é outro. Nessa caminhada de passo leve é que o sereno leva a chave da verdade, deixa a pegada na areia que leva quem procura até a paz que sente.

Sinto a vida encenação sincera, teatro mágico que representa o maior partilhado em cada personagem nosso. Vão-se os atos, vão-se as falas, e no silêncio sobra apenas nossa luz que dispensa holofote, que é perfeita na singularidade do um que também é o outro. Desfazer os laços que não nos deixam voar, as amarras delicadas que nos prendem ao degrau que paramos na escada que transcende nosso ser.

Tua falta assusta, a vaidade assusta, e chega a morte e gela. Mas se sinto ser pleno esse instante, se acredito de fato que esse segundo que me passa antes mesmo de notar é o que busco, então não sei. Encontro em gestos, em mãos raras que afagam não só os raros, em tudo que liberta a mente e preenche o que o pensar nunca deixa vago. A busca é calma, tem o mesmo som da metade perfeita do arrepio quando inteiro. Despertar pro eterno é dormir sem medo pro fomos.

Que o fim não chegue nunca, que o caminho não tenha fim e nem limite. Que o sereno da alma seja calmo, que seja vindo dos nossos passos tortos pelo caminho que é perfeito.