sábado, 17 de outubro de 2009

Vermelho

era pequeno, devia ter uns 2 m². atrás de mim havia uma porta barulhenta, feita de boba pelo vento ou por qualquer pessoa que esbarrasse naquele metal velho; aliás, nunca soube se aquilo era metal ou não. na minha frente nada mais que um buraco e uma aba que me poupava do sol. o cheiro dali era uma mistura de almoço, com um pouco menta, canela e morango; além dos outros doces que não tinham sabor, mas deixavam um cheiro melado no ar. ali dentro só havia uma cadeira, dinheiro, balas e ingressos. essa cabine era vermelha por dentro, e não lembro de um dia ter reparado que cor tinha por fora.

já faz um tempo que trabalho por aqui, e nunca pensei que seria algo temporário por não ser um cara de muitos sonhos. eu só gostava de passar pela frente do cinema e ficar olhando, até que um dia, por acaso, me chamaram pra olhar de perto. não sei dizer não, da mesma forma que não sei reclamar; e deve ser por isso que naquela época eu era garoto, e agora faço a barba todas as tardes antes de ir para o meu mundo vermelho.

é tudo muito simples: pego os ingressos, devolvo o troco. as vezes até me poupam o comprimento e já vão logo dizendo o filme e a sessão. não me zango com isso, e acho até engraçado ver o estado de espírito das pessoas. quem vem sozinho é rápido, decidido; me dá o dinheiro contado e vai andando sem olhar pra trás. já os casais jovens sempre me cumprimentam, e volti meia tem um rapaz que pergunta qual bala eu aconselho para o filme, fazendo a moça ao seu lado ficar tão vermelha quanto o céu acima de mim. a propósito, o meu céu é abaulado e as vezes parece de fogo, cheio de nada além de algumas crateras de ferrugem.

vejo tanta gente, mas dificilmente me lembro de rostos. quase sempre me lembro de testas. não sei porque, mas me acostumei a fazer da testa a janela da alma, deixando de lado os irmãos que ficam abaixo da grande parede oleosa. na verdade devo ter ficado cego para olhos depois dela.

dela era pouco mais baixa do que eu sentado na banqueta que castigava minhas costas, e mesmo tendo os olhos tão escuros quantos os meus, sentia neles enormes refletores que faziam do meu céu, antes estrela morta, agora sol ofuscante. não sei que cor tinha o cabelo dela, e nem a cor do laço de seus sapatos. sei que em alguns dias era a última a sair, e pintava o caminho de perfume e som de saltos.

dela não voltou mais.

sabia todas falas, mas não sabia nenhuma cena. quando muito, dava uma espiada na tela por ser caminho pro banheiro. não gostava do horário do almoço ou de qualquer pausa. só queria ficar ali dentro, ouvindo e respirando meu vermelho. não pensava em muita coisa, e sempre alguém tinha que chacoalhar meu mundo pra dizer que por hoje tinha acabado. não que o resto era ruim, mas essa era uma boa hora.

me apoiava nos pés, e com minha cabeça no espaço prendia a respiração e fotografa a calçada a minha esquerda. voltava, sentava, respirava, pegava meu paletó e saía. ficava um pouco parado pros pulmões se acostumarem com aquele ar diferente, e para meus pés sentirem melhor a gravidade. sorria.

fazia da calçada meu tapete vermelho, e enquanto deixava meu casaco suspenso nas costas pelos dedos, guardava o isqueiro no bolso direito e segurava a fumaça no peito. escolhia alguma cena, lembrava das minhas falas e fazia dela correr de mim dobrando a esquina.acho que hoje é algum romance, e basta pra mim interpretar sozinho a cena que não vi.

vermelho faz minha vida quieta. dela faz minha vida simples.

''de um jeito tão certo que só cabe mesmo em mim.''

Nando Reis - Mosaico Abstrato

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Que comece a temporada

justo seria se a música lembrasse você, se a música fosse você.

que ao invés de entrar nos meus ouvidos e sair na forma do que não vejo, conseguisse fazê-la o som do seu nome no intervalo que silencia, para aí então poder tocar de novo e me fazer sonhar nesse teto branco de rádio desligado.

"4:03...''

Elephant Gun - Beirut


sábado, 5 de setembro de 2009

Fala

Por um segundo ele tinha ficado totalmente sozinho, quieto. nas ruas, nada mais que folhas; nas janelas, nada mais que cortinas; nos ouvidos, nada mais que vento e solidão.
Ele não era dali, e tinha medo de não ser de nenhum lugar. quando era perguntado sobre o maior medo, respondia rápido: ''ficar sozinho!''. lembrou disso, e no mesmo segundo, pensou que o que sentia era o retrato de 80 anos e uma cadeira de balanço frente a alguma janela fechada. apertava o peito, e tudo em volta soava como samba lento de letra triste.
Não sabia o que era, mas também não ousava romper aquele som do silêncio. não queria falar nem na hora de falar, não queria escutar nem na hora de escutar; naquele segundo, era nada. saiu de si, se contemplou sentado no topo daquela escada e por lá deve estar até agora.
Nas ruas, nada mais que folhas agora caídas; nas janelas, cortinas sendo fechadas como em fim de espetáculo; nos ouvidos, nada mais que pessoas e sua própria solidão. ele ainda não sabe como, mas de alguma forma, o segundo ainda fica por ali.

''And the vision that was planted in my brain,
Still remains
Within the sound of silence.''
Simon & Garfunkel - The Sound of Silence

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Rise

... daquelas vezes em que eu só queria ficar quieto, e só ele entendia o meu porque.

ele acordou, tomou seu banho e saiu com a música no ouvido. hoje, mais do que nos outros dias, fazia questão de parecer sereno e despreocupado toda vez que percebia estar sendo olhado por alguém. no ônibus, abria o livro e passava as páginas sem fitar mais do que duas ou três frases; e a medida que a pessoa do lado se levantava, seus olhos a acompanhavam até a janela, para por lá mesmo ficar até alguém reocupar o lugar vazio.

sempre soube que agia assim. e toda vez que recebia elogios, fazia questão de lembrar de atitudes como estas, e assim colocar seu ego no mesmo lugar que sempre tentava manter.

nas músicas encontrava a mulher com quem sonhava passar um tempo, e trocava aquelas como quem troca os dias que quer ver do próprio futuro. acreditava que, na proporção que ouvia as diferentes músicas, existiam várias mulheres que ele sonhava encontrar em uma só. ainda não sabe a levada que ela poderá ter, e procura artistas novos desesperadamente por ter certeza que ainda não a conhece.

ah, também acreditava ter nos filmes as cenas da sua vida reproduzidas. em cada filme de drama, um conflito pessoal que passará um dia; e em qualquer romance ou mesmo beijo que fosse, reprodução sem direitos autorais das noites acordadas de amor que um dia terá com sua música preferida.

é, ele não gostava nem um pouco da idéia de sonhar com alguma coisa ou com alguém. só que difíceis foram ''as elas'' que, mesmo com uma pequena atenção durante o dia, não o tivessem feito acordar de um sonho feliz; ou que tornaram seus banhos ensaios de um futuro compromisso mais sério, que surgiria depois de uma noite muito bem planejada.

queria apenas achar o porque de, de repente, ficar totalmente quieto; sem conseguir e sem tentar pensar em nada. se convenceu por um tempo que ficar em silêncio talvez signifique entender algo, mesmo que não saiba o que esse algo seja. e as vezes passava tempos com o olhar em nada e a cabeça em lugar nenhum.

na real, ninguém sabia o que ele realmente pensava.

podia ficar lá sentado, com alguma música no ouvido e o olhar bem perdido, pensando porque sua pele era tão seca. quando andava com passos mansos e sorrisos sem dentes, também nunca achei que fosse mais do que cena; queria sim era parecer alguma coisa que não é. enfim, ficar com alguma coisa no ouvido era mais do que suficiente pra deixar tudo naquela levada mais leve que aquele algo lhe causava.

no fundo, ele queria logo encontrar o som certo. a música que conseguisse roubar sua atenção sempre, e não só no primeiro minuto; e não só na primeira vez que a admirasse olhando séria pra frente; e não só nas vezes que lhe dava vontade; e não só quando via nela o que pensava ser o certo para aquele momento; e não só quando tudo em volta não fazia tanto sentido quanto aquilo.

agora, até que seu silêncio não me soa assim tão alarmante. sua maneira de pensar que não pensava na maneira de levar a vida; eu respeitava sempre, procurava entender sempre. principalmente quando era só uma...


''Gonna rise up, bringing back holes and dark memories.

Gonna rise up, turning mistakes into gold.''

Eddie Vedder - Rise